segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Verdade e escrita


Para alguns que me conhecem pessoalmente, sou uma "brecholenta-antiquária", traduzindo, adoro o velho e o antigo. Peças de roupas, objetos e livros amarelados pelo tempo, tem a minha estima e simpatia. Então, estava eu participando de um seminário na Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro - SPRJ, quando durante um pequeno intervalo para apreciarmos um delicioso bolinho de laranja com café fresco (delícias da SPRJ), observo em um canto  no corredor da casa, alguns livros e revistas organizados com um pequeno aviso: Para doar. Eu me aproximei, olhei encantada e um livro com a capa um pouco detonada e verde me chamou a atenção, o título: PSI Escrita Psicanalítica - Revista Brasileira de Psicanálise - volume 26 - nº1 e 2, 1992.
É claro que eu o levei para casa, um verdadeiro tesouro! Com diversos artigos originais, temas e resenhas de autores conhecidos da psicanálise, um precioso presente.
Na época, apenas dei uma passada com os olhos por suas páginas e guardei para quando o tempo nos fizesse companheiros. Chegou o carnaval e eu o escolhi para estar comigo nos momentos de puro descanso. Foi uma boa escolha!
Gostei tanto do artigo de André Green, A escrita psicanalítica: crítica do testemunho, que resolvi postar parte dele, Verdade e escrita - página 187. Com tradução de Vera Regina Torres.

Apreciem:
Verdade e escrita 
A experiência psicanalítica é iniciática, para quem se arrisca nela. John klauber procurando definir o que era a psicanálise para um psicanalista, diante de um auditório espantado, teve a audácia de dizer que se tratava de uma espécie de conversão. Seus ouvintes, colocados, portanto numa posição quase que religiosa – que apoiava desastrosamente que certos difamadores da psicanálise lhe censuraram – fizeram cara feia. Portanto, a psicanálise é bem esta procura da verdade. Uma verdade que se quer ser científica e que sabe que não pode ser faltando-lhe todas as garantias de que se cerca o saber científico. Portanto, quando este saber é puxado a seu ponto extremo, ele encontra não apenas a ignorância, mas, mais que isto, a incerteza. A verdade analítica é o acesso a este certeza-incerteza que fez dizer a Bion que a visão do analista deveria ser esta capacidade negativa, esta negative capability que Keats reencontrou em Shakespeare: tolerância à dúvida, ao mistério, sem tentar com a pressa ultrapassá-las ou ficar irritado. A escrita e a verdade estão unidas por laços de tradição. A coisa escrita é Lei – Pacto – Aliança. Ela é isto que faz passar a promessa de amor em garantia do ato. Transcrição do afeto que instaura a confiança no poder assertivo da palavra depositada. Como então, a psicanálise pode resolver este paradoxo de uma verdade a aproximativa, divisível, entre analista e analisando, sempre a reescutar, a re-entender todos os sentidos da palavra, e a escrita sempre pouco ou muito eterna e canônica? Como Winnicott, diremos que é preciso aceitar este paradoxo sem procurar habilmente resolvê-lo. É muito fácil “a cada um a sua verdade”, proposição que nos encerra na perdição solipsista. Ou ainda dizer, ardilosamente: “toda verdade é provisória”. É verdade que nós descobrimos que a verdade não é mais eterna e, além de tudo uma e indivisível, que ela é sempre parcial* que temos ainda que fazer o luto à tudo que se refere à verdade sem renunciar-lhe . Isto posto, a escrita psicanalítica deve, por sua vez, aceitar esta parte de verdade que a experiência lhe confere com a brevidade de um relâmpago cuja iluminação é instantânea e efêmera e, ao mesmo tempo, se dar o direito de proclamar, no momento de escrever, este absoluto singular universal e atemporal que incita o desejo de escrever, esquecido de suas sobredeterminações inconscientes. Sob este aspecto, nada mais distingue o autor psicanalista de qualquer outro autor. Todos os dois são incitados pela fé em sua criação. Ilusão do objeto reencontrado seja através da desencarnação da pulsão e o encarnado da escrita sublimada. A verdade do desejo criou o desejo de verdade. A verdade repousa como o delírio, sobre a evidência que é um afeto. Disto decorre uma teoria em busca do autor.
Outro e autor são anagramáticos. Em fé do que assino.

                                                                                                             André Green, Paris.

* N.T. “partiale ET partielle” no original, comportando dois gêneros; daí a impossibilidade de tradução para o português.

 

sábado, 18 de fevereiro de 2012

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Carnaval



Bom Carnaval

Apreciem com moderação!!!

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012