terça-feira, 31 de agosto de 2010

Marie Bonaparte


Marie psicanalista

Organizadora do movimento psicanalítico francês, a princesa consagrou sua vida à psicanálise com uma coragem e um entusiasmo de causar inveja a muitos de seus contemporâneos. Essa atividade incansável em favor da causa psicanalítica garantiu a ela um lugar de destaque na historia da psicanálise francesa, sobretudo nos seus inícios. No entanto, foi progressivamente desentendendo-se com as novas gerações de analistas. Já era uma opositora de Lacan e terminou por perder a liderança da Sociedade, na cisão de 1953, e ao longo dos anos seguintes.

Suas contribuições teóricas centraram-se na feminilidade e na sexualidade feminina. Era estudiosa, dedicada e escrevia muito bem. Seus textos são claros e se baseiam tanto em sua experiência clínica, como traduzem uma elaboração teórica que, embora siga as ideias de Freud sobre a sexualidade feminina - ou, como hoje denominamos, o monismo fálico -, também foi em alguma medida original e arrojada para sua época. Faz longas e significativas citações tanto de Freud, como de outros autores, inclusive da literatura. Tais citações ilustram seus pontos de vista e tornam a leitura agradável e rica.

Penso que seu interesse na sexualidade feminina era certamente motivado por questões pessoais, pois Marie sentia-se frustrada como mulher e julgava-se frígida. Em 1924, antes de iniciar sua análise com Freud, fez uma pesquisa com 200 mulheres, na qual avaliou o prazer sexual correlacionando-o com a distância entre o clitóris e a vagina, concluindo que a ausência de prazer coincidia com uma distância maior. Seu artigo “Considerações sobre as causas anatômicas da frigidez feminina”, publicado no periódico médico Bruxelles - Médical, sob o pseudônimo de A. E. Narjani, apontava a existência de duas causas para a frigidez: uma devida à inibição psíquica e outra de caráter vaginal anatômica. Acreditou nos benefícios de uma intervenção cirúrgica que, aproximando o clitóris da vagina, favoreceria, dessa forma, o orgasmo. Apesar do autoconhecimento que sua análise lhe proporcionou e da oposição de Freud, foi a primeira paciente a submeter-se a essa operação, e por três vezes, em 1927, 30 e 31. Estava convencida que sua frigidez se devia, sobretudo, a essa falha anatômica, mesmo tendo descoberto em sua análise que tais dificuldades possivelmente se ligavam a questões emocionais. Conseguiu localizar um trauma de infância capaz de explicar suas dificuldades: a partir do seis meses até por volta dos 3 anos, testemunhara sua babá mantendo relações sexuais com o capataz (e também seu meio-tio) da propriedade.

Um dos pilares de sua produção teórica foi a “descoberta da cena primária”. Como muitos dos primeiros psicanalistas, a princesa usou situações de sua história pessoal para ilustrar seus pontos de vista. Em seu artigo “Notes on the analitical discovery of the primal scene” (1945), descreve um caso clínico - o seu próprio, como iríamos saber mais tarde - em que, através de sonhos, lembranças da infância e pequenos contos que a paciente escrevia quando criança - aqueles escritos a partir dos 7 anos em inglês -, é recomposta na análise a lembrança da cena primária observada de forma frequente, durante os seus três primeiros anos de vida. Nesse texto primoroso, em que acredita ter encontrado uma confirmação para a teoria analítica da existência da cena primária, Marie, como Freud, afirma que a capacidade de investigar com sucesso as recordações infantis se relaciona ao chamado instinto epistemofílico, que por um lado é estimulado pela curiosidade sexual e por outro propicia o desenvolvimento das capacidades intelectuais.

Outro ponto fundamental foi sua teorização sobre o masoquismo como uma característica feminina. No artigo “Passivity, masochism and femininity” (1934), afirma que a feminilidade e o masoquismo estão estreitamente ligados. Enquanto para o homem as funções reprodutivas coincidem com a função erótica, para a mulher a sexualidade está completamente entranhada à dor. Dor narcísica presente já na descoberta da diferenças entre os sexos: castrada, a mulher está destinada a invejar o pênis.

A mulher, por outro lado, submete-se periodicamente aos sofrimentos da menstruação ... e o ato sexual, em si, se inicia com um processo que envolve em certo grau o derramamento de seu sangue, ou seja, o ato da defloração; finalmente a gestação é acompanhada por desconforto e, o parto, por dor, e mesmo a amamentação é frequentemente sujeita a distúrbios dolorosos (Bonaparte, 1934/1975, p. 279).2

A única função reprodutiva que estaria livre de sofrimento seria o ato sexual. A mulher, diz Bonaparte, tem duas zonas erógenas lado a lado, o clitóris e a vagina, e entre elas pode haver um antagonismo, com o predomínio do prazer clitoridiano e uma frigidez vaginal, ou essas zonas podem funcionar em uma harmoniosa colaboração. Entretanto, aí atuam possíveis consequências causadas pelo trauma da visão da cena primária. Quanto mais cedo acontecem as observações, maior o colorido sádico que emana da própria vida pulsional, e essa cena permanecerá na mente de quem a testemunhou, não como lembrança, mas como fantasia inconsciente. Com o desenvolvimento do ego, essa cena é modificada por todas as fantasias sadomasoquistas que se formam nas crianças de ambos os sexos. Os meninos, entretanto, se evadirão dos perigos centrípetos cloacais que a concepção sádica do coito traz para o seu próprio corpo, pois, como possuidores de pênis, tendem a se identificar com o centrífugo e vital. Nas meninas, a concepção sádica do coito, quando muito enfatizada, vai perturbar grandemente o desenvolvimento da função erótica. Tendo sua constituição anatômica, elas passam a temer terrivelmente que seu corpo seja penetrado, e as possíveis visões do sangue menstrual ou comentários sobre a dor no parto e cólicas contribuirão para o fortalecimento da terrível crença no ataque sexual feito pelo homem na mulher, que acreditam ser, de fato, a causa do sangramento e do sofrimento. Em decorrência de todo esse quadro, a única função erótica feminina livre de dor física é revestida desse significado. Ou seja, para a mulher não há prazer sem dor. Para completar esse quadro sombrio, afirma ainda que a mulher é passiva no ato sexual e depende do homem para obter satisfação. Todo prazer experimentado no ato sexual deriva da virilidade contida no orgasmo feminino.

É verdade que na aceitação do papel feminino pela mulher possa haver certa dose homeopática de masoquismo, e isso combinado com a passividade da mulher no coito a impelem a aceitar e mesmo valorizar certa dose de brutalidade da parte do homem (...) Mas uma verdadeira distinção entre masoquismo e passividade deve ser estabelecida na mente feminina para que sua função erótica passiva seja normalmente aceita em bases sólidas. De fato, o coito vaginal normal não machuca a mulher, ao contrário (Bonaparte, 1934/1975, p. 284).

Marie Bonaparte vai se dedicar ao estudo da vida pulsional e, em especial, às origens da dupla sadismo-masoquimo. No texto “Some biopsychical aspects of sado-masochism” (1945), revisa de forma extensa e cuidadosa a teoria freudiana das pulsões até 1925, enfocando particularmente as origens e as vicissitudes do sadismo e do masoquismo. Cita um romance do marquês de Sade, “Histoire de Juliette: les prospérités du vice”, para introduzir a crueldade na luxúria e afirma que, como Freud, em “O problema econômico do masoquismo”, Sade também considera o masoquismo como precursor do sadismo. De Sade, igualmente aponta a importância da morte como um instinto componente da vida que visa à desintegração e, com isso, se aproxima ao conceito freudiano de pulsão de morte. Nesse texto, reafirma que a sexualidade feminina tem pontos de apoio importantes no masoquismo, que são mesmo determinados biologicamente. Para Bonaparte, a cena primária realmente testemunhada marca de forma profunda e traumática a menina, que equacionará a penetração do coito a um ataque perpetrado pelo homem. Uma confusão psíquica pode surgir entre a penetração que machuca e a erótica. O menino também passaria por temores semelhantes - uma vez que Marie defende a natureza bissexual do ser humano -, mas, tendo um pênis, sua identificação se faz mais facilmente com aquele que perfura e não com o perfurado. Restaria às meninas o terror de viver essa penetração como uma perfuração, o que pode resultar num novo investimento das posições defensivas masculinas.

Assim, das lembranças da cena primária, perdidas em meio à amnésia infantil, e dos traços deixados em cada inconsciente, pode resultar o conceito de coito sádico que leva a mulher a se afastar da aceitação do falo penetrante, que se liga imaginariamente a uma arma perfurante. Mas pode acontecer, por vezes, que o homem predisposto ao sadismo crie a contraparte para esse conceito de coito sádico, no qual o conceito erógeno do machucar, de arma perfurante, é falicizado e erotizado. Nesse caso, o simbolismo fálico da faca é tomado pela mente como literal (Bonaparte, 1945/1973, p. 182).

Utiliza Marie os versos de Baudelaire do poema “Aquela que é tão jovial” (“A celle qui est trop gaie”)3 como ilustração para essa confusão entre a penetração que machuca e a erótica. A natureza da pulsão feminina, passiva, em que prazer e dor estão juntos e inseparáveis, pode estar subjacente a esse conflito.

O erotismo tende a ligar esse terror de invasão - e frequentemente tem sucesso em fazê-lo - por investir masoquisticamente a confusão entre a penetração que machuca e a erótica, ou por estabelecer tal penetração como predominantemente erótica. Entretanto, uma dose homeopática de masoquismo permanece necessária, mesmo para a aceitação feminina da penetração mais erógena (Bonaparte, 1945/1973, p. 180).

Marie escreveu por toda a sua vida e suas obras dão uma espécie de testemunho dos períodos por que passou. Durante os anos de guerra (1941 a 45), em que a desmobilização foi quase geral na Sociedade de Paris, a princesa manteve-se ativa, escrevendo artigos e cartas, analisando pacientes e dando cursos no hospital psiquiátrico, no exílio na África do Sul e no Sul da França. É desse período “Mitos de guerra”, artigo publicado em 1946, que se originou de conferências lidas perante o Instituto de Psicanálise, ainda aberto no inverno de 1939. Nesse texto, fala sobre as fantasias coletivas surgidas nos primeiros meses da guerra, em especial sobre as queixas das mulheres dirigidas aos responsáveis pelo exército em relação ao uso indiscriminado de bromato no vinho dos soldados (é sabido que o bromato favorece a impotência sexual). Sobre esse tema versará uma das duas únicas publicações de membros da Sociedade de Paris, na época: “O mito do bromato no vinho”, por John Leuba.

No retorno a Paris, terminada a guerra e a desocupação, a princesa teme agitações entre os psicanalistas franceses após os anos conturbados em que o grupo mantivera-se pouco ativo e dividido. Havia rumores de que um ou outro analista havia “colaborado com os alemães”. A princesa prevê rivalidades e ataques de uns contra os outros, o que de fato se dá na instauração de um processo judicial de depuração contra René Laforgue. Nada fica provado, mas Laforgue deixa ter qualquer influência na Sociedade. Em meio a um ambiente pouco produtivo e muito solicitador, a princesa passa cada vez mais tempo no Sul da França, de onde escreve, atende pacientes e dá seguimento à sua vida como psicanalista. Cito um pequeno trecho da carta de Paul Jury a Loewenstein, datada de 1946:

Segundo o que entendi, a Sociedade de Paris tornou-se um cesto de caranguejos. A guerra fez dessas coisas. A princesa reina sempre ou pelo menos o desejaria, mas ela não paga mais nada. Enquanto nossos analistas ainda estão no estágio oral, não tendo leite nem mamãe nutridora, não sabem o que fazer. Briga-se com entusiasmo. Parchenimey dirigindo o concerto, desprezado por todos, mas ativo. Acabou-se por colocar Laforgue em frente a uma comissão depuradora, Parcheminey levando as coisas às ocultas e Leuba em primeiro plano. Mas no processo tudo desmoronou, foi necessário em sessão renunciar à acusação (Mijolla, 1988, p. 190).

Outras obras não menos importantes são Marie-Felicite: um caso de loucura criminal, escrito em 1927; os Cinco cadernos, uma série de ensaios autobiográficos, em que comenta sua análise e suas lembranças infantis; e os Cahiers noirs, relato de lembranças íntimas de sua vida e de sua análise.

Escreve ainda uma psicobiografia em três volumes sobre Edgar Allan Poe, obra em que também apreendemos ressonâncias de sua infância. Quando criança, Marie tinha um terrível medo de fantasmas, o que novamente sentiu ao reler os poemas de Poe, entre eles, particularmente, “Legeia”. Célia Bertin nos informa que durante um dos períodos de análise com Freud, Marie pôde explorar esses temores e compreender a que esse monstro temido se relacionava. Tinha medo do retorno da mãe, que teria matado ao nascer e que estaria de volta, feito um ogro edipiano, para vingar-se. Sentia-se cúmplice, por seu nascimento, do assassinato cometido pelo pai. Trabalhando em sua análise, passa a ter consciência do que tanto a atormentara, e sente que pode escrever uma obra em que expresse suas descobertas e conhecimentos tão custosamente adquiridos. Escolhera, por isso, fazer um estudo analítico da biografia e obra de Edgar Allan Poe.

Seu percurso na psicanálise passa - e talvez isso seja inexorável - por suas questões pessoais, e sua grande questão foi em relação à sexualidade. Marie procurou Freud em meio a uma profunda depressão, referindo-se especificamente ao seu intenso sofrimento nas relações afetivas com o sexo oposto e à falta de prazer nas relações sexuais. Possivelmente, sua história de vida, sua elaboração pessoal sobre a morte da mãe e a (im)possível identificação com ela, a falta de trocas afetivas significativas com o pai e a rispidez da avó, a culpa edípica, o casamento frustrado e uma busca incessante por relacionamentos que a preenchessem afetiva e sexualmente tenham moldado seus interesses. Marie Bonaparte teve ainda uma curta análise, mesmo para os padrões da época, que depois foi retomada de tempos em tempos. Podemos nos questionar se sua teorização psicanalítica, apesar de rica, não está excessivamente permeada pela elaboração subjetiva de suas fantasias e teorias infantis.

Para Ethel Person, suas contribuições compreendem o desenvolvimento sexual, mas também traços de caráter associados à feminilidade, dentre eles a passividade, o masoquismo e o narcisismo. Reconhece ela em Bonaparte uma observadora astuta: a maior parte do que descreveu no desenvolvimento psicossexual ainda é observado nas análise de mulheres. Portanto, seus insights são muito úteis clinicamente, até os dias de hoje; o erro de Marie Bonaparte teria sido o de confundir o sentido de certos temas, que emergiam na análise, com causalidade. Como atribuir tanto à observação da cena primária? Masoquismo e feminilidade têm uma determinação muito mais complexa do que Bonaparte supunha. Penso que, em cada um de nós, as determinações inconscientes, transgeracionais e socioculturais são fundamentais para a formação do conceito do que é ser homem ou mulher.






Uma carta de Freud a Marie Bonaparte

Grinzing, 13 de agosto de 1937.

Minha cara Marie:¹

Posso responder-lhe sem demora, pois tenho pouco a fazer. O “Moisés” II foi concluído anteontem, e as pequenas dores esquecemos melhor numa troca de idéias com amigos.

Para o escritor, a imortalidade significa que ele será amado por muitas pessoas desconhecidas. Mas eu sei que não chorarei sua morte. Pois você sobreviverá a mim por muitos anos e, espero, se consolará rapidamente, e me deixará seguir vivendo em sua memória amiga, a única espécie de imortalidade limitada que reconheço.

No momento em que nos perguntamos sobre o valor e o sentido da vida, estamos doentes, pois objetivamente tais coisas não existem. Ao fazê-lo, apenas admitimos possuir um quê de libido insatisfeita, a que algo mais deve ter acontecido, uma espécie de fermentação que conduz à tristeza e à depressão. Essa minha explicação não é grande coisa, certamente. Talvez porque eu mesmo seja muito pessimista. Anda em minha cabeça um advertisement que considero o mais ousado e bem-sucedido exemplo de propaganda americana:

Why live, if you can be buried for ten dollars?

(Por que viver, se você pode ser enterrado por dez dólares?)

Lün refugiou-se junto a mim, depois de um banho. Se a compreendo bem, manda que lhe agradeça a lembrança.

Topsy² já sabe que está sendo traduzida?

Escreva breve!

Afetuosamente,

Freud

___________________
1 Marie Bonaparte (1882-1962), princesa da Grécia, foi paciente, depois discípula e amiga de Freud. (N. O.)
2 Lün era uma cadela de Freud, da raça chow. Topsy, também uma cadela chow, pertencia a Marie Bonaparte; a última frase se refere ao trabalho que Marie Bonaparte escreveu sobre ela, que estava sendo traduzido por Freud e a filha Anna. (N. O.)



O Evangelho à luz da psicanálise de Françoise Dolto











Autor: Françoise Dolto / Gérard Sévérin Título: O Evangelho à luz da psicanálise Volume 1 Editora: Imago Ano: 1979 Páginas: 159 Comentário : Entrevista por Gérard Sévérin. (Coleção Psicologia psicanalítica). Uma interpretação psicanalítica da vida e dos milagres de Jesus; p. ex. a ressurreição do filho da viúva de Naim: sua morte era a negação..



Keila, creio que só vamos encontrá-los em sebos, e bons!
Pois são livros raros.

Françoise Dolto


Médica e psicanalista francesa, Françoise Dolto nasceu a 6 de Novembro de 1908. Defendeu tese em Medicina, em 1939, sobre o tema das relações entre a psicanálise e a pediatria. Teve um grande mestre na sua vida que a aconselhou em diversos momentos, Édouard Piehon.
O método de trabalho usado com as crianças consistia em abandonar a técnica do jogo e da interpretação dos desenhos e em praticar uma escuta capaz de traduzir a linguagem infantil. Segundo Dolto, o psicanalista deveria usar as mesmas palavras que a criança e comunicar-lhe os seus próprios pensamentos sob o seu aspecto real.
Em 1938, conhece Jacques Lacan que acompanhou ao longo da sua carreira de psicanalista. Durante 40 anos, Lacan e Dolto seriam o casal "parental" para gerações de psicanalistas franceses.
Em 1940, inaugura no Hospital Trousseau um consultório aberto a todos os analistas que desejassem formar-se na prática da psicanálise das crianças. Este consultório foi encerrado em 1978, na sequência de diversas controvérsias.
Em 1953, acompanhou Daniel Lagache na criação da Sociedade Francesa de Psicanálise, na qual começou a formar alunos.
Publicou diversos livros, todos eles ligados à psicanálise de crianças e adolescentes e fez vários estudos e tratamentos longitudinais de adolescentes com problemas.
Em 1977, com Gérard Sevérin, psicanalista e editorialista do Jornal La Vie , propôs uma leitura psicanalítica dos Evangelhos, que a levou a conferir um significado espiritualista à questão do desejo, concebido como uma transcendência humanizante e a acrescentar uma base mística à sua tese da imagem do corpo. Esse livro - A Psicanálise dos Evangelhos - foi traduzido em nove línguas e criticado tanto pelos cristãos, quanto pelos teólogos e pelos psicanalistas, gerando muita polémica na época.
Em Janeiro de 1979, criou em Paris a primeira "Casa Verde", para acolher crianças até aos três anos, acompanhadas pelos pais. Tratava-se de evitar os traumas que marcam a entrada no pré-escolar e de manter a segurança que a criança adquire no nascimento e vai perdendo ao longo do tempo. Obteve um imenso sucesso e muitas outras "Casas Verdes" foram inauguradas, no Canadá, Rússia, Bélgica, etc.
Durante a sua carreira, pela rádio e televisão, continuou a lutar pela "causa" das crianças, à qual dedicou toda a sua vida profissional. Faleceu em 1988.
Publicou, entre outros, Psicanálise e pediatria: as grandes noções da psicanálise , dezasseis observações de crianças; L'image inconsciente du corps , onde aborda a sua teoria sobre a imagem do corpo; Como educar os nossos filhos: compreensão e comunicação entre pais e filhos ; As etapas da infância: a relação entre os pais e filhos: do nascimento aos quatro anos ; Transtornos na infância: reflexões sobre os problemas psicológicos e emocionais mais comuns na criança ; O caso Dominique: relato exaustivo do tratamento analítico de um adolescente ; e o polémico A Psicanálise dos Evangelhos .




Como referenciar este artigo:
Françoise Dolto. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2010. [Consult. 2010-08-31].

Fonte:http://www.infopedia.pt/$francoise-dolto

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

A história de Anna Freud



Nascida no dia 03 de dezembro de 1895, Anna era a mais jovem dos seis filhos de Sigmund e Martha Freud. Anna não fora desejada nem por sua mãe, nem por seu pai, que decidiu, depois de seu nascimento, permanecer casto por não poder utilizar contraceptivos. Ela era uma criança viva com uma reputação para traquinagens. Freud escreveu ao amigo dele Fliess em 1899: “Anna está completamente bonita por sua desobediência....” Quando a sua irmã rival a ela se casou em 1913, a Anna escreveu ao pai dela. “Eu estou alegre que Sophie se casa, porque a disputa interminável entre nós era horrível para mim.” Anna teve de lutar para ser reconhecida pelas qualidades de que dispunha: coragem, tenacidade e o gosto pelas coisas do espírito. Não tendo nem a beleza de sua irmã Sophie Halberstadt nem a elegância de Mathilde Hollitscher, sentia-se em estado de inferioridade na família, na qual se esperava que só os herdeiros masculinos fossem talentosos para os estudos.
Rivalizando desde a infância com sua tia Minna Bernays, passou a adolescência invejando a doutrina que a privava de seu pai adorado. Na idade adulta, para aproximar-se dele, decidiu entrar para o círculo de seus discípulos. Mas como estava impedida de ir para universidade estudar medicina, tornou-se professora primária. Exerceria essa profissão durante toda a Primeira Guerra Mundial, de 1914 a 1920 exatamente.
Anna terminou sua educação básica em Viena em 1912. Em 1914 ela viajou para a Inglaterra no intuito de melhorar o inglês . Ela estava lá quando a guerra foi declarada e assim se tornou um “estrangeiro” inimigo (25 anos depois, em 1939, seria repetida esta experiência). Ela teve que voltar a Viena, com o embaixador Austro-húngaro e a companhia dele.
Ensinou na escola em que estudou, a “Cabana Lyceum”. Um dos alunos dela escreveu depois: “Esta jovem senhora teve muito mais controle sobre nós que as titias mais velhas.”
Já em 1910 Anna tinha começado a ler o trabalho do seu pai, porém o seu primeiro contato com o movimento psicanalítico ocorreu em 1913. Por ocasião de uma viagem a Londres, encontrou-se subitamente implicada no centro das relações de seu pai com Ernest Jones. Acompanhando Loe Kann, amante de Jones então em análise com Freud, Anna foi cortejada por ele. Prevenido por Loe, Freud reagiu muito mal e dirigiu a Jones sérias advertências, ao mesmo tempo em que proibia à filha embarcar em uma aventura sem futuro com um “velho celibatário” astuto. Não contente de agir como pai autoritário, fez com que Loe se analisasse para interpretar o comportamento de seu discípulo: “Jones, disse ele, faz a corte a Anna para vingar-se do fato de que sua amante quer deixa-lo, graças ao sucesso de seu tratamento.” A partir desse dia, Freud começou a desviar de sua filha todos os pretendentes que ousavam fazer-lhe a corte (Hans Lampl, notadamente). Jones esperou quarenta anos para explicar-se com Anna e confessar-lhe que continuava a amá-la.
Depois da morte prematura de Sophie e do casamento de Mathilde, Anna Freud tornou-se a Antígona da casa paterna, ao mesmo tempo discípula, confidente e enfermeira. Quanto a Freud, não hesitou em analisa-la por duas vezes: entre 1918 e 1920 e entre 1922 e 1924 (Não era anômalo para um pai analisar sua própria filha naquele momento, antes de qualquer ortodoxia tivesse sido estabelecida). Dez anos depois, tentaria justificar sua decisão: “Com minha própria filha tive sucesso, com um filho têm-se escrúpulos especiais.” Na verdade, Freud não se iludia com essa explicação edipiana. Sabia muito bem que essa análise tivera como efeito reforçar o amor que Anna lhe dedicava e que a afirmação do “sucesso” do tratamento não era mais do que a expressão de uma paixão impossível de resolver. E foi com toda a franqueza que expressou a Lou Andréas- Salomé o seu verdadeiro sentimento: era tão incapaz de renunciar a Anna quanto deixar de fumar.
Do seu lado, Anna sofria com o escândalo que essa paixão suscitava no movimento psicanalítico. Foi por isso que tomou como confidentes Max Eitingon e Lou Andréas- Salomé. Ambos tiveram um papel analítico, o primeiro tentando afastá-la do pai, a segunda estimulando-a, ao contrário, a assumir essa situação transgressiva: “Pouco importa o destino escolhido, disse ela, desde que ele se cumpra até o fim.” Lou tinha razão, pois afinal foi no desabrochar completo dessa piedade filial que Ana pôde dar um significado verdadeiro à sua existência de mulher e chefe de escola no movimento freudiano. Manteve com o pai uma correspondência de 300 cartas, de ambos os lados, ainda não publicada, mas disponível na Biblioteca do Congresso de Washington.
Em 1920 Anna e Freud assistiram ao Congresso Internacional de Psicanálise e foi no campo da psicanálise de criança que Anna Freud ingressou no movimento. Em 1922, apresentou à Wiener Psychoanalytische Vereinigung (WPV) um primeiro trabalho, intitulado “Fantasias e devaneios diurnos de uma criança espancada”. Cinco anos depois, publicou sua obra principal, “O tratamento psicanalítico das crianças”. Paralelamente, assumiu a edição das obras do pai, “Gesammelte Schriften”, concluída em 1924. No ano seguinte, foi eleita diretora do novo instituto de psicanálise de Viena, recém-criado. Assim, começou a assumir as responsabilidades institucionais que iriam fazer dela a grande representante da ortodoxia vienense, em uma época em que Melanie Klein, sua terrível rival, começava a grande reformulação teórica da obra freudiana. Entre essas duas mulheres, representantes de duas correntes divergentes no seio da Internacional Psychoanalytical Association (IPA), entendimento algum nunca seria possível.
Após o ingresso de Anna no campo psicanalítico, tive em comum com o seu pai o trabalho e os amigos. Uma amiga comum era a escritora e psicanalista Lou Andreas-Salomé que era o confidente de Nietzsche e Rilke e quem iria se tornar o confidente de Anna Freud nos anos vinte. Através de Freud conheceu também Rilke cuja poesia que Anna Freud grandemente admirou. Os interesses literários de Anna pavimentaram o modo para a carreira futura dela.
Cercada pelos mais notáveis discípulos vienenses da primeira hora, Siegfried Bernfeld August Aichhorn, Wilhelm (Willi) Hoffer (1897-1967), Anna criou em 1925 o Kinderseminar (Seminário de Crianças), que se reunia no apartamento da Berggase. Depois das experiências infelizes de Hermine von Hug-Hellmuth, tratava-se então de formar terapeutas capazes de aplicar os princípios da psicanálise à educação das crianças.
No mesmo ano, conheceu Dorothy Burlingham, que se tornou sua mais cara amiga por toda a vida. Através dessa mulher, Anna realizou seu desejo de maternidade. Com uma espécie de devotamento místico, ocupou-se dos quatro filhos de Dorothy: Bob (Robert), Mabbie (Mary), Katrina (Tinky) e Michael (Mickey). Todos sofriam de distúrbios psíquicos mais ou menos graves e Anna lhes serviu de mãe, educadora e analista.
Para eles, criou com Erik Erikson, Peter Blos e Eva Rosenfekd (1892-1977), sobrinha de Yvette Guilbert, uma escola especial, que foi depois freqüentada por crianças cujos pais se analisavam: “Para esses analistas que gravitavam em torno de Freud e da família Burlingham em Viena, escreveu Peter Heller, a psicanálise era realmente uma religião, um culto, uma Igreja[...]. Minha vida se passava na escola muito particular das Burlingham-Rosenfeld, marcada pela personalidade de Anna Freud e por sua concepção de uma pedagogia psicanalítica. Entre outras coisas, embora isso tenha sido negado depois, a escola consistia em uma experiência progressiva e elitista de educação de crianças [cujos pais] faziam análise. Uma experiência privilegiada, muito promissora, inspirada e animada por um ideal de humanidade mais puro e mais sincero do que todos os outros estabelecimentos que freqüentei. Ali, difundia-se um autêntico sentido de comunidade.”
Em 1922 Anna Freud apresentou um trabalho à Sociedade Psicanalítica de Viena e se tornou uma sócia da Sociedade. Em 1923 ela começou a praticar uma clínica psicanalítica com adultos e depois com as crianças e após dois anos estava ensinando em um seminário no Instituto de Treinamento Psicanalítico de Viena na técnica de análise de criança. O trabalho dela resultou em um livro, originado de uma série de conferências para os professores e pais o qual o intitulou como Introdução à Técnica de Análise de Criança (1927). Depois ela disse deste período: “Olhando para trás, então em Viena, nós éramos tão entusiasmados, cheio de energia, era como se um continente novo inteiro estivesse sendo explorado, e nós éramos os exploradores, e nós tivemos uma chance para mudar coisas ...”
Em 1923 Sigmund Freud começou a sofrer de câncer e ficou crescentemente dependente no cuidado de Anna. Mais tarde, quando ele precisou de tratamento em Berlim, ela o acompanhou. A doença dele também era a razão por que um “Comitê Secreto” foi formado para proteger a psicanálise contra ataques. De 1927 a 1934 Anna Freud era a Secretária Geral da Associação Internacional de Psicanálise. Ela continuou a prática de análise em crianças e realizou e organizou seminários e conferências e, em casa, continuou ajudando no tratamento do seu pai. Ela também agiu como o representante público dele em várias ocasiões como a dedicação de uma placa no local de nascimento dele em Freiberg ou o prêmio Goethe em Frankfurt.
Enquanto Melanie Klein inventava uma nova prática da análise infantil, Anna Freud seguia o caminho indicado pelo pai desde o tratamento de Herbert Graf (o pequeno Hans). Considerando que uma criança é frágil demais para ser submetida a uma verdadeira análise, com exploração do inconsciente, defendia o princípio do tratamento sob a responsabilidade da família e dos parentes, e mais geralmente sob a tutela das instituições educativas. Segundo ela, o complexo de Édipo não devia ser examinado muito profundamente na criança, em razão da falta de maturidade do supereu. Nesse campo, a abordagem analítica devia ser integrada à ação educativa.
A fraqueza da doutrina annafreudiana vinha da ausência de reflexão sobre os laços do filho com a mãe. Aos olhos de Anna, só contava a relação com o pai. Daí a prioridade dada à pedagogia do eu, em detrimento da exploração inconsciente.
Depois da ruptura com Otto Rank, Anna Freud foi admitida em seu lugar no Comitê Secreto. Teve então a impressão de fazer parte, finalmente, dos paladinos da “causa” analítica, o que a aproximava ainda mais do pai. Assim, tornou-se a guardiã da ortodoxia freudiana.
Em 1935 a Anna se tornou a diretora do Instituto de Treinamento Psicanalítico de Viena. Em 1937, graças ao dinheiro de uma rica americana Edith Jackson (1895-1977), que foi a Viena analisar-se com Freud, Anna criou um pensionato para crianças pobres, ao qual deu o nome de Jackson Nursery. A experiência se inspirava na de Maria Montessori. Anna e Dorothy que dirigiram a escola puderam observar o comportamento infantil e experimentar outros padrões. Eles permitiram as crianças escolherem à própria comida e respeitaram a liberdade para se organizarem. Anna escreveu “...eles aprenderam mover livremente, comer independentemente, falar, expressar as suas preferências, etc.”. Mas em 1938 de março, o berçário teve que ser fechado dentro de alguns meses, pois a Áustria foi invadida pelos Nazistas, e a família Freud teve que fugir, embora a saúde doente de Sigmund Freud.
O Ernest Jones e Princesa Marie Bonaparte proveram ajuda vital obtendo os documentos de emigração. Mas era a Anna acima de tudo que teve que lidar com a burocracia Nazista e organizar as viabilidades da emigração da família para Londres em 1938. Anna se estabeleceu depressa na sua nova casa. Ela escreveu: “A Inglaterra é realmente um país civilizado, e agradeço que nós estamos aqui. Não há nenhuma pressão e há muito espaço e liberdade à frente.”
Emigrou acompanhada de muitos vienenses que se exilariam depois nos Estados Unidos. Os kleinianos sentiram esse desembarque da “legitimidade freudiana” como uma verdadeira intrusão. Há muito tempo a British Psychoanalytical Society (BPS) estava dominada pelas teses kleinianas, que haviam transformado radicalmente o freudismo clássico. Não só os psicanalistas ingleses tinham-se afastado de seus colegas do continente, mas também sua prática, sua mentalidade, suas orientações clínicas, até seus conflitos –notadamente em torno de Edward Glover- não tinham mais nada a ver com as querelas do mundo germanófono. Ora, nessa época, Anna acabava de publicar sua obra maior, “O eu e os mecanismos de defesa”, que se chocava com as pesquisas da escola inglesa. O livro era um movimento longe das bases tradicionais de pensamento psicanalítico nos passeios: tornou-se um trabalho fundando na psicologia do ego e estabelecida a sua reputação como uma teórica abrindo caminho. O conflito era pois inevitável e ocorreria depois da morte de Freud, com a explosão, em 1941, das Grandes Controvérsias.
Depois da erupção de guerra a Anna montou um Berçário e Creche de Guerra Hampstead, que proveu cuidado para mais de 80 crianças. Ela contribuiu para ajudar as crianças e incentivava as mães a que as visitassem freqüentemente. Ela publicou estudos das crianças debaixo de tensão em “Crianças Jovens em Tempo de Guerra” e “Crianças Sem Família” junto com Dorothy Burlingham. Depois ela disse: “Eu fui especialmente afortunada toda minha vida. Desde o começo, eu pude me mover de um lado para outro entre prática e teoria.”
Na Normalidade de livro dela e Patologia em Infância (1965) ela resumiu material de trabalho na Clínica de Hampstead como também observações ao Bem Clínica de Bebê, o jardim-escola e jardim-escola para as Crianças Cegas, a Mãe e Grupo de Criança e os Berçários de Guerra. Em análises de criança Anna identificou sintomas de transferência para os que mostraram a “estrada real o inconsciente”.
Próxima das posições da “Ego Psychology”, Anna Freud retomava a noção de defesa para fazer dela o pivô de uma concepção de psicanálise centrada não mais no isso, mas na adaptação possível do eu à realidade. Daí a importância muito grande dada aos mecanismos de defesa, mais do que à defesa propriamente dita. A obra teve grande sucesso nos Estados Unidos e marcou o nascimento do annafreudismo, segunda grande corrente representada na International Psychoanalytical Association (IPA).
Esgotada pelas controvérsias e decepcionada com a evolução do movimento analítico que ela via cada vez mais afastado do freudismos original, Anna Freud conservou todavia muitos amigos de outrora, que a admiravam por seu devotamento, sua generosidade e seu senso de fidelidade, e com os quais podia evocar saudosamente o antigo esplendor vienense. Entre eles, Ernst Kris, Marianne Kris, Heinz Hartmann, René Spitz, Richard Sterba, etc. Isolada em Londres, mas instalada na magnífica mansão de Maresfield Gardens 20, que se tornaria o Freud Museum, prosseguiu com suas atividades em favor da infância, criando as Hampstead Nurseries, sempre com a ajuda de Dorothy Burlingham. Em 1952, fundou a Hampstead Child Therapy Clinic, centro de terapia e pesquisas psicanalíticas, onde aplicou suas teorias em estreita colaboração com os pais das crianças atendiada.
Guardiã da herança freudiana, tratou não só da publicação das obras do pai e de seus arquivos, como também dos membros da família, principalmente os sobrinhos. Durante os anos 1970, continuou a desempenhar o papel de mãe para os filhos de sua amiga Dorothy. Dois deles tiveram um fim dramático: Bob morreu de uma crise de asma depois de atravessar vários episódios de depressão, e Mabbie acabou suicidando-se, ingerindo uma alta dose de medicamentos.
Em 1990, tornando-se professor de literatura, Peter Heller publicou um depoimento comovedor sobre as suas lembranças da análise com Anna Freud. Nascido em Viena em 1920, submeteu-se a um tratamento com ela entre 1929 e 1932. Depois, casou-se com Tinky, filha de Doroty Burlingham, e em seguida passou ainda longos anos no divã de Kris. O relato de seu tratamento, acompanhado das notas que Anna lhe entregou, revivia a estranha confusão dos anos 1920-1935, durante a qual Anna e seu pai misturaram tão estreitamente o divã, a família e a vida particular. Peter Heller mostrava, principalmente, o caráter sufocante da posição “materna” ocupada por Anna, ao passo que, em sua doutrina, ela não levava em conta o vínculo arcaico com a mãe.
Dos anos cinqüenta até o fim da vida dela o Anna Freud viajou regularmente para os Estados Unidos para dissertar, ensinar e visitar os amigos. Durante os anos setenta ela se preocupou com os problemas de trabalhar com crianças emocionalmente privadas e socialmente desvantajosas, e ela estudou divergências e demoras em desenvolvimento. Na Yale ela ensinou seminários em crime e a família: isto conduziu a uma colaboração transatlântica com Joseph Goldstein e Albert Solnit e publicou como “Além os Melhores Interesses da Criança” (1973).
Ela também começou a receber uma série longa de doutorados honorários, enquanto começando em 1950 com Clark University (onde o pai dela tinha dissertado em 1909) e terminando com Harvard em 1980. Em 1967 ela recebeu um OBE de Rainha Elizabeth II; em 1972, um ano depois do primeiro retorno para a sua cidade nativa desde a guerra. A Universidade de Viena lhe premiou com um doutorado médico honorário: o ano seguinte ela foi eleita como presidente honorário da Associação de Psychoanalytical Internacional. Uma série de publicações dos seus trabalhos começaram em 1968, o último dos oito volumes ocorreu em 1983, um ano depois da sua morte. Em um assunto comemorativo de O Diário Internacional de colaboradores de Psicanálise na Clínica de Hampstead ofereceram um tributo para ela, e a Clínica foi renomeada de Anna Freud Centre. Em 1986 a sua casa durante quarenta anos, como tinha desejado, foi transformada no Freud Museum.
A um jovem analista que lhe enviou em 1979 um artigo prevendo a morte da psicanálise, ela respondeu com estas palavras: “Predizer a morte da psicanálise talvez esteja na moda. A única resposta inteligente é a que Mark Twain deu, quando um jornal anunciou, por erro a notícia de sua morte: ‘As notícias sobre minha morte são muito exageradas’. De qualquer forma, o sr. diz que os antigos ficaram indiferentes, o que é normal, pois sempre foram acostumados aos ataques. Sob muitos aspectos, é quando atacada que a psicanálise caminha melhor.”
Coberta de honras, mas incapaz de compreender a evolução do movimento psicanalítico, Anna Freud morreu em Londres em 1982 depois de enfrentar a tempestade provocada pelos adeptos da historiografia revisionista a respeito da publicação das cartas de Freud a Wilhelm Fliess.


Fonte http://escolaspsicanaliticas.vilabol.uol.com.br/biografiaafreud.html

Bibliografia

ROUDINESCO, ELISABETH - Dicionário de Psicanálise, Jorge Zahar Editor, RJ-1997.

CHEMAMA, ROLAND - Dicionário de Psicanálise Larousse, Artes Médicas, RS-1995.

LAPLANCHE E PONTALIS – Vocabulário da Psicanálise, Martins Fontes, SP-2000.

INTERNET : http://www.annafreudcentre.org (Museu Anna Freud).

INTERNET : http://gradiva.com.br (Revista de Psicanálise).




Fonte:http://www.nucleodepesquisas.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=199&Itemid=74

domingo, 29 de agosto de 2010

Karen Horney

Por Adalberto Tripicchio



Karen Danielson nasceu em 1885, na cidade de Ham­burgo-Alemanha. Estudou medicina em Berlim, doutorando-se em 1913. Em 1909, casou-se com Oscar Horney; teve três filhas. De 1920 a 1932, trabalhou como psicana­lista no Instituto de Psicanálise de Berlim, fundado por Karl Abraham. Em 1932, emigrou para os Estados Unidos, onde continuou exercendo atividades psicoterapêuticas no Instituto Psicanalítico de Chicago, de Franz Alexander. Em 1935, fixou residência em Nova Iorque, onde veio a falecer em 1952.


Duas publicações de Karen Horney lograram excepcional repercussão. De ambas falarei sucessivamente, apondo-lhes alguns esclarecimentos meus.

Em 1937 é publicado A Personalidade Neurótica de nosso Tempo (The Neurotic Personality of our Time)

Karen Horney distingue neuroses de situação e neuroses de caráter.

Neuroses de situação

São devidas a circunstâncias incidentalmente agravantes. Exemplos: neuroses de guerra, de emigração, de promoção. Pacientes que sofrem de simples neuroses de situação devem ser consideradas pessoas psiquicamente sãs. Dessas, o livro de Karen Horney não trata.

Neuroses de caráter

O termo foi criado por Franz Alexander, nascido em 1891, em Budapeste-Hungria, ana­lista do grupo berlinense, mais tarde o primeiro professor de psicanálise nos USA, na Universidade de Chicago. Alexander define como neuroses de caráter as neuroses sem sintomas circunscritos. Horney não dá muita importância a essa definição. Entende por neuroses de caráter o que Freud qualifica de neuro­ses psíquicas, neuroses "verdadeiras", de psicogênese prolongada: neuroses que se manifestam no caráter do paciente e no seu habitual modo de agir. Não devem ser confundidas, porém, com transtornos psico­páticos ou de caráter (character disorder), em que tudo, ou quase tudo é de ordem puramente constitucional.

Karen Horney anota que as queixas dos neuróticos de cará­ter não diferem essencialmente das dificuldades do indiví­duo normal. Existem, sim, diferenças entre as queixas dos pacientes que Karen Horney conheceu e as queixas men­cionadas na literatura psicanalítica, de pacientes que vive­ram em outras épocas, nomeadamente na era vitoriana. Não menos evidente é a diferença de queixas entre neuróticos que pertencem a povos diferentes. É esse o motivo pelo qual. ela conclui que perturbações neuróticas são vinculadas nas suas manifestações externas ao tempo e ao espaço. Daí, o título de sua publicação.

Já que a constatação de Horney, aliás muito importante, baseia-se nas pesquisas etnológicas, hoje melhor denomina­das cultural-antropológicas, que começaram a ser feitas na­queles anos. Será oportuno dedicar-lhes um pouco de aten­ção. Começo com Malinowski, pioneiro nesse terreno.



Bronislaw Kaspar Malinowski (1884-1942)

Nascido na Cracóvia-Polônia, professor de antropologia em Londres, foi o iniciador da nova antropologia. Rea­lizou pesquisas etnológicas não no gabinete de estu­dos, como era então o costume, mas entre os próprios povos que habitam a Nova Guiné, a Melanésia, a Austrália, a África do Sul e outras regiões. Suas con­clusões mais importantes para o nosso estudo cons­tam dos seguintes pontos:

1. Povos primitivos são povos diferentes. Isso quer dizer que não são primitivos no sentido de terem conservado fases anteriores a outras culturas, como, por exemplo, à nossa cultura ocidental. São "tão an­tigos" quanto nós, mas apenas diferentes. (Devido, em parte, a esta constatação, foi abolido o termo primitivo nesse contexto. Hoje em dia, prefere-se falar de povos subdesenvolvidos, ou melhor, de povos em desenvolvimento, devendo-se, no entanto, notar que alguns desses povos, em comparação com povos de elevada cultura, como os da Europa Ocidental, da China, da Índia ou da lndonésia, possuem culturas muito pobres e pouco desenvolvidas, sentido em que, sem dúvida alguma, se pode falar de culturas pri­mitivas.)

2. Há povos, evidentemente, possuidores de uma cultura desenvolvida, em que o complexo de Édipo não existe. Pesquisas antropológicas deixaram claro que o Complexo de Édipo só existe em sociedades de configuração patriarcal. O que levou Freud a atribuir significado universal ao complexo de Édipo foi o fato de pertencer ele a uma sociedade patriarcal, que, quanto ao tempo e quanto ao lugar, apresentava uma natureza totalmente peculiar. Portanto, não será no complexo de Édipo que se encontrará a origem da arte, da ciência e da fé.

3. A estrutura da sociedade determina em grande parte o padrão de vida do indivíduo, seu pensar e seu agir. Tal constatação leva à seguinte conclusão, de notável importância psicológica: não é a biologia, mas, sobretudo, a sociedade que determina a forma de viver, trabalhar e sofrer do indivíduo.

Entre as que seguiram as pistas abertas por Malinowski, citemos duas pesquisadoras, que se tornaram universalmente conhecidas: Ruth Benedict e, mais ainda, Margaret Mead. Ambas dedicaram especial atenção à incidência e à natureza das perturbações psíquicas entre os povos por elas pesqui­sados.



Ruth Benedict-Fulton (1887-1948)

Americana de nas­cimento, professora de Antropologia na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, estudou in loco, os povos que pesquisou. Sua obra Padrões de Cultura (Patterns of Culture) foi publicada em 1934. Nesse livro, a autora presta conta de suas pesquisas entre três povos de culturas notavelmente diferentes, che­gando às seguintes conclusões:

1. Sociedade e indivíduo não são antagonistas, como Freud supunha. Ao contrário, existe harmonia entre ambos. Sociedade e indivíduo formam, basicamente, uma unidade.

2. O indivíduo deve a estrutura de sua existência à sociedade; isso até tal ponto que certas propriedades, julgadas essencialmente humanas pela ciência oci­dental, podem estar ausentes. A sociedade determina o que é psiquicamente normal e anormal, o que quer dizer, antes de tudo, que ninguém é neurótico sem mais nem menos. Cada paciente é neurótico dentro de uma determinada sociedade e condicionado pela mesma.



Margaret Mead (1901-1978)

Nascida na Filadélfia-USA. Faleceu em Nova Iorque. Foi uma antropóloga cultural norte-americana. Autora mundialmente famosa, realizou expe­riências antropológicas nas ilhas Samoa, na Nova Guiné, na ilha de Bali e em outras regiões, descre­vendo suas experiências com admirável habilidade e fluência. Suas obras mais conhecidas são: O Advento da Idade em Samoa (Coming of Age in Samoa), de 1928, e Sexo e Temperamento em Três Sociedades Primitivas (Sex and Temperament in three primi­tive Societies), de 1935. Em 1950, publicou a obra Macho e Fêmea (Male and Female), que trata das relações entre homem e mulher na sociedade ocidental em transmutação, especialmente na sociedade americana. Suas conclusões mais importantes para a psicologia profunda são estas:

1. A vida psíquica da pessoa é, em grande parte, determinada pelas normas da sociedade, em parte conscientemente aceitas e em parte não explicita­mente formuladas, em plena consonância com as des­cobertas de Ruth Benedict. Daí que, até a existência de uma natureza humana (no sentido de um padrão de vida inato e universalmente válido, tal como existe nos animais irracionais) deve ser questionada.

2. Em conseqüência, poderão faltar totalmente, entre outras coisas, as fases da vida, que eram consi­deradas "naturais" ou "universais" na psicologia evo­lutiva ocidental. Sirva de exemplo a puberdade, cuja existência só ocorre no caso de a sociedade tornar a criança adolescente e tratá-la como tal (em uma ati­tude de afastamento).

3. Também neuroses podem estar ausentes. Para isso, é suficiente que da sociedade não partam apelos neurotizantes.



Voltemos para Horney, que conhecia os resultados das pesquisas pioneiras no campo etnológico. O mal neurótico, afirma Karen Horney, não está contido na natureza da exis­tência humana, e, principalmente, não é determinado por uma dada constituição sexual, mas sua causa se encontra na estrutura e configuração da sociedade. As condições ineren­tes à sociedade, que Karen Horney responsabiliza pelo aparecimento das neuroses, são as contradições seguintes:

1. A sociedade ocidental caracteriza-se pela concor­rência, competição, valorização do sucesso e ambi­ção, estimulando o "carreirismo". A mesma socie­dade, por outro lado, prega humildade e amor ao próximo.

2. A sociedade ocidental caracteriza-se pela criação de contínuas novas necessidades e pelo incentivo das mesmas, bem como pela manutenção das já exis­tentes. A mesma sociedade, porém, coloca todos diante da dura realidade, que não permite satisfazer às necessidades despertadas, a não ser dentro de es­treitos limites.

3. A sociedade ocidental apregoa a certeza da liberdade pessoal, mas, ao mesmo tempo, aprisiona todos em um emaranhado de regulamentos e prescrições.

Tudo isso significa que da sociedade parte um apelo contra­ditório múltiplo, que impede a criança de tornar-se adulto em tempo relativamente breve; que obriga o adulto a uma série de compromissos e que precipita alguns, vulneráveis por natureza, na neurose.



As correntes neuróticas ("neurotic trends") de Karen Horney



Entretanto, por alguns se tornarem neuróticos e outros não, Karen Horney não pretende responsabilizar, em primeiro lugar, uma constituição vulnerável. A causa, a seu ver, deve ser procurada, principalmente em uma infância afetivamente desfavorável. Mas, com isso, ela não pretende colocar uma vinculação puramente causal, como se a incompreensão afetiva ou a falta de afeto na infância tivesse como conse­qüência inevitável uma neurose na vida subseqüente. A incompreensão ou a falta de afeto traça, de acordo com a teoria de Karen Horney, tendências neuróticas, demarca como que correntes neuróticas - chamadas neurotic trends -, sobre as quais o indivíduo constrói sua neurose. A cor­rente neurótica leva o paciente a conservar vivo seu passado desfavorável. Determina, além disso, de que forma o neuró­tico vai viver sua neurose, ditada pela cultura contempo­rânea. Em breves palavras, a corrente neurótica, por mais que venha do passado, possui seu significado no presente do paciente. Por isso, o tratamento há de orientar-se pelas cor­rentes neuróticas do paciente e preocupar-se, conseqüente­mente, com o presente neurótico do mesmo - e não com seu passado desfavorável que, de qualquer maneira, não po­de ser alterado. Se, por meio de um tratamento, as correntes neuróticas desaparecerem, desaparecerá também a influên­cia opressiva do passado. É mais que evidente que Karen Horney não aceita a repetição compulsiva.



Princípios inaceitáveis



A certeza de que o padrão geral da vida humana e a per­turbação neurótica são condicionados pela cultura, levou Karen Horney a não aceitar os seguintes princípios da psi­cologia analítica profunda.

1. Ela não acredita que o homem vem ao mundo com um padrão de vida biologicamente predetermi­nado, rejeitando, conseqüentemente, as fases da se­xualidade infantil, enquanto fases de predestinação biológica. A mesma mentalidade antibiologicista ti­rou-lhe a fé na teoria da libido. Não existe, afirma Horney, um quantum de libido biologicamente de­terminado, cujo consumo, distribuição e retorno esta­belecem a sorte do indivíduo.

Nota. O sufixo -icista na palavra biologicista tem a significação de aparente, pseudo ou usado impropria­mente. Um todo dito biológico é biológico no sentido verdadeiro da palavra, como, por exemplo, quando se trata da influência da luz sobre o crescimento da planta. Um todo dito biologicista é só aparentemente biológico, como, por exemplo, a teoria da libido. Da mesma maneira, podem ser alinhados, um ao lado do outro, os termos histórico e historicista, mís­tico e misticista.

2. Tampouco Karen Horney crê que os grandes fe­nômenos sociais possam ser explicados pela proble­mática do indivíduo, como a antropologia analítica pretendia fazer. "Que as guerras", escreve ela, "tenham sido causadas pelo instinto de morte, que a economia contemporânea provenha do erotismo anal, que a invenção das máquinas no século XVIII derive do enfraquecimento de um multissecular narcisismo paralisante", tudo isso, e o que se parece com afirma­ções semelhantes, não pode ser admitido.

Freud, ao que me consta, jamais reagiu a esse livro de Karen Horney, que ele conhecia bem. Ele vivia, desde julho de 1938, exilado em Londres, tinha oitenta anos de idade e sofria de câncer maxilar, que viria a ser a causa de sua morte. A doença revelou-se em 1923. Freud submeteu-se a mais de trinta operações cirúrgicas. Quando o livro de Horney foi publicado, ele era um homem doente, velho e desiludido.



Em 1939 é publicado Novos Rumos na Psicanálise (New Ways in Psychoanalys)



Essa obra, editada no ano da morte de Freud, causou um impacto consideravelmente maior do que a primeira publi­cação de Horney, especialmente nos USA, onde foi recebida com aplausos gerais. A finalidade de Karen Horney, ao escrever esse livro, era renovar a teoria psicana­lítica. Cinco razões a motivaram nessa tentativa:



1. Estando ainda na Alemanha, ao travar conheci­mento da doutrina analítica, já não conseguia aceitar os pontos de vista correntes a respeito da se­xualidade feminina. Parecia-lhe irreal supor que a mulher seja dominada durante a vida toda pelo inve­joso desejo do pênis. Foi, sem dúvida, um gesto de coragem inaudita fazer tal afirmação, como mulher, no terreno dos psicoterapeutas. Analistas experimen­tados deduziam das palavras de Horney que ela mesma era não só dominada, mas até atormentada pela inveja do pênis (Penisneid).

2. A segunda teoria dos instintos (a do instinto de vida contra o de morte) parece-lhe destituída do verdadeiro sentido da realidade.

3. Após quinze anos de prática psicanalítica, a autora concluiu que todo paciente apresenta proble­mas que permanecem incompreensíveis dentro das teses habituais da antiga análise. Assim sendo, argu­menta Horney, alguma coisa na doutrina deve estar errada.

4. Karen Horney conheceu pacientes, tanto na Ale­manha como nos USA, descobrindo dife­renças nas suas respectivas problemáticas neuróticas, o que lhe firmou a convicção de que fatores culturais são particularmente importantes.

5. Finalmente, o seguinte episódio de sua prática analítica, que seria cômico, se, no fundo, não fosse tão lastimável: Certa paciente pediu a Karen Horney que continuasse com ela a psicanálise, que já havia durado vários anos com outro analista. A cliente mo­tivou o pedido com a informação de que, apesar de todos os esforços dispendidos, ainda não conseguira lembrar-se do que acontecera nos primeiros cinco anos de sua vida. A cliente era vítima da teoria se­gundo a qual se apregoava e se sustentava que a causa da perturbação neurótica não devia ser pro­curada em nenhuma outra época da vida a não ser nos primeiros anos da infância, ponto de vista ques­tionado por Freud depois de 1900.

O desejo de Horney era revalidar a teoria antiga, que se revelara falha nos cinco pontos mencionados, mas não re­jeitá-la, chegando a uma teoria completamente nova. Há muitíssimas coisas na obra de Freud que, em sua opinião, precisam ser consideradas de grande e até imperecível valor.

Dividiu as descobertas de Freud em três categorias:

(1) a das descobertas imperecíveis,

(2) a das premissas rejeitáveis, e

(3) a das concepções que continuam válidas, mas necessitam de re­visão.

Segue a enumeração das mesmas.

A categoria das eternas descobertas

1. da motivação inconsciente;

2. da repressão;

3. da natureza emocional de nosso comportamento;

4. do determinismo de nossas ações e omissões.



A categoria das premissas rejeitáveis

1. da premissa biologicista;

2. da historicista;

3. da vitoriana;

4. da individualista;

5. da neutralidade ética.



A categoria das concepções que precisam de revisão

1. da que se refere à angústia;

2. quanto à infância;

3. da referente à transferência.



A categoria das premissas rejeitáveis



Karen Horney rejeita:



1. A premissa biologicista implícita na teoria da libido e na das fases constitucionalmente determinadas da sexualidade infantil. Karen Horney adota o ponto de vista da antropo­logia cultural, que faz depender a determinação da "natu­reza" humana, supondo que se possa falar de uma tal natureza, em grande parte da sociedade em que o indivíduo vive. A própria índole da sociedade determina o quantum de libido cada indivíduo dispõe ou não dispõe. A cultura oci­dental da época de Freud tem como base a teoria das fases da sexualidade infantil.

2. A premissa historicista expressa na afirmação de que só o passado determina e esclarece o que acontece no presente. Karen Horney impugna essa premissa, e desde então muitos outros com ela. O sentido do presente encontra-se no pre­sente é uma proposição mais aceitável, e talvez seja prefe­rível substituí-la, ainda, pela afirmação seguinte: o sentido do presente encontra-se no futuro. Em outras palavras: a atitude diante do futuro determina a situação atual e a sig­nificação dos acontecimentos passados, que, sem dúvida alguma, também possuem uma significação em si mesmos. Para estigmatizar o historicismo, poderíamos citar ainda a ira de Nietzsche que escreve em seu livro Vantagens e Des­vantagens da História para a Vida, editado em 1875: existe um grau de insônia, de ruminação, de gosto pela história, em que o que é vivo é prejudicado e, por fim, perece, quer se trate de um homem, quer de um povo, quer de uma cultura.

3. A premissa vitoriana. A psicologia profunda de Freud teve início no fim do século XIX, quando o estilo vitoriano de vida estava em pleno apogeu. A psicanálise profunda adotou, incons­cientemente, certos postulados próprios desse estilo. Quando, no século XX, o estilo de vida começou a mudar e a atitude vitoriana tornou-se cada vez mais antiquada, ficou claro o condicionamento temporal e geográfico desses postulados, sendo mais importantes os que se seguem. O homem é a norma do que é tipicamente humano. Em todo caso, ana­tomicamente, o homem está mais bem equipado do que a mulher que, afinal, não passa de uma espécie de homem muti­lado, castrado. O pai é o chefe indiscutível da família. É ele que impõe as normas ao filho e fiscaliza a observância das mesmas. É o opressor quase nato do desenvolvimento vital do filho. O filho vai crescendo, conseqüentemente, em um com­plexo de amor e de ódio. O complexo de Édipo o atesta claramente. Tudo isso pertencia, em 1939, já havia muito tempo, ao passado.

4. A premissa individualista. Na psicanálise profunda, o objeto da investigação era o indivíduo em si. Desvendando a estrutura do indivíduo, o psicanalista ortodoxo tentava explicar a totalidade da vida humana integrada na socie­dade. É por isso que essa psicologia tinha que falar, visto que, além da base postulada ser muito estreita, unilateral e, por isso mesmo, artificial para servir de sustentáculo à existência humana total, o estudo comparativo das culturas tornou mais plausível fazer depender do contexto social a natureza ou, se quisermos, a estrutura do indivíduo singular. É necessário, portanto, inverter os termos da relação. A vida humana individual explica-se a partir da existência de todos os homens. Fica, pois, suprimida a tese individualista. O indivíduo é europeu, austríaco, vienense, vienense da época de 1900 (para dar um exemplo significativo) e não uma pessoa que vive fora desse ou daquele contexto. Com isso, não se afirma que o indivíduo não possui vida própria. Mas, por mais própria, única e singular que seja, essa vida baseia-se no padrão de vida que a sociedade lhe oferece. Toda descrição da vida subjetiva do homem é condicionada pelo espaço e pelo tempo. O indivíduo, descrito por Freud, é o austríaco da época de 1900, vienense, pertencente à classe da burguesia abastada.

5. A premissa da neutralidade ética. No liberalismo político do século XIX, prevalecia o conceito de que a ciência tinha que ser eticamente neutra. Façamos votos para que a neutralidade permaneça a base de todo esforço científico. O cientista deseja saber, compreender, aprofundar e pene­trar, sem estar sendo vigiado por algo ou alguém. Mas o cientista também pode agir, e agindo penetra no reino da ética. Realizar pesquisas nucleares é fundamentalmente uma questão de liberdade de espírito. Mas não o lançamento de uma bomba atômica. Do mesmo modo, a psicologia cons­titui, em todas as suas formas e apresentações, uma questão de liberdade espiritual. Mas não a psicoterapia. O psicote­rapeuta que pretende ser eticamente neutro, torna-se de fato irreal, na opinião abalizada de Karen Horney. Também para o psicoterapeuta, existem ações humanas boas e más, acei­táveis e reprováveis. Homicídio nunca pode ser bom; nem violação sexual. O psicoterapeuta que pretende colocar-se em uma posição de neutralidade ética em relação a qualquer forma de agressão ou sexualidade coloca-se, de fato, fora da realidade e, mais cedo ou mais tarde, prestará um mau ser­viço ao paciente. Era essa neutralidade ética, excessivamente rígida, que incutia em muitos uma espécie de medo diante do psicanalista. Posteriormente, compreendeu-se a atitude do psicanalista: Freud e seus seguidores desprezavam os pre­conceitos éticos da era vitoriana. No pensamento de Horney, porém, exageravam, chegando assim ao extremo oposto.


Published: 04 May 2008

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Esquizo-paranóide, de Melaine Klein


Na posição esquizo-paranóide, descrita pela psicanalista Melanie Klein, em resumo, existe a ansiedade paranóide. O ego se encontra fragmentado, em busca de um objeto gratificador. Essa fragmentação do ego se dá por sua estrutura, composta por muito mais frustrações que gratificações. O ego se estilhaça em busca de algo que possa dar gratificação a ao menos um de seus "pedaços". O estilhaçamento do ego é como uma tentativa desesperada de escapar da patologia. A quantidade excessiva de frustrações traz ao ego uma sensação de aniquilação.


O bebê enxerga o seio da mãe como primeiro objeto. No caso da posição esquizo-paranóide, este objeto foi muito mais frustrador do que gratificador (é o que Klein chama, em sua teoria, de seio mau). Ele pode ter demorado demais para atender aos seus desejos, pode não ter sido nutritivo, acolhedor, amoroso. Então é gerada uma ansiedade extrema por algo que seja bom. Mas todos os objetos introjetados pelo bebê são maus, e isso é externalizado. Ao passo em que ele projeta no seio sua frustração, responsabilizando-o por sua frustração. E então tem fantasias agressivas de arranhões, mordidas, rejeição a este seio.

O excesso de gratificação também não é positivo. Na adolescência, por exemplo, onde todos os limites são contextados. Se não houver limites, o perigo se instala. O excesso de gratificações pode fortalecer a fantasia onipotente do bebê. Fantasia onipotente é outro traço bastante relevante na posição esquizo-paranóide, a sensação de onipotência é perigosa. Por outro lado, quando a frustração é excessiva, gera a fantasia de agressão ou a agressão de fato.

Nas mulheres há uma relação ambivalente. Ao mesmo tempo em que a mãe é um objeto de amor, é um de ódio. Há rivalidades e diferenças grandes com esta mãe. O que faz a menina tender a uma opção heterossexual, inclusive. Entender a importância da passagem por esta posição, possibilita-nos compreender a formação, a estrutura psíquica que constitui o indivíduo. O que refletirá, sem dúvida, em situações futuras.



terça-feira, 24 de agosto de 2010

A mulher não faz conjunto!


Entrou no recinto, onde talvez, todos tivessem as mesmas expectativas. Era uma bela mulher e onde passava recolhia olhares admirados. Seu bom perfume e cabelos claros sempre bem cuidados, estavam presos de forma como dita a moda, levemente em desalinho, como seus pensamentos...
Seus olhos denunciavam a ansiedade pela espera que travava com ela própria, não que ela percebesse algo, não, ela não era de entrar muito em contato consigo mesma. Apenas se habituara a deixar fluir a sua imaginação, como fluem as águas claras dos rios, a queda das pétalas das flores, o cair do entardecer, nada que não lhe fosse do diariamente, tudo era um bom motivo.
Seu corpo flutuava escada abaixo, dentro de um vestido de renda delicada e da cor da sua pele, como dizem por aí, nude. Estava linda, especialmente linda.
Porém, não tinha o que mais desejava, talvez nem ela mesma soubesse o que era esse algo mais. Sentia como se o sempre fosse eternizado pelo nunca, mas ia vivendo e seduzindo aqui e ali.

Era uma mulher e feminina como muitas, aprendendo do jeito como o mundo parecia lhe ensinar.

Decididamente, ela não fazia conjunto com nada, nada além dela mesmo...

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Pois eu, Narciso.



Eu narciso,
Preciso de você,
Preciso da tua vida,
Da tua arte,
Da tua elegância.
Preciso também,
Da tua estranha aparência
Feita de dias,
De tédios,
E porque não,
Da tua velha rotina
Desgastada pelo tempo.
Meu tempo, meu narciso...
Eu narciso,
Tem beleza exuberante
Apesar da idade,
Fica com a vida nas pontas das mãos,
Nas raias da loucura de quereres,
Entre bocas, olhares e orelhas,
Atento a quem te dedica.
Tua experiência movimenta
Meus dias contados nos dedos
Por anos e anos,
Azeitados na dor da espera...
Uma quimera e um mimo, eu quero!
Meu narciso estupefato
Com a própria imagem,
Pois eu,
Narciso de mim.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Congresso

Vamos!

Encontro Winnicottiano 2010
XIX Encontro Latino Americano Winnicottiano



5, 6 e 7 de Novembro'2010
Santiago do Chile

sábado, 14 de agosto de 2010

O nó da alma


Vinha sentindo um nó preso na garganta e na alma.

O que fazer? Além do mais, era algo que o seu interior conhecia e avaliava de forma menor, sem fé e valia. Porém, alguma coisa ia e vinha batendo-lhe na cara, de frente, feito chuva fina com vento forte ...

... Sentimentos do coração, sem medidas e limites, vivem a céu aberto, psicotizando o pensamento, sem bordas e esteio.

Na verdade, não era para ser assim, mas a sua vida era desta forma.
Em dias silenciosos, ficava horas olhando o vazio, em outros, apenas acompanhava o voo dos pássaros, com o azul do céu como cenário ideal, um lugar onde, se pudesse, alçaria voo sem destino, só para sentir o prazer absoluto da liberdade.

Liberdade que seu endereçamento particular desconhecia, não tinha tempo, caminho ou porta para abrir, entrar e se sentir amada e acolhida. Mas tinha dentro de si uma leve esperança, de que um dia o seu nó mostraria a razão da sua existência solitária.

Quem sabe a morte, aquela que nada leva, apenas a alma, repleta de desejos...