quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Feliz Ano Novo!


Não tinha mais onde acomodar tantas saudades. Os dias iam e vinham se arrastando e os fantasmas internos eram muitos. Alguns já perdiam as suas cores e formas originais, e se mantinham na lembrança com aspecto juvenil e quase invisíveis.

Concluía que os jovens não têm como medir a dor do guardar, do recordar, “tudo é para ontem”.

Que ironia este pensar...

Que leveza este não ter o que guardar e não pesar as medidas do dizer, do deixar o “deixa pra lá”. Enfim, para depois aprender e internalizar de forma que, o passar com o tempo, o não ter como delir, será outra maneira de reviver a dor que na juventude não se percebeu.

Os dias de fim de ano, os outros dias novos do próximo e do próximo ano, a evoluir como um dia após o outro, como uma dor sobreposta à outra dor, às vezes vestida de alegria, em outras, fantasiadas de enganos normais e estacionadas em sintomas que não compreendemos bem a razão.

Indelével e inconjugável este ato do esperar para amar, desejar e sonhar os sonhos que quisera também ser os teus, os meus, os nossos...

Sem medidas esses laços que nos damos em dias que não podemos avaliar o amanhã, e que nem sempre o serão como o agora.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Pessoas à Toa

Tem novelinha...

Esperamos por vocês....
 
 

sábado, 11 de dezembro de 2010

Amor Paixão Feminina - O amor é sem medida



Por Heloisa Caldas


O livro Amor paixão feminina, de Malvine Zalcberg, destaca-se pela importância de seu tema. Afinal, desde os tempos mais remotos, o amor interessa à humanidade. O Banquete, de Platão, e A arte de amar, de Ovídio, para citar apenas duas grandes obras da cultura ocidental, atestam isso.

No entanto, a autora se propõe a tratar do amor através da voz feminina, razão pela qual ela parte do amor como o fenômeno que surgiu nos meados do século XII e, posteriormente, inspirou o amor romântico. Só então, a voz feminina, calada por tantos séculos, pôde começar a ser ouvida. Cabe lembrar que também a psicanálise, espinha dorsal teórica do livro, foi contemporânea ao romantismo e muito contribuiu para dar a voz às mulheres.

Assim, as três palavras que compõem o título do livro de Malvine Zalcberg, enlaçam o amor ao feminino e abrem para mundos de saber e cultura acumulados ao longo de séculos. Diante desse desafio, a arte de tecelã da autora é admirável. Ela sabe entrelaçar conceitos diversos, valendo-se, em especial, da psicanálise e da arte. Seu texto é delicado, cuidadoso, preciso. Sustenta predominantemente a psicanálise e atesta como esta se enriquece ao não prescindir da arte e da cultura.

Podemos dizer que é um texto feminino. Não porque a autora é uma mulher, mas pelo fato de ela escrever deixando lacunas à reflexão, espaços abertos à fecundação, ao engendramento e à invenção. Contudo, é também um texto viril, se levarmos em conta a sustentação dos conceitos. Malvine Zalcberg não se poupa quanto a esse aspecto. Ela aborda a psicanálise de frente, corajosamente, e guerreia para esclarecer conceitos difíceis até para os afeitos à teoria. Se, com determinação, ela afirma que para uma mulher “o medo de perder o amor é uma invariável em seu inconsciente”, ela também cuida de mostrar que, para a psicanálise, as definições de homem e mulher são muito mais complexas do que a anatomia, tendo suas formulações teóricas variado, ao longo dos anos, deixando pontos em aberto.

Assim, a escrita da autora apresenta a psicanálise em seu feliz paradoxo metodológico: precisão de conceitos sem a pretensão de esgotar os enigmas. Talvez essa fidelidade ao método psicanalítico seja a responsável pelo livro atrair, cativar e, em especial, ensinar. Podemos dizer que ele é, em si, uma prova de amor: um amor de livro e um livro amoroso. Atesta o prazer em falar de amor e revela que o amor se faz através disto: da fala endereçada. A autora o explica ao mesmo tempo que o faz. Sua habilidade com a linguagem e o rumo claro da prosa tomam o leitor pela mão e o conduzem, passo a passo, por uma teorização nada simples, nem fácil. O livro ensina tanto o jovem que se aproxima do assunto, como o estudioso mais experiente. Endereçar-se num mesmo texto a um público tão vasto não é comum. É preciso dedicar-se com amor a essa tarefa de transmissão.

Ao longo de seu livro, Malvine nos mostra que o amor é uma tentativa de construir, através da fala, uma solução aos impasses do ser. Dessa forma, o amor está submetido aos problemas do ser e ter, embora fadado a não resolvê-los por completo. No entanto, é pela via do amor, por meio das fórmulas inventadas por cada um que se pode tratar a vida, conviver com a alteridade, suportar a diferença. E tudo isso porque se é só. Assim, se o amor é esse véu que esconde o desamparo radical de todo humano e ajuda a fazer parceria, não é à toa que esse amor possa ser objeto de uma paixão. E se esse desamparo é a raiz do feminino, então a paixão pelo amor está enraizada no feminino dos sujeitos, sendo as mulheres as que mais se deixam arrebatar por ela. As mulheres são apaixonadas pelo amor.

Eis, então, a demonstração do livro de Malvine Zalcberg: o feminino apela ao amor. E, nas mulheres, o feminino é esse querer... sempre mais... sem limites. Uma demanda por algo valioso, justamente devido a seu aspecto de imprevisibilidade, à alegria infantil do novo, à renovação que torna as coisas cheias de vida, ao que transborda os limites conhecidos e traz esperança de felicidade. Dessa forma, ainda que interessadas pelo gozo sexual, o feminino nas mulheres faz com que elas sejam mais amigas do amor que do sexo. Porque o sexo tem começo, meio e fim. Já o amor não tem medida.

Para concluir, trata-se de uma leitura apaixonante e instigante certamente recomendável a todos: seja o leitor iniciante ou experiente nas coisas do amor; amante ou amado; parceiro ou companheiro; ficante, rolo, caso ou namorado; romântico ou contemporâneo; crente de que o amor possa ser eterno ou descartável; duradouro ou mutável; sólido ou fluído; quer ame alguém em especial, quer ame de forma especial a alguém; quer vise a pessoa amada como complemento de seu ser, quer a tenha como companhia transitória ao longo de seu viver.

Amar é uma paixão!



 Heloisa Caldas é professora

do Programa de Pós-Graduação de Pesquisa

e Clínica em Psicanálise da UERJ

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A antenada Srta. N





A Srta. N pensa que o mundo a persegue. Definitivamente não consegue transitar pelas estradas alheias. Cobra diariamente, uma solução para as suas angústias, ter um carro novo, um vestido que lhe dê aparência deslumbrante, uma jóia de rara beleza, um sujeito completo aos seus pés. Repleto de afeto, justificativas, afirmativas, desejo e palavras doces...

Oh boy!

A Srta. N não compreende a palavra não, e o seu limite é estar totalmente fora dele. Vive a céu aberto e a sua verdade é absolutamente real dentro do seu imaginário delirante. É definitivamente, uma foracluída.

A Srta. N sofre. Um sofrimento inenarrável e mortal.

Às vezes, sai pelas ruas sem destino, entra na estação do metrô sentido zona norte, acreditando estar viajando com destino aos subúrbios de Paris!

A Srta. N. não pede socorro, ela é sua própria ambulância psíquica e sempre em via de algo que a determine, que a toque profundamente, que lhe grite uma palavra da lei e estruture seu corpo e pensamentos despedaçados. 

Outro dia, "carregava" uma faca dentro do peito. Também tinha um sujeito a segui-la, escondido atrás do seu carro. Para completar, o tal personagem possuía um fuzil...

É claro que a tal arma pesada estava direcionada para o seu corpo pequeno e frágil.

Chegou a confirmar que não estava na cidade do Rio de Janeiro, era um país chamado morro do Alemão.
- Você não leu? Está em todos os jornais e programas de rádio e televisão...

Tentei confortá-la. Sua reação foi algo cinematográfico, ela respondeu aliviada:
- Não se preocupe comigo, porque o Capitão Nascimento está chegando e vem me salvar!

Perguntei se ela havia lhe informado o "nosso" endereço. Ela olhou de soslaio, deu uma gargalhada sonora e falou de uma tacada só:
- Eu não preciso dar um "endereço" ao Capitão Nascimento, porque ele lê meus pensamentos, ele sabe tudo que eu faço e sinto. Ele é da Tropa de elite. Você não está antenada hoje! Semana que vem, vou te trazer uma antena que tenho guardada no fundo falso que tenho dentro do meu armário. É uma antena especial... Tecnologia de ponta... Fez questão de afirmar.

Nosso tempo chegara ao final. Olhei para ela, lhe ofereci a minha mão e falei com calma e firmeza:
- Srta. N vamos sair do “nosso” esconderijo, porque o Capitão Nascimento acabou de chegar para escoltá-la com segurança até a sua casa do outro lado da rua.

Ela me abraçou, segurou na minha mão e falou como quem conta um segredo:
- Vamos! Ainda bem que eu consegui completar a minha missão de hoje. Esse mundo está muito louco, não sei onde as pessoas vão parar!

sábado, 4 de dezembro de 2010

Quer ler um excelente artigo?

O delírio como método: a poética desmedida das singularidades.

Por:
Tania Mara Galli Fonseca
Luis Artur Costa
Vilene Moehlecke
José Mário Neves


terça-feira, 30 de novembro de 2010

O tempo lógico



É o tempo sem medida, sem os segundos das horas.
É o tempo que o nada é o tudo, o integral, o total.
Que preenche o vazio no intervalo do pensamento.
É o tempo fugaz na lógica do sujeito.
Tempo que segue sem medidas, que voa.
Tempo de esperar o momento seguinte,
Das mentiras sinceras e verdades amenas.
Tempo meu,
A minha lógica de existir.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Sobre o envelhecer...



"Para os Idosos do Mequinho, que estão seguindo com um envelhecer saudável e repleto de novas possibilidades"

Não vou falar aqui sobre o peso do envelhecer, tema que escolhi para nomear este post, mas desta palavra, forte como um significante mor, como um tempo que pensamos que nunca iremos alcançar, como um "preste atenção" e como uma recuperação da nossa beleza interna...

Enfim (sempre uso o enfim), da esperança de poder pentear nossos futuros cabelos brancos frente ao espelho com mais atitude, amor e complacência.

Esse tempo que passo com os idosos do Mequinho (campus da UFF - geriatria), tem feito sobre a minha pessoa, uma devassa salutar para a minha compreensão interna. Eu me pergunto: para onde estou caminhando?

Vou perguntar pra você também: - Sabes para onde o seu coração, seu corpo, suas ações estão te levando? Pois é, eu me perguntei e não achei uma resposta convincente...
Eu então observo a sabedoria dos idosos, suas histórias e seus desejos (mais vivos e atuais do que nunca), que são na verdade, possibilidades reais.

Falo da velhice que enxergamos enquanto jovens, como o bicho papão das histórias infantis. Quer saber o que mais, a velhice é diária, acontece lentamente, e frente inclusive, a porta de vidro de Banco espehada mais próxima...

Precisamos urgente, acabar com o discurso que falta muito tempo ainda, eu não estou preocupado, e até mesmo, não sei se vou estar vivo para ver! Te cuida, aprende a olhar para o seu corpo e suas necessidades, com mais atenção e prioridade. Busque um envelhecer saudável.

Acorda, sai um pouco desse lugar de que não é comigo. Porque na verdade, é para hoje!
Segundo as irmãs Munakata, de Yasujiro Ozu, "A verdadeira novidade é aquilo que não envelhece, apesar do tempo".

Sacou?

Eu também espero sacar na mesma medida que você. Até porque, este blá-blá-blá, foi feito sob medida para todos nós...

domingo, 21 de novembro de 2010

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A corajosa Senhora Z.

- Muito prazer em conhecê-la!
Escutei de uma senhora pequena, morena, de olhinhos estreitos e alegres, após me apresentar e iniciar uma conversa. Quando questionada pelo motivo de estar ali, seu rosto abriu um grande sorriso, senti que ela queria “papear”. Passou então, a “tricotar” a sua vida, ponto por ponto. A Senhora Z., é órfã desde a sua infância e quando pequena, viveu de casa em casa de parentes, que não a pouparam do trabalho árduo. Sua vida sempre foi de bastante labuta.
- Desde muito nova fui trabalhar na roça, depois fui vender laranjas na feira. O meu último trabalho era catar ferro velho. Juntava tudo que podia, carreguei muito fogão e geladeira nos ombros, por isso tenho essa dor aqui - apontou para as suas costas, bati muito ferro - mostrou as mãos, e raspei muito alumínio, completou com a voz quase sumindo de cansaço, devido à fibrose pulmonar.
- Era tanta tralha, tanto ferro no meu quintal, que tinha medo de juntar algum bicho ruim, então mantinha tudo arrumadinho. Eu mais meu marido já falecido, trabalhamos muito. Mas Deus agora é quem cuida de mim. Ele é quem sabe...
Sua internação foi feita por dois vizinhos de quintal e únicos amigos que possui. Eles relataram que ela estava fazendo as vezes de pedreiro, quando desmaiou no quartinho em que vive.
- Não sei o que tenho, é uma dor que não é dor...
- Um mal estar, completei...
- É, é isso, um mal estar. Aí sinto falta de ar e até a minha visão deu pra ficar turva. “Tô” vendo a doutora com uma fumaça na frente, tudo embaçado. Só saio deste hospital, depois que fizerem um exame na minha cabeça. Devo ter algum “treco” ruim aqui dentro, termina afagando a própria cabeça.
- Fico preocupada também com o meu quartinho, sabe como é hoje em dia, casa sem gente é a mesma coisa que casa sem dono.
Pergunto se ela tem filhos e ela nega.
- Tenho não doutora, a minha família é a minha gatinha que eu chamo de Oncinha.
Eu falo assim pra ela:
- Cinha, você não pode subir na minha cama, porque você anda por aí, passa pelo valão, pelas sujeiras da rua, se subir aqui, pode passar doença pra sinhá, e aponta para ela mesma.
- E aí? Como é que eu vou poder comprar sua comida? Ela me olha, faz um miado dengoso e escorrega para o chão. Parece que é gente...
Comecei a me despedir da Senhora Z., quando chegou uma dupla de mulheres que deram início a músicas alegres para as pacientes da enfermaria. A Senhora Z levantou, dançou e cantou junto, estava animada...
Despedi-me falando para ela:
- Foi um prazer conhecê-la!
E realmente o foi. Meu dia, a enfermaria e o hospital, ganharam novas cores, pensei alto:
- Hoje eu conheci a cor da coragem!

domingo, 14 de novembro de 2010

Rosas cor de rosa



São cor de rosa
as rosas.
São femininas
as lindas pétalas
que fotografei.
São infinitas,
as possibilidades
do meu grande
AMOR,
por você.
E será
para sempre,
desde o primeiro dia,
 que meus 
olhos pequenos
e castanhos,
te 
captaram.
Ficou então
na minha memória,
como um flash,
como um instante,
eterno
e único.
É por você,
tão
somente
e só,
as rosas
cor de rosa.
 que guardei.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

EP4 - Geronto

Nosso grupo EP 4, agora na enfermaria do Hospital Antonio Pedro - UFF

Ninas...

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A de adolescente

Dia desses, uma mãe desesperada com a rebeldia da sua filha pré-adolescente, desabafou: - Deve haver um jeito, uma fórmula, uma receitinha familiar para ser mãe nos dias de hoje. Porque eu estou no limite! Sinto que o meu ser vai explodir. São muitas as dúvidas, os medos e as lágrimas. Eu ali, na escuta...

Nessas horas, eu que também sou mãe de pré-adolescente, percebo claramente que não dá pra evoluir como psicóloga, e que a psi que reside dentro de mim, na verdade mandou um recado, para ir procurá-la na próxima esquina. Ou seja, buscar ajuda e dar tudo de "si" (como diz a Aninha, minha querida amiga psicóloga e pedagoga).

É isso aí! Eu sei que as crianças estão em outra etapa, que precisam desconstruir pai e mãe para se constituir sujeito, que a busca da identidade é difícil, que em geral, os adolescentes entram em um "estado psicótico” (isso é normal), que toda verdade é individual, irrestrita, intransferível, e o pior: - r i g o r a s a m e n t e - donos do saber supremo.

Adolescer, aborrecer, enfim, adoecer os laços parentais para renascer.

A fórmula, a receitinha familiar e a teoria, são do tempo, da cultura e do sujeito.
Ah, porque muitas vezes não percebemos que aquele bebê, seu bebê, que tinha o peito predileto para mamar, agora apresenta as suas escolhas de forma tão confusas?

O adolescente não suporta ser demandado. Opção? Levante questões, que tais aquelas máximas: O que você acha? O que você sugere? Vamos decidir... E por aí vai.
Não convém tentar expor seu parecer, como: "Eu penso que..." porque ele não está muito interessado sobre o que você pensa, naquele momento “crucial” para ele. Calma, mantenha-se firme! Não mergulhe em um mar de dúvidas, culpas e autocríticas, como “Onde foi que eu errei?”.

Entre acertos, erros, tombos e estilhaços, com certeza vão sair pedaços para todos os lados. Só não se esqueça de levar a paciência e o limite, OPS, eu falei limite?

Atenção! Última chamada! Alguém aí faz o favor de avisar aos pais e mães contemporâneos e ultra, super, hiper antenados e tecnologicamente preparados, que o limite é algo importante e primordial, como a boa escola, o curso de inglês, a faculdade, etc, etc, e tal...

Então, acrescente a receita: amor, atenção e muita conversa. Seu filho ou filha adolescente aprecia se colocar, ser escutado e respeitado nas suas opiniões recém descobertas e internalizadas. Tenha o diálogo, como uma chave para manter o relacionamento de vocês sempre aberto.

Não se preocupe se depois de todo esse terremoto, seu menino ou sua menina, te endereçar um olhar pidão, e daquele jeito que só nós, pais e mães constituídos de pura "bobice", repetirmos para nós mesmos, “Então tá, eu também já fui adolescente!”.

Mas não entre em pânico se você como ser humano, se sentir perdido, gritar, perder o controle ou chorar, tenha a certeza absoluta que você não está sozinho, faz parte!

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

O meu sangue ferve por você

Excelente dica da Senhora Loirinha Má

domingo, 7 de novembro de 2010

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Para Pablo


A casa de Pablo
tem cores,
tem brinquedos,
quadros e muitas escadas.
A casa de Pablo
tem sonhos
de sonhar os homens,
de sentir as mulheres.
A casa de Pablo
tem paredes curvas,
tem janelas abertas,
por onde entram
luzes, desejos e horizontes.
Na casa de Pablo
se recebe,
se veste,
e se percebe o amor,
nas palavras de Neruda.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Questões narcísicas

Manoel definhava na enfermaria da ala masculina da Santa Casa. E segundo seu relato, a família não aceitava a sua doença. Sempre fora o mais culto, o mais bonito e educado dos homens daquela casa simples.

Filho de um pai servente e mãe lavadeira. A família toda, era muito simples.

Porém, Manoel desde cedo se mostrou diferente de todos os irmãos, por isso tinha sido o escolhido para ir à escola, para trazer aquela família algo para se orgulhar e sair daquele estatus de pobreza e ignorância. Ele era o exemplar perfeito de uma família repleta de homens, todos fortes, robustos, machos e semi-analfabetos.

O estudo possibilitou Manoel de tomar o rumo da capital, e também, um trabalho burocrata em um escritório de advocacia. A vida assim ia caminhando e Manoel podia enfim, ajudar a sua gente, retribuindo com mais conforto e mesa farta, o estudo que adquiriu, graças ao trabalho árduo dos seus.

Na capital a vida era mais intensa e repleta de opções. Mas Manoel optara por uma vida simples, com poucos amigos. E quando a familia cobrava por uma esposa e filhos, ele sempre desconversava. Ninguém, talvez nem ele, precisava saber das suas lutas e paradoxos internos.

Na roça, as pessoas escutavam pouco sobre as "cousas" da cidade. Suas modices e novidades eram tratados como coisas de gente vazia. Homens então, que chegassem muito cheios de modernices, eram tachados de maricas. Imagina se Manoel ia dar motivos de conversas em esquinas, praças públicas e armazéns, claro que não...

A família enfim, tinha um varão para se orgulhar e ser objeto de comentários felizes nos casamentos, festas de aniversários e nas saídas das missas dominicais.

Anos se passaram e nem Manoel se dera conta que agora estava naquela cama, morrendo aos poucos. Não fora cuidadoso e os seus estudos não foram capazes de vencer preconceitos, de buscar ajuda e de tentar compreender sem medos o seu eu.

A morte de Manoel, foi na manhã do último domingo e seu último pedido a psicóloga e ao médico que o acompanhavam foi de que não constasse no seu atestado de óbito, a sua verdadeira causa mortis: HIV.

A sua família não merecia, pra que?




Excelente dica!




quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Senhor B..






Para quem se preocupou...
Senhor
B está bem e bom pra outra!

Ah...
que bótimo!!

Faltam só 2 dias



Chile + Winnicott + Psicanálise + Vinho, muito vinho...

sábado, 23 de outubro de 2010

O Senhor B.




Conheci o Senhor B, em uma visita de rotina do módulo em que estou passando na pós.
Queixa: muitas dores de cabeça e certa desorientação. Após alguns exames, uma constatação, meningioma frontal = intervenção cirúrgica.
Em seu relato, seu medo era evidente, falava muito sobre ser corajoso, que Deus sempre estava com ele, que a sua família acompanhava todas as etapas da sua internação, que o seu médico era ótimo, etc e tal. Enfim, a cirurgia apesar de aparentemente corriqueira, era algo para sentir uma pontinha de medo, afinal, não estamos falando de uma simples intervenção na barriga, por exemplo, mas do cérebro, crânio, pensamento, funções cognitivas, sobre um dos principais manda-chuvas do nosso corpo. Conversamos um pouco com ele, que em certo momento de aparente desorientação, comentou que precisava voltar para o trabalho no navio?!?
Na semana seguinte, após a cirurgia ter acontecido, o Sr. B, precisou ficar internado no CTI, o que é muito comum nas cirurgias delicadas. Porém, após este período, retornou para a enfermaria, mas uma pneumonia oportunista o alcançou e o Sr. B, precisou retornar para o CTI.
Preocupadas por não encontrá-lo novamente na enfermaria após a cirurgia, optamos, eu e uma médica do grupo, ir visitá-lo. Encontramos o Sr. B, bastante debilitado e quando nos reconheceu, ficou bastante agitado. Lembrei-me imediatamente das suas palavras em nosso último encontro, dias anteriores a cirurgia...
Sei que vai dar tudo certo, mas logo na minha cabeça? Estou com medo!
Retornei da minha pequena abstração e escutei a médica tentando acalmá-lo, dizendo para ele ficar tranqüilo, que estava sendo bem cuidado e que a sua cirurgia havia ocorrido dentro do esperado...
Por dentro, eu tentava acomodar a minha impressão sobre o quadro do Sr. B, as palavras não saiam da minha boca e meu olhar para ele era de tentar passar conforto e solidariedade. Silêncio.
A minha colega e médica, afastou-se para ir checar o seu prontuário e eu fiquei ali, ao seu lado, fazendo o que no momento eu achei o melhor...
Falei baixinho para o Sr. B, vamos rezar juntos? Ele então me devolveu um leve sorriso, fechou os olhos e ficamos os dois ali, em silêncio com a nossa prece interna. Quando terminamos, ele havia adormecido. E eu, observei que as palavras silenciosas em certas situações, podem ser um excelente relaxante emocional.
Eu espero, sinceramente, que na próxima quarta-feira, eu possa encontrar com o Sr. B novamente. Quem sabe, na enfermaria e bem longe do angustiante CTI ?

sábado, 16 de outubro de 2010

Palavra.com


A beleza da
PALAVRA

É quando ela preenche a
BOCA
E expande-se pelo ar

AR

Até chegar a ouvidos atentos
LIBERTANDO a
ESCUTA

De qualquer preCONCEITO

Posto que
Prisioneira e TÍMIDA

RecUSA-SE’m se fazer PRESENTE
PalavreANDO a quem dELA

Necessita escutAR,
Seja por aMOR,
Por perdÃO,
Por palavrão,
Por EXaustão,

Ou só por T

.com

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

No seu lugar de estar


Ele se encontra onde quer estar. E talvez seja uma verdade que só a ele pertence. Este lugar que nem todos compreendem, e que não é o do senso comum. Algo que quando se deu conta, já estava amarrado, paralisado e totalmente sem saída.
Queria poder lhe falar palavras de afeto, ser seu anjo, lhe dirigir um olhar, além da paisagem que vê da janela do seu quarto de comunicar-se com o mundo. Às vezes, o seu contato com a vida, passa pela conexão com a rede. Porém, como todo peixe, acaba virando alimento para a alma, sabe-se lá de quem...
Esse perceber sem limites, sem noção, veio de tempos em que não possuía nada, nada além de uma esperança mórbida de querer só ser pó. De evaporar. De não ter a falta. Do não ter o devir. De não os serem Joãos, Pedros, Paulos, Henriques, Sebastiões, Tonhões, Franciscos, Carlos, Renatos, Cesares, Flávios,Raís, Leos, Theos, Evandros, Robertos, Brunos, Emílios, Caios, Inácios, Leandros, Bernardos, Tobias, Marcelos, Lúcios, Herculanos...

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Pensando...


Sabe o que o tempo falou para idade?

Tô passando...
E, segundo a Bia,
Como o tempo voa!

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Tempus Fugit

Poema de Fernando Campanella


O amor, se me perguntas, não sabe a papéis,
a tolas permutas...
o amor sobeja quando de ti te esqueces
quando mais pensas que te falta.
Vagamos pelas torpes vielas,
acendemos nos baixios nossas falsas luzes,
e a vida, a vida se deixarmos,
vai nos entupindo insuportável as goelas.
Mas o amor, se me permites,
o amor é quando se cala,
quando nossos egos se rendem,
e se igualam-
e olha que a vida em sua pressa - tempus fugit -
pelo amor se dissipa mais lenta, se aceita mais bela -
amor é quando se cerram os olhos
e se vêem desdobrarem os céus no detalhe.


(F. Campanella)

domingo, 26 de setembro de 2010

Minha rua


Minha rua passa
Carro, moto e bicicleta.
Passa muita gente...
Tem idoso, Criança e feirante.
Minha rua tem
Muitos prédios,
Casas antigas, vilas,
Árvores e passarinhos.
Minha rua é animada,
De dia tem buzina, cachorros
E alvoroço da criançada...
Tem escola, creche, asilo, igreja,
Mercado, emissora de TV,
A oficina do Jorge, padaria,
Estúdio, botecos, clínicas,
E tudo o mais que você quiser ver.
Minha rua à noite é pura boêmia,
E de dia é constante adrenalina.
Minha rua é rua sem saída,
Termina com um grande muro branco.
Do outro lado tem o eterno...
Que encontramos também no cemitério.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Sem título






Queria não saber o “já sei”,
Das desilusões,
Dos contratempos,
Dos feitos desfeitos,
Das promessas perdidas...
Queria te encontrar
Na dobra da esquina,
Pra te falar do vento que bate,
Da chuva que vem por aí,
Do nada que me invade...
Queria resignificar o porquê
Do teu medo,
Da tua camuflagem,
Da tua descrença,
Da tua certeza óbvia...
Ah, eu queria mesmo,
Era-te ver inteiro!

domingo, 19 de setembro de 2010

Resíduo, de Carlos Drumond de Andrade






De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
― vazio ― de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.

Carlos Drummond de Andrade
In A Rosa do Povo
José Olympio, 1945
© Graña Drummond

Che vuoi?


Eu questiono,
Tu respondes,
Ele questiona,
Nós respondemos,
Vós questionais,
Eles respondem,
Ao alheio,
Ao que a todos pertence,
Ao Grande Outro.
Eu,
Tu,
Ele,
Nós,
Vós,
Eles,
O que queres?

sábado, 18 de setembro de 2010

A Canção do Sebastião


Não havia mais resto,
Mais histórias para contar.
O tempo passado estava zerado.
Pensou no que havia deixado para trás...
Os dias não voltariam,
Não teria mais como estornar,
O que por ironia não validou como seu.
Sebastião vinha de um lugar estranho,
Sem endereço, sem palavras boas.
Seus dias se transformaram,
Em pasmaceiras da vida diária.
Com acontecimentos comuns,
Sem emoções,
Sem surpresas.
Um mundo repleto de dúvidas,
Incertezas...
Sem planos,
Sem A e B...

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Café com fé




Minha palavra,

Às vezes fica muda.

Tua mudez,

Sempre me entristece.

Meus dias,

Ficam sem direção.

E a dor,

Aquela que suportamos

Por não ter outro jeito,

Fica insuportável.

Então,

Vê se aparece,

Pra tomar um café...

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O último pôr-do-sol

Espero que apreciem o belo video de Wanessa Jansen e a música deliciosa de Lenine.



terça-feira, 7 de setembro de 2010

Wunsch

Mas o que é o desejo?
Seria aquilo que se manifesta entre o que almejamos e o que não ousamos alcançar?
Somos nós sujeitos de faltas a serem contabilizadas pelo nosso raciocínio comedido?
De nos constituirmos sós.
Nós,
Os mesmos sujeitos dos sonhos,
Que quando não damos conta dos quereres,
Sonhamos,
E ao despertar os declaramos (O que se passou),
Cenas loucas em desvarios,
De não nos pertencerem,
E ficam eles apenas ao acaso...
Cala-te, pois a boca que não traduz a fala que a acolhe,
Tem o desejo encoberto e perdido no tempo...

domingo, 5 de setembro de 2010

O amor tem dessas coisas, ou, o outro lado da moeda...



Achei muito interessante, a resposta que Alberto Goldin, dá à carta de Carlos. Isso nos mostra como somos suscetíveis aos encontros e desencontros, ao longo das nossas vidas. Precisamos perceber que o outro (objeto eterno do nosso desejo), nem sempre poderá estar disponível, e que também, tem lá os seus desejos. Nem por isso, nós iremos deixar de caminhar e reinventar as nossas vidas, não deixando é claro, de dar valor as conquistas que fazemos, pois elas sempre são e serão muito importantes. Ao final da sua carta, Goldin nos surpreende, e nos faz pensar nessa via de mão dupla, que é o jogo do amor...


A carta de Carlos:


“Minha segunda namorada foi o grande amor da minha vida. Eu tinha 25 anos e tudo foi lindo, a mudança da paixão para o amor, o companheirismo. Porém, a minha personalidade instável quanto aos efeitos do tempo me exigiram novidades. Encontrei paixões, viagens, possibilidades. Após algum tempo, ela terminou comigo, mas não acreditei, não me abalei muito, pois sabia do nosso amor. Ser solteiro era um sonho antigo e seria realizado. Não foi assim. A solidão bateu com força, e a sensação de vazio trouxe angústia e ansiedade. Não consegui me relacionar, as oportunidades diminuíram e as garotas não eram interessantes. Só agora me vi pronto para ela, para casar, ter filhos. Procurei. E ela já estava com outro namorado. Sinto uma saudade absurda e um grande arrependimento”.

A resposta do Alberto Goldin:

Quando Carlos terminou com Júlia, teve a penosa sensação de ter perdido o amor da sua vida. Sem recursos para trazê-la de volta, podemos apenas rever os fatos e refletir sobre eles, sem certeza de aliviar sua angústia. A primeira questão é saber quando a perdeu. Foi há um ano, quando se separou, com relativo alívio, para recuperar a solteirice? Ou foi no mês passado, quando lhe apresentou a frustrada proposta de casamento?
Carlos argumenta que tudo foi conseqüência de se reconhecer como pessoa instável. Afastou-se preventivamente, para não expô-la às turbulências do seu humor flutuante. Foi, sem dúvida, uma atitude correta, porém, considerando a seqüencia dos fatos, é possível que tenha se afastado convencido de que Júlia o estaria esperando. Não imaginou que ela viesse a seguir outros rumos, conhecer outros homens, ou seja, avaliou a situação a partir das próprias convicções. Separou-se esperando que, passado um tempo, voltaria satisfeito e maduro para retomar a relação. É por isso que acredito que, para Carlos, a relação não acabou no ano passado, mas recentemente, quando Júlia, já comprometida, com outro namoro, não aceitou sua proposta.
Foi nesse momento que Carlos entendeu que ela tomou seu próprio rumo e, de forma prática, mostrou-lhe que não era o único homem do planeta. Foi nesse dia que instalou o verdadeiro luto, quando a mulher infantil e passiva deu sinais de independência. É precisamente aí que Carlos vai descrevê-la como a única mulher capaz de acabar com sua solidão e tristeza.
Apresso-me em fazer constar que Carlos não é o único nem o primeiro ser humano que comete esse engano. Com enorme freqüência, acredita-se que a pessoa abandonada vai conservar um amor incondicional e eterno. Quando essa parte para uma nova história, quem abandona sofre um curioso processo, neste caso, uma violenta ruptura entre a Júlia imaginária e a real. A marionete, sempre obediente, corta as cordas que a prendem e, para espanto geral, ganha vida e escreve uma nova história de amor, melhor ou pior, nunca igual.
É então que é deflagrada uma paixão incontrolável, como Carlos sentiu na carne, confirmando angustiado que começou a amá-la no dia em que perdeu.
Esse dramático processo nem sempre termina assim. Com alguma freqüência, aceita outra rodada, e só será possível quando Carlos recuperar o bom humor. Então, talvez num fim de noite, vai respirar fundo, olhar ao seu redor e descobrir, bem perto, uma bela mulher que, adivinhando sua tristeza, sorri com o rosto e os olhos. Carlos se aproximará dela e começarão a conversar. Talvez riam juntos, assistam a um filme e, outra vez, pela primeira vez, se amarão...
Então Júlia, que o segue de soslaio e sorridente, ficará séria e, apesar de comprometida, reviverá as boas lembranças e então...
Para não criar falsas expectativas, paramos aqui nosso relato assinalando, em letras bem visíveis, que é fácil amar o que se perde, difícil é amar o que se tem. Carlos que o diga.

Alberto Goldin (que eu tive o prazer de conhecer pessoalmente), é psicanalista e escreve para a coluna “Consultório”, da revista o Globo, todos os domingos.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Poesia

Chovia lá fora.
Porém no palco, uma deliciosa surpresa
em forma de samba - choro dolente ...
Linda, Teresa Cristina, encanta com a seu jeito suave.
Para acompanhá-la,
músicos em total sincronia com a doce voz da nossa Teresa.


Escute e aprecie com atenção...






Você

Hei, você!

Que ama, fala besteira, comete anarquias,
Que adoça a boca do teu inimigo...

Hey you!

Que pensa fazer o certo, não enxerga os desacertos,
Que finge amar teu próximo...

يا أنت !

Que diz o que quer, ouve o que não quer, sonha com a quina,
Que é pessoa de pura adrenalina...

Hey Du!

Que já está de saco cheio, que vota sempre no mesmo erro,
Que tem o mesmo discurso, que não vive alheio...

Ħej inti!

Que quer o mundo, a juventude, o tudo agora,
Falar inglês, escrachar de vez...

Hej, ty

Que não veio a passeio, não tira retrato na polícia,
Não ousa, não se vicia...

Jesteś, który staram się powiedzieć, że są równe,
tym, że jest niesamowitą przygodę życia!

Apenas seja feliz, apenas ame, apenas sinta, apenas pense, apenas ouse, apenas escute, apenas seja, apenas se entregue, apenas apesar de tudo...

Porque você é quem eu procuro, pra dizer que somos iguais,
Nesta incrível aventura que é a vida!



terça-feira, 31 de agosto de 2010

Marie Bonaparte


Marie psicanalista

Organizadora do movimento psicanalítico francês, a princesa consagrou sua vida à psicanálise com uma coragem e um entusiasmo de causar inveja a muitos de seus contemporâneos. Essa atividade incansável em favor da causa psicanalítica garantiu a ela um lugar de destaque na historia da psicanálise francesa, sobretudo nos seus inícios. No entanto, foi progressivamente desentendendo-se com as novas gerações de analistas. Já era uma opositora de Lacan e terminou por perder a liderança da Sociedade, na cisão de 1953, e ao longo dos anos seguintes.

Suas contribuições teóricas centraram-se na feminilidade e na sexualidade feminina. Era estudiosa, dedicada e escrevia muito bem. Seus textos são claros e se baseiam tanto em sua experiência clínica, como traduzem uma elaboração teórica que, embora siga as ideias de Freud sobre a sexualidade feminina - ou, como hoje denominamos, o monismo fálico -, também foi em alguma medida original e arrojada para sua época. Faz longas e significativas citações tanto de Freud, como de outros autores, inclusive da literatura. Tais citações ilustram seus pontos de vista e tornam a leitura agradável e rica.

Penso que seu interesse na sexualidade feminina era certamente motivado por questões pessoais, pois Marie sentia-se frustrada como mulher e julgava-se frígida. Em 1924, antes de iniciar sua análise com Freud, fez uma pesquisa com 200 mulheres, na qual avaliou o prazer sexual correlacionando-o com a distância entre o clitóris e a vagina, concluindo que a ausência de prazer coincidia com uma distância maior. Seu artigo “Considerações sobre as causas anatômicas da frigidez feminina”, publicado no periódico médico Bruxelles - Médical, sob o pseudônimo de A. E. Narjani, apontava a existência de duas causas para a frigidez: uma devida à inibição psíquica e outra de caráter vaginal anatômica. Acreditou nos benefícios de uma intervenção cirúrgica que, aproximando o clitóris da vagina, favoreceria, dessa forma, o orgasmo. Apesar do autoconhecimento que sua análise lhe proporcionou e da oposição de Freud, foi a primeira paciente a submeter-se a essa operação, e por três vezes, em 1927, 30 e 31. Estava convencida que sua frigidez se devia, sobretudo, a essa falha anatômica, mesmo tendo descoberto em sua análise que tais dificuldades possivelmente se ligavam a questões emocionais. Conseguiu localizar um trauma de infância capaz de explicar suas dificuldades: a partir do seis meses até por volta dos 3 anos, testemunhara sua babá mantendo relações sexuais com o capataz (e também seu meio-tio) da propriedade.

Um dos pilares de sua produção teórica foi a “descoberta da cena primária”. Como muitos dos primeiros psicanalistas, a princesa usou situações de sua história pessoal para ilustrar seus pontos de vista. Em seu artigo “Notes on the analitical discovery of the primal scene” (1945), descreve um caso clínico - o seu próprio, como iríamos saber mais tarde - em que, através de sonhos, lembranças da infância e pequenos contos que a paciente escrevia quando criança - aqueles escritos a partir dos 7 anos em inglês -, é recomposta na análise a lembrança da cena primária observada de forma frequente, durante os seus três primeiros anos de vida. Nesse texto primoroso, em que acredita ter encontrado uma confirmação para a teoria analítica da existência da cena primária, Marie, como Freud, afirma que a capacidade de investigar com sucesso as recordações infantis se relaciona ao chamado instinto epistemofílico, que por um lado é estimulado pela curiosidade sexual e por outro propicia o desenvolvimento das capacidades intelectuais.

Outro ponto fundamental foi sua teorização sobre o masoquismo como uma característica feminina. No artigo “Passivity, masochism and femininity” (1934), afirma que a feminilidade e o masoquismo estão estreitamente ligados. Enquanto para o homem as funções reprodutivas coincidem com a função erótica, para a mulher a sexualidade está completamente entranhada à dor. Dor narcísica presente já na descoberta da diferenças entre os sexos: castrada, a mulher está destinada a invejar o pênis.

A mulher, por outro lado, submete-se periodicamente aos sofrimentos da menstruação ... e o ato sexual, em si, se inicia com um processo que envolve em certo grau o derramamento de seu sangue, ou seja, o ato da defloração; finalmente a gestação é acompanhada por desconforto e, o parto, por dor, e mesmo a amamentação é frequentemente sujeita a distúrbios dolorosos (Bonaparte, 1934/1975, p. 279).2

A única função reprodutiva que estaria livre de sofrimento seria o ato sexual. A mulher, diz Bonaparte, tem duas zonas erógenas lado a lado, o clitóris e a vagina, e entre elas pode haver um antagonismo, com o predomínio do prazer clitoridiano e uma frigidez vaginal, ou essas zonas podem funcionar em uma harmoniosa colaboração. Entretanto, aí atuam possíveis consequências causadas pelo trauma da visão da cena primária. Quanto mais cedo acontecem as observações, maior o colorido sádico que emana da própria vida pulsional, e essa cena permanecerá na mente de quem a testemunhou, não como lembrança, mas como fantasia inconsciente. Com o desenvolvimento do ego, essa cena é modificada por todas as fantasias sadomasoquistas que se formam nas crianças de ambos os sexos. Os meninos, entretanto, se evadirão dos perigos centrípetos cloacais que a concepção sádica do coito traz para o seu próprio corpo, pois, como possuidores de pênis, tendem a se identificar com o centrífugo e vital. Nas meninas, a concepção sádica do coito, quando muito enfatizada, vai perturbar grandemente o desenvolvimento da função erótica. Tendo sua constituição anatômica, elas passam a temer terrivelmente que seu corpo seja penetrado, e as possíveis visões do sangue menstrual ou comentários sobre a dor no parto e cólicas contribuirão para o fortalecimento da terrível crença no ataque sexual feito pelo homem na mulher, que acreditam ser, de fato, a causa do sangramento e do sofrimento. Em decorrência de todo esse quadro, a única função erótica feminina livre de dor física é revestida desse significado. Ou seja, para a mulher não há prazer sem dor. Para completar esse quadro sombrio, afirma ainda que a mulher é passiva no ato sexual e depende do homem para obter satisfação. Todo prazer experimentado no ato sexual deriva da virilidade contida no orgasmo feminino.

É verdade que na aceitação do papel feminino pela mulher possa haver certa dose homeopática de masoquismo, e isso combinado com a passividade da mulher no coito a impelem a aceitar e mesmo valorizar certa dose de brutalidade da parte do homem (...) Mas uma verdadeira distinção entre masoquismo e passividade deve ser estabelecida na mente feminina para que sua função erótica passiva seja normalmente aceita em bases sólidas. De fato, o coito vaginal normal não machuca a mulher, ao contrário (Bonaparte, 1934/1975, p. 284).

Marie Bonaparte vai se dedicar ao estudo da vida pulsional e, em especial, às origens da dupla sadismo-masoquimo. No texto “Some biopsychical aspects of sado-masochism” (1945), revisa de forma extensa e cuidadosa a teoria freudiana das pulsões até 1925, enfocando particularmente as origens e as vicissitudes do sadismo e do masoquismo. Cita um romance do marquês de Sade, “Histoire de Juliette: les prospérités du vice”, para introduzir a crueldade na luxúria e afirma que, como Freud, em “O problema econômico do masoquismo”, Sade também considera o masoquismo como precursor do sadismo. De Sade, igualmente aponta a importância da morte como um instinto componente da vida que visa à desintegração e, com isso, se aproxima ao conceito freudiano de pulsão de morte. Nesse texto, reafirma que a sexualidade feminina tem pontos de apoio importantes no masoquismo, que são mesmo determinados biologicamente. Para Bonaparte, a cena primária realmente testemunhada marca de forma profunda e traumática a menina, que equacionará a penetração do coito a um ataque perpetrado pelo homem. Uma confusão psíquica pode surgir entre a penetração que machuca e a erótica. O menino também passaria por temores semelhantes - uma vez que Marie defende a natureza bissexual do ser humano -, mas, tendo um pênis, sua identificação se faz mais facilmente com aquele que perfura e não com o perfurado. Restaria às meninas o terror de viver essa penetração como uma perfuração, o que pode resultar num novo investimento das posições defensivas masculinas.

Assim, das lembranças da cena primária, perdidas em meio à amnésia infantil, e dos traços deixados em cada inconsciente, pode resultar o conceito de coito sádico que leva a mulher a se afastar da aceitação do falo penetrante, que se liga imaginariamente a uma arma perfurante. Mas pode acontecer, por vezes, que o homem predisposto ao sadismo crie a contraparte para esse conceito de coito sádico, no qual o conceito erógeno do machucar, de arma perfurante, é falicizado e erotizado. Nesse caso, o simbolismo fálico da faca é tomado pela mente como literal (Bonaparte, 1945/1973, p. 182).

Utiliza Marie os versos de Baudelaire do poema “Aquela que é tão jovial” (“A celle qui est trop gaie”)3 como ilustração para essa confusão entre a penetração que machuca e a erótica. A natureza da pulsão feminina, passiva, em que prazer e dor estão juntos e inseparáveis, pode estar subjacente a esse conflito.

O erotismo tende a ligar esse terror de invasão - e frequentemente tem sucesso em fazê-lo - por investir masoquisticamente a confusão entre a penetração que machuca e a erótica, ou por estabelecer tal penetração como predominantemente erótica. Entretanto, uma dose homeopática de masoquismo permanece necessária, mesmo para a aceitação feminina da penetração mais erógena (Bonaparte, 1945/1973, p. 180).

Marie escreveu por toda a sua vida e suas obras dão uma espécie de testemunho dos períodos por que passou. Durante os anos de guerra (1941 a 45), em que a desmobilização foi quase geral na Sociedade de Paris, a princesa manteve-se ativa, escrevendo artigos e cartas, analisando pacientes e dando cursos no hospital psiquiátrico, no exílio na África do Sul e no Sul da França. É desse período “Mitos de guerra”, artigo publicado em 1946, que se originou de conferências lidas perante o Instituto de Psicanálise, ainda aberto no inverno de 1939. Nesse texto, fala sobre as fantasias coletivas surgidas nos primeiros meses da guerra, em especial sobre as queixas das mulheres dirigidas aos responsáveis pelo exército em relação ao uso indiscriminado de bromato no vinho dos soldados (é sabido que o bromato favorece a impotência sexual). Sobre esse tema versará uma das duas únicas publicações de membros da Sociedade de Paris, na época: “O mito do bromato no vinho”, por John Leuba.

No retorno a Paris, terminada a guerra e a desocupação, a princesa teme agitações entre os psicanalistas franceses após os anos conturbados em que o grupo mantivera-se pouco ativo e dividido. Havia rumores de que um ou outro analista havia “colaborado com os alemães”. A princesa prevê rivalidades e ataques de uns contra os outros, o que de fato se dá na instauração de um processo judicial de depuração contra René Laforgue. Nada fica provado, mas Laforgue deixa ter qualquer influência na Sociedade. Em meio a um ambiente pouco produtivo e muito solicitador, a princesa passa cada vez mais tempo no Sul da França, de onde escreve, atende pacientes e dá seguimento à sua vida como psicanalista. Cito um pequeno trecho da carta de Paul Jury a Loewenstein, datada de 1946:

Segundo o que entendi, a Sociedade de Paris tornou-se um cesto de caranguejos. A guerra fez dessas coisas. A princesa reina sempre ou pelo menos o desejaria, mas ela não paga mais nada. Enquanto nossos analistas ainda estão no estágio oral, não tendo leite nem mamãe nutridora, não sabem o que fazer. Briga-se com entusiasmo. Parchenimey dirigindo o concerto, desprezado por todos, mas ativo. Acabou-se por colocar Laforgue em frente a uma comissão depuradora, Parcheminey levando as coisas às ocultas e Leuba em primeiro plano. Mas no processo tudo desmoronou, foi necessário em sessão renunciar à acusação (Mijolla, 1988, p. 190).

Outras obras não menos importantes são Marie-Felicite: um caso de loucura criminal, escrito em 1927; os Cinco cadernos, uma série de ensaios autobiográficos, em que comenta sua análise e suas lembranças infantis; e os Cahiers noirs, relato de lembranças íntimas de sua vida e de sua análise.

Escreve ainda uma psicobiografia em três volumes sobre Edgar Allan Poe, obra em que também apreendemos ressonâncias de sua infância. Quando criança, Marie tinha um terrível medo de fantasmas, o que novamente sentiu ao reler os poemas de Poe, entre eles, particularmente, “Legeia”. Célia Bertin nos informa que durante um dos períodos de análise com Freud, Marie pôde explorar esses temores e compreender a que esse monstro temido se relacionava. Tinha medo do retorno da mãe, que teria matado ao nascer e que estaria de volta, feito um ogro edipiano, para vingar-se. Sentia-se cúmplice, por seu nascimento, do assassinato cometido pelo pai. Trabalhando em sua análise, passa a ter consciência do que tanto a atormentara, e sente que pode escrever uma obra em que expresse suas descobertas e conhecimentos tão custosamente adquiridos. Escolhera, por isso, fazer um estudo analítico da biografia e obra de Edgar Allan Poe.

Seu percurso na psicanálise passa - e talvez isso seja inexorável - por suas questões pessoais, e sua grande questão foi em relação à sexualidade. Marie procurou Freud em meio a uma profunda depressão, referindo-se especificamente ao seu intenso sofrimento nas relações afetivas com o sexo oposto e à falta de prazer nas relações sexuais. Possivelmente, sua história de vida, sua elaboração pessoal sobre a morte da mãe e a (im)possível identificação com ela, a falta de trocas afetivas significativas com o pai e a rispidez da avó, a culpa edípica, o casamento frustrado e uma busca incessante por relacionamentos que a preenchessem afetiva e sexualmente tenham moldado seus interesses. Marie Bonaparte teve ainda uma curta análise, mesmo para os padrões da época, que depois foi retomada de tempos em tempos. Podemos nos questionar se sua teorização psicanalítica, apesar de rica, não está excessivamente permeada pela elaboração subjetiva de suas fantasias e teorias infantis.

Para Ethel Person, suas contribuições compreendem o desenvolvimento sexual, mas também traços de caráter associados à feminilidade, dentre eles a passividade, o masoquismo e o narcisismo. Reconhece ela em Bonaparte uma observadora astuta: a maior parte do que descreveu no desenvolvimento psicossexual ainda é observado nas análise de mulheres. Portanto, seus insights são muito úteis clinicamente, até os dias de hoje; o erro de Marie Bonaparte teria sido o de confundir o sentido de certos temas, que emergiam na análise, com causalidade. Como atribuir tanto à observação da cena primária? Masoquismo e feminilidade têm uma determinação muito mais complexa do que Bonaparte supunha. Penso que, em cada um de nós, as determinações inconscientes, transgeracionais e socioculturais são fundamentais para a formação do conceito do que é ser homem ou mulher.






Uma carta de Freud a Marie Bonaparte

Grinzing, 13 de agosto de 1937.

Minha cara Marie:¹

Posso responder-lhe sem demora, pois tenho pouco a fazer. O “Moisés” II foi concluído anteontem, e as pequenas dores esquecemos melhor numa troca de idéias com amigos.

Para o escritor, a imortalidade significa que ele será amado por muitas pessoas desconhecidas. Mas eu sei que não chorarei sua morte. Pois você sobreviverá a mim por muitos anos e, espero, se consolará rapidamente, e me deixará seguir vivendo em sua memória amiga, a única espécie de imortalidade limitada que reconheço.

No momento em que nos perguntamos sobre o valor e o sentido da vida, estamos doentes, pois objetivamente tais coisas não existem. Ao fazê-lo, apenas admitimos possuir um quê de libido insatisfeita, a que algo mais deve ter acontecido, uma espécie de fermentação que conduz à tristeza e à depressão. Essa minha explicação não é grande coisa, certamente. Talvez porque eu mesmo seja muito pessimista. Anda em minha cabeça um advertisement que considero o mais ousado e bem-sucedido exemplo de propaganda americana:

Why live, if you can be buried for ten dollars?

(Por que viver, se você pode ser enterrado por dez dólares?)

Lün refugiou-se junto a mim, depois de um banho. Se a compreendo bem, manda que lhe agradeça a lembrança.

Topsy² já sabe que está sendo traduzida?

Escreva breve!

Afetuosamente,

Freud

___________________
1 Marie Bonaparte (1882-1962), princesa da Grécia, foi paciente, depois discípula e amiga de Freud. (N. O.)
2 Lün era uma cadela de Freud, da raça chow. Topsy, também uma cadela chow, pertencia a Marie Bonaparte; a última frase se refere ao trabalho que Marie Bonaparte escreveu sobre ela, que estava sendo traduzido por Freud e a filha Anna. (N. O.)



O Evangelho à luz da psicanálise de Françoise Dolto











Autor: Françoise Dolto / Gérard Sévérin Título: O Evangelho à luz da psicanálise Volume 1 Editora: Imago Ano: 1979 Páginas: 159 Comentário : Entrevista por Gérard Sévérin. (Coleção Psicologia psicanalítica). Uma interpretação psicanalítica da vida e dos milagres de Jesus; p. ex. a ressurreição do filho da viúva de Naim: sua morte era a negação..



Keila, creio que só vamos encontrá-los em sebos, e bons!
Pois são livros raros.

Françoise Dolto


Médica e psicanalista francesa, Françoise Dolto nasceu a 6 de Novembro de 1908. Defendeu tese em Medicina, em 1939, sobre o tema das relações entre a psicanálise e a pediatria. Teve um grande mestre na sua vida que a aconselhou em diversos momentos, Édouard Piehon.
O método de trabalho usado com as crianças consistia em abandonar a técnica do jogo e da interpretação dos desenhos e em praticar uma escuta capaz de traduzir a linguagem infantil. Segundo Dolto, o psicanalista deveria usar as mesmas palavras que a criança e comunicar-lhe os seus próprios pensamentos sob o seu aspecto real.
Em 1938, conhece Jacques Lacan que acompanhou ao longo da sua carreira de psicanalista. Durante 40 anos, Lacan e Dolto seriam o casal "parental" para gerações de psicanalistas franceses.
Em 1940, inaugura no Hospital Trousseau um consultório aberto a todos os analistas que desejassem formar-se na prática da psicanálise das crianças. Este consultório foi encerrado em 1978, na sequência de diversas controvérsias.
Em 1953, acompanhou Daniel Lagache na criação da Sociedade Francesa de Psicanálise, na qual começou a formar alunos.
Publicou diversos livros, todos eles ligados à psicanálise de crianças e adolescentes e fez vários estudos e tratamentos longitudinais de adolescentes com problemas.
Em 1977, com Gérard Sevérin, psicanalista e editorialista do Jornal La Vie , propôs uma leitura psicanalítica dos Evangelhos, que a levou a conferir um significado espiritualista à questão do desejo, concebido como uma transcendência humanizante e a acrescentar uma base mística à sua tese da imagem do corpo. Esse livro - A Psicanálise dos Evangelhos - foi traduzido em nove línguas e criticado tanto pelos cristãos, quanto pelos teólogos e pelos psicanalistas, gerando muita polémica na época.
Em Janeiro de 1979, criou em Paris a primeira "Casa Verde", para acolher crianças até aos três anos, acompanhadas pelos pais. Tratava-se de evitar os traumas que marcam a entrada no pré-escolar e de manter a segurança que a criança adquire no nascimento e vai perdendo ao longo do tempo. Obteve um imenso sucesso e muitas outras "Casas Verdes" foram inauguradas, no Canadá, Rússia, Bélgica, etc.
Durante a sua carreira, pela rádio e televisão, continuou a lutar pela "causa" das crianças, à qual dedicou toda a sua vida profissional. Faleceu em 1988.
Publicou, entre outros, Psicanálise e pediatria: as grandes noções da psicanálise , dezasseis observações de crianças; L'image inconsciente du corps , onde aborda a sua teoria sobre a imagem do corpo; Como educar os nossos filhos: compreensão e comunicação entre pais e filhos ; As etapas da infância: a relação entre os pais e filhos: do nascimento aos quatro anos ; Transtornos na infância: reflexões sobre os problemas psicológicos e emocionais mais comuns na criança ; O caso Dominique: relato exaustivo do tratamento analítico de um adolescente ; e o polémico A Psicanálise dos Evangelhos .




Como referenciar este artigo:
Françoise Dolto. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2010. [Consult. 2010-08-31].

Fonte:http://www.infopedia.pt/$francoise-dolto

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

A história de Anna Freud



Nascida no dia 03 de dezembro de 1895, Anna era a mais jovem dos seis filhos de Sigmund e Martha Freud. Anna não fora desejada nem por sua mãe, nem por seu pai, que decidiu, depois de seu nascimento, permanecer casto por não poder utilizar contraceptivos. Ela era uma criança viva com uma reputação para traquinagens. Freud escreveu ao amigo dele Fliess em 1899: “Anna está completamente bonita por sua desobediência....” Quando a sua irmã rival a ela se casou em 1913, a Anna escreveu ao pai dela. “Eu estou alegre que Sophie se casa, porque a disputa interminável entre nós era horrível para mim.” Anna teve de lutar para ser reconhecida pelas qualidades de que dispunha: coragem, tenacidade e o gosto pelas coisas do espírito. Não tendo nem a beleza de sua irmã Sophie Halberstadt nem a elegância de Mathilde Hollitscher, sentia-se em estado de inferioridade na família, na qual se esperava que só os herdeiros masculinos fossem talentosos para os estudos.
Rivalizando desde a infância com sua tia Minna Bernays, passou a adolescência invejando a doutrina que a privava de seu pai adorado. Na idade adulta, para aproximar-se dele, decidiu entrar para o círculo de seus discípulos. Mas como estava impedida de ir para universidade estudar medicina, tornou-se professora primária. Exerceria essa profissão durante toda a Primeira Guerra Mundial, de 1914 a 1920 exatamente.
Anna terminou sua educação básica em Viena em 1912. Em 1914 ela viajou para a Inglaterra no intuito de melhorar o inglês . Ela estava lá quando a guerra foi declarada e assim se tornou um “estrangeiro” inimigo (25 anos depois, em 1939, seria repetida esta experiência). Ela teve que voltar a Viena, com o embaixador Austro-húngaro e a companhia dele.
Ensinou na escola em que estudou, a “Cabana Lyceum”. Um dos alunos dela escreveu depois: “Esta jovem senhora teve muito mais controle sobre nós que as titias mais velhas.”
Já em 1910 Anna tinha começado a ler o trabalho do seu pai, porém o seu primeiro contato com o movimento psicanalítico ocorreu em 1913. Por ocasião de uma viagem a Londres, encontrou-se subitamente implicada no centro das relações de seu pai com Ernest Jones. Acompanhando Loe Kann, amante de Jones então em análise com Freud, Anna foi cortejada por ele. Prevenido por Loe, Freud reagiu muito mal e dirigiu a Jones sérias advertências, ao mesmo tempo em que proibia à filha embarcar em uma aventura sem futuro com um “velho celibatário” astuto. Não contente de agir como pai autoritário, fez com que Loe se analisasse para interpretar o comportamento de seu discípulo: “Jones, disse ele, faz a corte a Anna para vingar-se do fato de que sua amante quer deixa-lo, graças ao sucesso de seu tratamento.” A partir desse dia, Freud começou a desviar de sua filha todos os pretendentes que ousavam fazer-lhe a corte (Hans Lampl, notadamente). Jones esperou quarenta anos para explicar-se com Anna e confessar-lhe que continuava a amá-la.
Depois da morte prematura de Sophie e do casamento de Mathilde, Anna Freud tornou-se a Antígona da casa paterna, ao mesmo tempo discípula, confidente e enfermeira. Quanto a Freud, não hesitou em analisa-la por duas vezes: entre 1918 e 1920 e entre 1922 e 1924 (Não era anômalo para um pai analisar sua própria filha naquele momento, antes de qualquer ortodoxia tivesse sido estabelecida). Dez anos depois, tentaria justificar sua decisão: “Com minha própria filha tive sucesso, com um filho têm-se escrúpulos especiais.” Na verdade, Freud não se iludia com essa explicação edipiana. Sabia muito bem que essa análise tivera como efeito reforçar o amor que Anna lhe dedicava e que a afirmação do “sucesso” do tratamento não era mais do que a expressão de uma paixão impossível de resolver. E foi com toda a franqueza que expressou a Lou Andréas- Salomé o seu verdadeiro sentimento: era tão incapaz de renunciar a Anna quanto deixar de fumar.
Do seu lado, Anna sofria com o escândalo que essa paixão suscitava no movimento psicanalítico. Foi por isso que tomou como confidentes Max Eitingon e Lou Andréas- Salomé. Ambos tiveram um papel analítico, o primeiro tentando afastá-la do pai, a segunda estimulando-a, ao contrário, a assumir essa situação transgressiva: “Pouco importa o destino escolhido, disse ela, desde que ele se cumpra até o fim.” Lou tinha razão, pois afinal foi no desabrochar completo dessa piedade filial que Ana pôde dar um significado verdadeiro à sua existência de mulher e chefe de escola no movimento freudiano. Manteve com o pai uma correspondência de 300 cartas, de ambos os lados, ainda não publicada, mas disponível na Biblioteca do Congresso de Washington.
Em 1920 Anna e Freud assistiram ao Congresso Internacional de Psicanálise e foi no campo da psicanálise de criança que Anna Freud ingressou no movimento. Em 1922, apresentou à Wiener Psychoanalytische Vereinigung (WPV) um primeiro trabalho, intitulado “Fantasias e devaneios diurnos de uma criança espancada”. Cinco anos depois, publicou sua obra principal, “O tratamento psicanalítico das crianças”. Paralelamente, assumiu a edição das obras do pai, “Gesammelte Schriften”, concluída em 1924. No ano seguinte, foi eleita diretora do novo instituto de psicanálise de Viena, recém-criado. Assim, começou a assumir as responsabilidades institucionais que iriam fazer dela a grande representante da ortodoxia vienense, em uma época em que Melanie Klein, sua terrível rival, começava a grande reformulação teórica da obra freudiana. Entre essas duas mulheres, representantes de duas correntes divergentes no seio da Internacional Psychoanalytical Association (IPA), entendimento algum nunca seria possível.
Após o ingresso de Anna no campo psicanalítico, tive em comum com o seu pai o trabalho e os amigos. Uma amiga comum era a escritora e psicanalista Lou Andreas-Salomé que era o confidente de Nietzsche e Rilke e quem iria se tornar o confidente de Anna Freud nos anos vinte. Através de Freud conheceu também Rilke cuja poesia que Anna Freud grandemente admirou. Os interesses literários de Anna pavimentaram o modo para a carreira futura dela.
Cercada pelos mais notáveis discípulos vienenses da primeira hora, Siegfried Bernfeld August Aichhorn, Wilhelm (Willi) Hoffer (1897-1967), Anna criou em 1925 o Kinderseminar (Seminário de Crianças), que se reunia no apartamento da Berggase. Depois das experiências infelizes de Hermine von Hug-Hellmuth, tratava-se então de formar terapeutas capazes de aplicar os princípios da psicanálise à educação das crianças.
No mesmo ano, conheceu Dorothy Burlingham, que se tornou sua mais cara amiga por toda a vida. Através dessa mulher, Anna realizou seu desejo de maternidade. Com uma espécie de devotamento místico, ocupou-se dos quatro filhos de Dorothy: Bob (Robert), Mabbie (Mary), Katrina (Tinky) e Michael (Mickey). Todos sofriam de distúrbios psíquicos mais ou menos graves e Anna lhes serviu de mãe, educadora e analista.
Para eles, criou com Erik Erikson, Peter Blos e Eva Rosenfekd (1892-1977), sobrinha de Yvette Guilbert, uma escola especial, que foi depois freqüentada por crianças cujos pais se analisavam: “Para esses analistas que gravitavam em torno de Freud e da família Burlingham em Viena, escreveu Peter Heller, a psicanálise era realmente uma religião, um culto, uma Igreja[...]. Minha vida se passava na escola muito particular das Burlingham-Rosenfeld, marcada pela personalidade de Anna Freud e por sua concepção de uma pedagogia psicanalítica. Entre outras coisas, embora isso tenha sido negado depois, a escola consistia em uma experiência progressiva e elitista de educação de crianças [cujos pais] faziam análise. Uma experiência privilegiada, muito promissora, inspirada e animada por um ideal de humanidade mais puro e mais sincero do que todos os outros estabelecimentos que freqüentei. Ali, difundia-se um autêntico sentido de comunidade.”
Em 1922 Anna Freud apresentou um trabalho à Sociedade Psicanalítica de Viena e se tornou uma sócia da Sociedade. Em 1923 ela começou a praticar uma clínica psicanalítica com adultos e depois com as crianças e após dois anos estava ensinando em um seminário no Instituto de Treinamento Psicanalítico de Viena na técnica de análise de criança. O trabalho dela resultou em um livro, originado de uma série de conferências para os professores e pais o qual o intitulou como Introdução à Técnica de Análise de Criança (1927). Depois ela disse deste período: “Olhando para trás, então em Viena, nós éramos tão entusiasmados, cheio de energia, era como se um continente novo inteiro estivesse sendo explorado, e nós éramos os exploradores, e nós tivemos uma chance para mudar coisas ...”
Em 1923 Sigmund Freud começou a sofrer de câncer e ficou crescentemente dependente no cuidado de Anna. Mais tarde, quando ele precisou de tratamento em Berlim, ela o acompanhou. A doença dele também era a razão por que um “Comitê Secreto” foi formado para proteger a psicanálise contra ataques. De 1927 a 1934 Anna Freud era a Secretária Geral da Associação Internacional de Psicanálise. Ela continuou a prática de análise em crianças e realizou e organizou seminários e conferências e, em casa, continuou ajudando no tratamento do seu pai. Ela também agiu como o representante público dele em várias ocasiões como a dedicação de uma placa no local de nascimento dele em Freiberg ou o prêmio Goethe em Frankfurt.
Enquanto Melanie Klein inventava uma nova prática da análise infantil, Anna Freud seguia o caminho indicado pelo pai desde o tratamento de Herbert Graf (o pequeno Hans). Considerando que uma criança é frágil demais para ser submetida a uma verdadeira análise, com exploração do inconsciente, defendia o princípio do tratamento sob a responsabilidade da família e dos parentes, e mais geralmente sob a tutela das instituições educativas. Segundo ela, o complexo de Édipo não devia ser examinado muito profundamente na criança, em razão da falta de maturidade do supereu. Nesse campo, a abordagem analítica devia ser integrada à ação educativa.
A fraqueza da doutrina annafreudiana vinha da ausência de reflexão sobre os laços do filho com a mãe. Aos olhos de Anna, só contava a relação com o pai. Daí a prioridade dada à pedagogia do eu, em detrimento da exploração inconsciente.
Depois da ruptura com Otto Rank, Anna Freud foi admitida em seu lugar no Comitê Secreto. Teve então a impressão de fazer parte, finalmente, dos paladinos da “causa” analítica, o que a aproximava ainda mais do pai. Assim, tornou-se a guardiã da ortodoxia freudiana.
Em 1935 a Anna se tornou a diretora do Instituto de Treinamento Psicanalítico de Viena. Em 1937, graças ao dinheiro de uma rica americana Edith Jackson (1895-1977), que foi a Viena analisar-se com Freud, Anna criou um pensionato para crianças pobres, ao qual deu o nome de Jackson Nursery. A experiência se inspirava na de Maria Montessori. Anna e Dorothy que dirigiram a escola puderam observar o comportamento infantil e experimentar outros padrões. Eles permitiram as crianças escolherem à própria comida e respeitaram a liberdade para se organizarem. Anna escreveu “...eles aprenderam mover livremente, comer independentemente, falar, expressar as suas preferências, etc.”. Mas em 1938 de março, o berçário teve que ser fechado dentro de alguns meses, pois a Áustria foi invadida pelos Nazistas, e a família Freud teve que fugir, embora a saúde doente de Sigmund Freud.
O Ernest Jones e Princesa Marie Bonaparte proveram ajuda vital obtendo os documentos de emigração. Mas era a Anna acima de tudo que teve que lidar com a burocracia Nazista e organizar as viabilidades da emigração da família para Londres em 1938. Anna se estabeleceu depressa na sua nova casa. Ela escreveu: “A Inglaterra é realmente um país civilizado, e agradeço que nós estamos aqui. Não há nenhuma pressão e há muito espaço e liberdade à frente.”
Emigrou acompanhada de muitos vienenses que se exilariam depois nos Estados Unidos. Os kleinianos sentiram esse desembarque da “legitimidade freudiana” como uma verdadeira intrusão. Há muito tempo a British Psychoanalytical Society (BPS) estava dominada pelas teses kleinianas, que haviam transformado radicalmente o freudismo clássico. Não só os psicanalistas ingleses tinham-se afastado de seus colegas do continente, mas também sua prática, sua mentalidade, suas orientações clínicas, até seus conflitos –notadamente em torno de Edward Glover- não tinham mais nada a ver com as querelas do mundo germanófono. Ora, nessa época, Anna acabava de publicar sua obra maior, “O eu e os mecanismos de defesa”, que se chocava com as pesquisas da escola inglesa. O livro era um movimento longe das bases tradicionais de pensamento psicanalítico nos passeios: tornou-se um trabalho fundando na psicologia do ego e estabelecida a sua reputação como uma teórica abrindo caminho. O conflito era pois inevitável e ocorreria depois da morte de Freud, com a explosão, em 1941, das Grandes Controvérsias.
Depois da erupção de guerra a Anna montou um Berçário e Creche de Guerra Hampstead, que proveu cuidado para mais de 80 crianças. Ela contribuiu para ajudar as crianças e incentivava as mães a que as visitassem freqüentemente. Ela publicou estudos das crianças debaixo de tensão em “Crianças Jovens em Tempo de Guerra” e “Crianças Sem Família” junto com Dorothy Burlingham. Depois ela disse: “Eu fui especialmente afortunada toda minha vida. Desde o começo, eu pude me mover de um lado para outro entre prática e teoria.”
Na Normalidade de livro dela e Patologia em Infância (1965) ela resumiu material de trabalho na Clínica de Hampstead como também observações ao Bem Clínica de Bebê, o jardim-escola e jardim-escola para as Crianças Cegas, a Mãe e Grupo de Criança e os Berçários de Guerra. Em análises de criança Anna identificou sintomas de transferência para os que mostraram a “estrada real o inconsciente”.
Próxima das posições da “Ego Psychology”, Anna Freud retomava a noção de defesa para fazer dela o pivô de uma concepção de psicanálise centrada não mais no isso, mas na adaptação possível do eu à realidade. Daí a importância muito grande dada aos mecanismos de defesa, mais do que à defesa propriamente dita. A obra teve grande sucesso nos Estados Unidos e marcou o nascimento do annafreudismo, segunda grande corrente representada na International Psychoanalytical Association (IPA).
Esgotada pelas controvérsias e decepcionada com a evolução do movimento analítico que ela via cada vez mais afastado do freudismos original, Anna Freud conservou todavia muitos amigos de outrora, que a admiravam por seu devotamento, sua generosidade e seu senso de fidelidade, e com os quais podia evocar saudosamente o antigo esplendor vienense. Entre eles, Ernst Kris, Marianne Kris, Heinz Hartmann, René Spitz, Richard Sterba, etc. Isolada em Londres, mas instalada na magnífica mansão de Maresfield Gardens 20, que se tornaria o Freud Museum, prosseguiu com suas atividades em favor da infância, criando as Hampstead Nurseries, sempre com a ajuda de Dorothy Burlingham. Em 1952, fundou a Hampstead Child Therapy Clinic, centro de terapia e pesquisas psicanalíticas, onde aplicou suas teorias em estreita colaboração com os pais das crianças atendiada.
Guardiã da herança freudiana, tratou não só da publicação das obras do pai e de seus arquivos, como também dos membros da família, principalmente os sobrinhos. Durante os anos 1970, continuou a desempenhar o papel de mãe para os filhos de sua amiga Dorothy. Dois deles tiveram um fim dramático: Bob morreu de uma crise de asma depois de atravessar vários episódios de depressão, e Mabbie acabou suicidando-se, ingerindo uma alta dose de medicamentos.
Em 1990, tornando-se professor de literatura, Peter Heller publicou um depoimento comovedor sobre as suas lembranças da análise com Anna Freud. Nascido em Viena em 1920, submeteu-se a um tratamento com ela entre 1929 e 1932. Depois, casou-se com Tinky, filha de Doroty Burlingham, e em seguida passou ainda longos anos no divã de Kris. O relato de seu tratamento, acompanhado das notas que Anna lhe entregou, revivia a estranha confusão dos anos 1920-1935, durante a qual Anna e seu pai misturaram tão estreitamente o divã, a família e a vida particular. Peter Heller mostrava, principalmente, o caráter sufocante da posição “materna” ocupada por Anna, ao passo que, em sua doutrina, ela não levava em conta o vínculo arcaico com a mãe.
Dos anos cinqüenta até o fim da vida dela o Anna Freud viajou regularmente para os Estados Unidos para dissertar, ensinar e visitar os amigos. Durante os anos setenta ela se preocupou com os problemas de trabalhar com crianças emocionalmente privadas e socialmente desvantajosas, e ela estudou divergências e demoras em desenvolvimento. Na Yale ela ensinou seminários em crime e a família: isto conduziu a uma colaboração transatlântica com Joseph Goldstein e Albert Solnit e publicou como “Além os Melhores Interesses da Criança” (1973).
Ela também começou a receber uma série longa de doutorados honorários, enquanto começando em 1950 com Clark University (onde o pai dela tinha dissertado em 1909) e terminando com Harvard em 1980. Em 1967 ela recebeu um OBE de Rainha Elizabeth II; em 1972, um ano depois do primeiro retorno para a sua cidade nativa desde a guerra. A Universidade de Viena lhe premiou com um doutorado médico honorário: o ano seguinte ela foi eleita como presidente honorário da Associação de Psychoanalytical Internacional. Uma série de publicações dos seus trabalhos começaram em 1968, o último dos oito volumes ocorreu em 1983, um ano depois da sua morte. Em um assunto comemorativo de O Diário Internacional de colaboradores de Psicanálise na Clínica de Hampstead ofereceram um tributo para ela, e a Clínica foi renomeada de Anna Freud Centre. Em 1986 a sua casa durante quarenta anos, como tinha desejado, foi transformada no Freud Museum.
A um jovem analista que lhe enviou em 1979 um artigo prevendo a morte da psicanálise, ela respondeu com estas palavras: “Predizer a morte da psicanálise talvez esteja na moda. A única resposta inteligente é a que Mark Twain deu, quando um jornal anunciou, por erro a notícia de sua morte: ‘As notícias sobre minha morte são muito exageradas’. De qualquer forma, o sr. diz que os antigos ficaram indiferentes, o que é normal, pois sempre foram acostumados aos ataques. Sob muitos aspectos, é quando atacada que a psicanálise caminha melhor.”
Coberta de honras, mas incapaz de compreender a evolução do movimento psicanalítico, Anna Freud morreu em Londres em 1982 depois de enfrentar a tempestade provocada pelos adeptos da historiografia revisionista a respeito da publicação das cartas de Freud a Wilhelm Fliess.


Fonte http://escolaspsicanaliticas.vilabol.uol.com.br/biografiaafreud.html

Bibliografia

ROUDINESCO, ELISABETH - Dicionário de Psicanálise, Jorge Zahar Editor, RJ-1997.

CHEMAMA, ROLAND - Dicionário de Psicanálise Larousse, Artes Médicas, RS-1995.

LAPLANCHE E PONTALIS – Vocabulário da Psicanálise, Martins Fontes, SP-2000.

INTERNET : http://www.annafreudcentre.org (Museu Anna Freud).

INTERNET : http://gradiva.com.br (Revista de Psicanálise).




Fonte:http://www.nucleodepesquisas.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=199&Itemid=74