Eva marca uma entrevista. Chega chorosa com um lenço na mão. As lágrimas que molham seu rosto não a deixam iniciar o seu discurso. Após alguns minutos, uma pausa e algumas palavras sussurradas: eu preciso de você. Então pergunto: O que está acontecendo?
A história de Eva é muito atual e semelhante a centenas de histórias que escutamos. Já se transformou em uma trilogia: Descuido > Internet > Traição
Eva e Adão se conheceram, se apaixonaram e do namoro para o casamento foi um pulo. No início, flores. Depois vieram os filhos, mais flores. Família constituída - rotina estabelecida, alegrias e problemas também. O tempo chega e não dá conta de tantos desejos irrealizáveis, não ditos, engasgos, equívocos, pequenas faltas, excessivos descuidos que permeia toda relação humana e pronto, surge daí a oportunista situação, eu não estou fazendo nada, você também, que tal... E de tal em tal, vai nascendo um outro tipo de relacionamento e amor muito atual, o amor da falta, do abandono. O amor descomprometido e sem olhar para o outro.
Eva fala: pois é, descobri que o meu marido está me traindo. Ele vinha andando esquisito, distante e muito estressado. Sabe, no mundo da lua... Sempre dividimos as senhas e de um tempo pra cá, ele não quis mais, alegou que precisava de ter mais privacidade... A conta do telefone eu não conseguia ter mais acesso, muito menos do seu iPhone, este então, eu nem podia chegar perto! Aí eu comecei a ficar muito desconfiada, instalei um programinha e veio tudo, como uma tsunami. Tudo que ele havia excluído no whatsApp, retornou. Eu estou arrasada!
Eva relata toda a sua história com Adão, desde o início. Como se conheceram, como se amaram e planejaram uma família. As dificuldades e os obstáculos vencidos. Os momentos bons e ruins transitaram pelo setting analítico e como uma catarse interna, Eva se sentiu mais aliviada em escutar a si mesma.
Dias após nosso primeiro encontro, Eva retorna mais tranquila e desejando por uma pedra sobre o assunto que a tomara por completo. O "EU desejo", parecia jorrar de dentro dela como uma pulsão de vida necessária para não se sentir perdida. Seu mecanismo de defesa, atuante e também narcista, tentava lhe curar as dores e feridas expostas. Sessão após sessão, Eva ia e vinha com o seu luto. Entre salvar e matar seu Adão, casamento e amor próprio.
E Adão? Ah, o Adão estava e andava tão perdido quanto Eva. Recomendei que ele também iniciasse sua própria terapia e assim foi feito. A partir daí, Eva se transformou em uma pessoa não mais assujeitada, mas forte o suficiente para dar conta e perdoar a si mesma. Muito além das questões do Adão, ela existe! Digo para Eva que esquecer será difícil, ficará como uma marca, mas surgirá uma nova e interessante vida a ser vivida e uma mulher mais bem preparada e no seu tempo.
Adão não vê a hora de conquistar esta mulher...
