sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Questões narcísicas

Manoel definhava na enfermaria da ala masculina da Santa Casa. E segundo seu relato, a família não aceitava a sua doença. Sempre fora o mais culto, o mais bonito e educado dos homens daquela casa simples.

Filho de um pai servente e mãe lavadeira. A família toda, era muito simples.

Porém, Manoel desde cedo se mostrou diferente de todos os irmãos, por isso tinha sido o escolhido para ir à escola, para trazer aquela família algo para se orgulhar e sair daquele estatus de pobreza e ignorância. Ele era o exemplar perfeito de uma família repleta de homens, todos fortes, robustos, machos e semi-analfabetos.

O estudo possibilitou Manoel de tomar o rumo da capital, e também, um trabalho burocrata em um escritório de advocacia. A vida assim ia caminhando e Manoel podia enfim, ajudar a sua gente, retribuindo com mais conforto e mesa farta, o estudo que adquiriu, graças ao trabalho árduo dos seus.

Na capital a vida era mais intensa e repleta de opções. Mas Manoel optara por uma vida simples, com poucos amigos. E quando a familia cobrava por uma esposa e filhos, ele sempre desconversava. Ninguém, talvez nem ele, precisava saber das suas lutas e paradoxos internos.

Na roça, as pessoas escutavam pouco sobre as "cousas" da cidade. Suas modices e novidades eram tratados como coisas de gente vazia. Homens então, que chegassem muito cheios de modernices, eram tachados de maricas. Imagina se Manoel ia dar motivos de conversas em esquinas, praças públicas e armazéns, claro que não...

A família enfim, tinha um varão para se orgulhar e ser objeto de comentários felizes nos casamentos, festas de aniversários e nas saídas das missas dominicais.

Anos se passaram e nem Manoel se dera conta que agora estava naquela cama, morrendo aos poucos. Não fora cuidadoso e os seus estudos não foram capazes de vencer preconceitos, de buscar ajuda e de tentar compreender sem medos o seu eu.

A morte de Manoel, foi na manhã do último domingo e seu último pedido a psicóloga e ao médico que o acompanhavam foi de que não constasse no seu atestado de óbito, a sua verdadeira causa mortis: HIV.

A sua família não merecia, pra que?




Excelente dica!




quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Senhor B..






Para quem se preocupou...
Senhor
B está bem e bom pra outra!

Ah...
que bótimo!!

Faltam só 2 dias



Chile + Winnicott + Psicanálise + Vinho, muito vinho...

sábado, 23 de outubro de 2010

O Senhor B.




Conheci o Senhor B, em uma visita de rotina do módulo em que estou passando na pós.
Queixa: muitas dores de cabeça e certa desorientação. Após alguns exames, uma constatação, meningioma frontal = intervenção cirúrgica.
Em seu relato, seu medo era evidente, falava muito sobre ser corajoso, que Deus sempre estava com ele, que a sua família acompanhava todas as etapas da sua internação, que o seu médico era ótimo, etc e tal. Enfim, a cirurgia apesar de aparentemente corriqueira, era algo para sentir uma pontinha de medo, afinal, não estamos falando de uma simples intervenção na barriga, por exemplo, mas do cérebro, crânio, pensamento, funções cognitivas, sobre um dos principais manda-chuvas do nosso corpo. Conversamos um pouco com ele, que em certo momento de aparente desorientação, comentou que precisava voltar para o trabalho no navio?!?
Na semana seguinte, após a cirurgia ter acontecido, o Sr. B, precisou ficar internado no CTI, o que é muito comum nas cirurgias delicadas. Porém, após este período, retornou para a enfermaria, mas uma pneumonia oportunista o alcançou e o Sr. B, precisou retornar para o CTI.
Preocupadas por não encontrá-lo novamente na enfermaria após a cirurgia, optamos, eu e uma médica do grupo, ir visitá-lo. Encontramos o Sr. B, bastante debilitado e quando nos reconheceu, ficou bastante agitado. Lembrei-me imediatamente das suas palavras em nosso último encontro, dias anteriores a cirurgia...
Sei que vai dar tudo certo, mas logo na minha cabeça? Estou com medo!
Retornei da minha pequena abstração e escutei a médica tentando acalmá-lo, dizendo para ele ficar tranqüilo, que estava sendo bem cuidado e que a sua cirurgia havia ocorrido dentro do esperado...
Por dentro, eu tentava acomodar a minha impressão sobre o quadro do Sr. B, as palavras não saiam da minha boca e meu olhar para ele era de tentar passar conforto e solidariedade. Silêncio.
A minha colega e médica, afastou-se para ir checar o seu prontuário e eu fiquei ali, ao seu lado, fazendo o que no momento eu achei o melhor...
Falei baixinho para o Sr. B, vamos rezar juntos? Ele então me devolveu um leve sorriso, fechou os olhos e ficamos os dois ali, em silêncio com a nossa prece interna. Quando terminamos, ele havia adormecido. E eu, observei que as palavras silenciosas em certas situações, podem ser um excelente relaxante emocional.
Eu espero, sinceramente, que na próxima quarta-feira, eu possa encontrar com o Sr. B novamente. Quem sabe, na enfermaria e bem longe do angustiante CTI ?

sábado, 16 de outubro de 2010

Palavra.com


A beleza da
PALAVRA

É quando ela preenche a
BOCA
E expande-se pelo ar

AR

Até chegar a ouvidos atentos
LIBERTANDO a
ESCUTA

De qualquer preCONCEITO

Posto que
Prisioneira e TÍMIDA

RecUSA-SE’m se fazer PRESENTE
PalavreANDO a quem dELA

Necessita escutAR,
Seja por aMOR,
Por perdÃO,
Por palavrão,
Por EXaustão,

Ou só por T

.com

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

No seu lugar de estar


Ele se encontra onde quer estar. E talvez seja uma verdade que só a ele pertence. Este lugar que nem todos compreendem, e que não é o do senso comum. Algo que quando se deu conta, já estava amarrado, paralisado e totalmente sem saída.
Queria poder lhe falar palavras de afeto, ser seu anjo, lhe dirigir um olhar, além da paisagem que vê da janela do seu quarto de comunicar-se com o mundo. Às vezes, o seu contato com a vida, passa pela conexão com a rede. Porém, como todo peixe, acaba virando alimento para a alma, sabe-se lá de quem...
Esse perceber sem limites, sem noção, veio de tempos em que não possuía nada, nada além de uma esperança mórbida de querer só ser pó. De evaporar. De não ter a falta. Do não ter o devir. De não os serem Joãos, Pedros, Paulos, Henriques, Sebastiões, Tonhões, Franciscos, Carlos, Renatos, Cesares, Flávios,Raís, Leos, Theos, Evandros, Robertos, Brunos, Emílios, Caios, Inácios, Leandros, Bernardos, Tobias, Marcelos, Lúcios, Herculanos...

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Pensando...


Sabe o que o tempo falou para idade?

Tô passando...
E, segundo a Bia,
Como o tempo voa!