O Senhor Y quer uma resposta para todas as suas questões e busca no seu passado, motivos para compreender as causas de tanto sofrimento. Sua infância foi muito difícil.
O pai era alcoólatra e usava a agressividade para dar conta da extrema culpa que o atormentava após litros e litros de cachaça. Recorda com muita dor, a dor que o dilacerava quando testemunhava a mãe, vivendo como o principal alvo dos ataques paternos. Eram momentos em que constatava a onipotência deste outro, de forma a não ter exemplos a serem seguidos no futuro que imaginava e acalentava para si.
O tempo deu um jeito no pai alcoólatra, o Senhor Y cresceu e um dia o colocou porta afora, para curar seus porres e desferir sua agressividade, além da sua família. Como era de se esperar, a morte o encontrou e levou para sempre as suas bebedeiras e atitudes vis.
O tempo para o Senhor Y passou. Ele viajou, aprendeu outras línguas, conheceu outras pessoas e jeitos de viver a vida. Tudo enfim, estava sob controle, do seu jeito.
Então, o Senhor Y retorna para casa e descobre que seu único irmão caçula está se drogando, e de também, já ter constituído uma pequena família. Novamente entra em processo interno de ter que dar conta da situação. A vida do irmão, da cunhada e do sobrinho, além da própria mãe em desespero, como uma situação a ser resolvida e tamponada, com o eu assumo, o eu resolvo, o eu dou conta.
O eu supremo e avassalador, entram como sintomas de um tempo passado. Passa então a resgatá-los, com pagamentos que faz a traficantes, e também, a cada objeto que repõe em casa, retirados e vendidos, para cobrir o vício do irmão.
Um dia, o irmão é morto pelos seus piores credores. O trafico não perdoa e o mata como a um rato, sem dó nem piedade. Seu irmão é só mais um nas manchetes dos jornais de quinta categoria. Na sua dor, ele entendeu o que esta morte poderia representar para sua mãe, que após todos os anos de acontecimentos infelizes, haviam a transformado em uma velha mãe engessada em medos e atitudes que não conseguia compreender. A vida para ela não fazia sentido algum. O jeito foi o não vou contar.
Viveu assim, a não permissão de enterrar mais um peso morto do seu inventário pessoal.
Sem comentários, sem luto, apenas uma lápide interna com dizeres gentis “que descanse em paz”, para lhe apaziguar o desespero que também não podia externar.
Porém, um dia a verdade veio à tona para a mãe que entrou em surto, seguida de processo demencial. Morreu perdida em fatos que a vida não lhe aliviou e também, não lhe concedeu traduções, para que o seu psiquismo pudesse fazer para lhe proteger da loucura cotidiana.
Restou o nada para o Senhor Y. Nada para completar, nada para dar conta, das contas intermináveis que pensava ter a pagar. Perdeu o emprego, os amigos e a sua auto estima caiu como caem às tempestades. Seus dias se transformaram em dias onde a melancolia lhe cobrava o seu elo perdido, um eu totalmente esvaziado de permissões e atitudes para com ele próprio.
O Senhor Y deita no divã, traz sonhos e mais sonhos. Seus desejos parecem estar iniciando um renascer de si, do homem que ele se esqueceu de viver.
Depois de tantas mortes, ele sente que precisa urgente salvar a sua vida do desamparo e cobranças internas. O pedido de socorro bate a sua porta como a culpa que surge intermitente...
Aos poucos, o Senhor Y vai descobrindo que nem tudo se pode resolver, e nem é do jeito que queremos que seja. É saudável se permitir o só ser.



