domingo, 27 de março de 2011

O Obsessivo Senhor Y


O Senhor Y quer uma resposta para todas as suas questões e busca no seu passado, motivos para compreender as causas de tanto sofrimento. Sua infância foi muito difícil.
O pai era alcoólatra e usava a agressividade para dar conta da extrema culpa que o atormentava após litros e litros de cachaça. Recorda com muita dor, a dor que o dilacerava quando testemunhava a mãe, vivendo como o principal alvo dos ataques paternos. Eram momentos em que constatava a onipotência deste outro, de forma a não ter exemplos a serem seguidos no futuro que imaginava e acalentava para si.
O tempo deu um jeito no pai alcoólatra, o Senhor Y cresceu e um dia o colocou porta afora, para curar seus porres e desferir sua agressividade, além da sua família. Como era de se esperar, a morte o encontrou e levou para sempre as suas bebedeiras e atitudes vis.
O tempo para o Senhor Y passou. Ele viajou, aprendeu outras línguas, conheceu outras pessoas e jeitos de viver a vida. Tudo enfim, estava sob controle, do seu jeito.
Então, o Senhor Y retorna para casa e descobre que seu único irmão caçula está se drogando, e de também, já ter constituído uma pequena família. Novamente entra em processo interno de ter que dar conta da situação. A vida do irmão, da cunhada e do sobrinho, além da própria mãe em desespero, como uma situação a ser resolvida e tamponada, com o eu assumo, o eu resolvo, o eu dou conta.
O eu supremo e avassalador, entram como sintomas de um tempo passado. Passa então a resgatá-los, com pagamentos que faz a traficantes, e também, a cada objeto que repõe em casa, retirados e vendidos, para cobrir o vício do irmão.
Um dia, o irmão é morto pelos seus piores credores. O trafico não perdoa e o mata como a um rato, sem dó nem piedade. Seu irmão é só mais um nas manchetes dos jornais de quinta categoria. Na sua dor, ele entendeu o que esta morte poderia representar para sua mãe, que após todos os anos de acontecimentos infelizes, haviam a transformado em uma velha mãe engessada em medos e atitudes que não conseguia compreender. A vida para ela não fazia sentido algum. O jeito foi o não vou contar.
Viveu assim, a não permissão de enterrar mais um peso morto do seu inventário pessoal.
Sem comentários, sem luto, apenas uma lápide interna com dizeres gentis “que descanse em paz”, para lhe apaziguar o desespero que também não podia externar.
Porém, um dia a verdade veio à tona para a mãe que entrou em surto, seguida de processo demencial. Morreu perdida em fatos que a vida não lhe aliviou e também, não lhe concedeu traduções, para que o seu psiquismo pudesse fazer para lhe proteger da loucura cotidiana.
Restou o nada para o Senhor Y. Nada para completar, nada para dar conta, das contas intermináveis que pensava ter a pagar. Perdeu o emprego, os amigos e a sua auto estima caiu como caem às tempestades. Seus dias se transformaram em dias onde a melancolia lhe cobrava o seu elo perdido, um eu totalmente esvaziado de permissões e atitudes para com ele próprio.
O Senhor Y deita no divã, traz sonhos e mais sonhos. Seus desejos parecem estar iniciando um renascer de si, do homem que ele se esqueceu de viver.
Depois de tantas mortes, ele sente que precisa urgente salvar a sua vida do desamparo e cobranças internas. O pedido de socorro bate a sua porta como a culpa que surge intermitente...
Aos poucos, o Senhor Y vai descobrindo que nem tudo se pode resolver, e nem é do jeito que queremos que seja. É saudável se permitir o só ser.

quinta-feira, 24 de março de 2011

terça-feira, 15 de março de 2011

E por falar em medo...



Não sinto medo do real,
só do invisível,
dos meus anseios,
ilusórios símbolos...
As vezes, 
de carne e osso,
outras,
de fumaça e fantasias sutis.
Sinto medo do que não percebo,
e dos desmedidos dias
loucos e corridos.
Sinto que paraliso
em dar o passo seguinte,
se no meu dia 
composto de horas
que eu determino-tempo,
você não fizer parte.

sábado, 12 de março de 2011

Uma introdução - Por Maggy Xavier Pittas

A doença de Alzheimer leva milhões de idosos ao óbito. Durante a trajetória desta doença, existem aspectos que requerem atenção, cuidados especiais e específicos. Além destes cuidados, o portador da Doença de Alzheimer, que nem sempre pode manter financeiramente um cuidador profissional, mas que irá necessitar de um cuidador dedicado, afetivo, paciente e presente, desde a primeira fase, até a quarta fase e seu estágio final.

Não obstante, este mesmo cuidador há de precisar estar em equilíbrio emocional e psicológico para ter condições de cuidar, aceitar, abdicar, proteger e dedicar além do seu tempo, a sua vida em prol de outra vida, a qual a doença de Alzheimer alcançou e tem efeito de degenerescência.

Podemos destacar um componente deste universo demencial, que é o sujeito que cuida – o cuidador informal , que surge muitas vezes por obrigação moral e social e que a princípio, desconhece o esforço que lhe será exigido, resultando em uma sobrecarga emocional , física , financeira e familiar/social .

Assim, através de relatos, foi observado que este sujeito, nem sempre se encontra preparado emocionalmente e psicologicamente, para a tarefa que será depositada em suas mãos e que, seus projetos, sonhos, vida pessoal e profissional, muitas vezes irão ficar em segundo plano, pois o portador desta temida doença, necessita de atenção integral.

Estes acontecimentos foram observados após um período de permanência no Módulo da sala dos cuidadores, no campus de geriatria e gerontologia da UFF e iniciando-se desta forma o interesse em pesquisar sobre as diferenças tão peculiares que diversos cuidadores traziam durante o seu relato, sobre os acontecimentos, surpresas e sentimentos como o medo, a tristeza, a perplexidade, o abandono, e a necessidade de receber acolhimento muito além do familiar, onde muitas vezes não o encontravam, mas sim em um grupo, e como tal, também o sofrimento fazia conjunto e assim, os possibilitavam falar a respeito da dor, tão comum a todos. Para Figueiredo (2009) “... grupos, instituições e indivíduos, ajudando a sonhar, ajudando a dar forma, colorido, palavra e voz aos estratos mais profundos do psiquismo. Estas são formas extraordinariamente importantes do cuidar. Quando nos faltam, sofremos com a sobrecarga de experiências emocionais obscuras e perturbadoras que evocam em nós a ameaça de loucura”. (As diversas faces do cuidar – p.137)

Ficou constatado que, a troca de informações e experiências, apesar dos tristes relatos dos que já passavam pela fase mais adiantada da doença, surtiam resultados de encorajamento, melhorando a auto-estima, pois os depoimentos agiam como um lenitivo para os que ainda iniciavam a sua jornada.

Em diversas ocasiões, ocorreram que eles mesmos se questionavam o porquê de estarem tão envolvidos naquela situação, onde seus projetos e perspectivas de vida permaneciam alienados e subjugados ao esquecimento.

Para o cuidador informal, seus sentimentos nem sempre são validados, mas colocados a parte e normalmente deixados para depois. Assim, são relevantes algumas questões, tais como:

• Que futuro eu possuo?

• Qual vontade me pertence?

• Qual é o meu tempo?

• Meu espaço é respeitado?

Até chegar a uma pergunta que nunca se cala e que nem sempre recebe resposta: Quem é que cuida de mim? Segundo Freud, “Não podemos pular para fora deste mundo. Isso equivale a dizer que se trata do sentimento de um vínculo indissolúvel, de ser uno com o mundo externo como um todo”. - em seu artigo O mal-estar na civilização, citando Christian Dietrich Grabbe [1801-36], Hannibal: “Ja, aus der welt werdem wir nicht fallen. Wir sind einmal darin.” [‘Sim, não pularemos para fora deste mundo. Estamos nele de uma vez por todas. ’].

Atualmente, médicos da geriatria e profissionais da gerontologia, incluindo os diversos braços que essa doença faz uso, tais como: fisioterapia, fonoaudiologia, assistência social, enfermagem, psicologia e muitas outras especialidades, que, preocupadas com o sofrimento colocado em relatos por esse sujeito, o cuidador informal, e que, enfim se inicia em ter seus sentimentos respeitados e de passar a possuir um espaço onde o seu sofrimento será acolhido, voltam também os seus olhares para esse lugar que nem sempre é valorizado devidamente, seja na família ou na sociedade na qual vive.

Ao dedicar a sua vida a um evento tão árduo, onde muitas vezes são convocadas sem ter outra escolha, ficando clara uma questão: como responde o que sente e por onde permeia o fator psicológico desse sujeito, o cuidador informal, durante as diversas fases da doença de Alzheimer?

“A patologia nos familiarizou com grande número de estados em que as linhas fronteiriças entre o ego e o mundo externo se tornam incertas, ou nos quais, na realidade, elas se acham incorretamente traçadas. Há casos em que partes do próprio corpo de uma pessoa, inclusive partes de sua própria vida mental – suas percepções, pensamentos e sentimentos – lhe parecem estranhas e como não pertencentes a seu ego; há outros casos em que a pessoa atribui ao mundo externo coisas que claramente se originam em seu próprio ego e que por este deveriam ser reconhecidas”.(Freud em seu artigo “O mal estar na civilização” – Volume XXI, pag.84-85).

Portanto, é fator primordial que além de precisar possuir muitos aspectos como os citados acima, são imprescindíveis que esse cuidador esteja recebendo orientações e esclarecimentos a respeito das diversas faces e fases desta doença tão temida e complexa, e também, possa estar sendo acompanhado de um psicólogo, para que permaneça o seu ego mais fortalecido durante essa árdua trajetória, que é o cuidar do do idoso demenciado, do início até os confins da doença de Alzheimer.



sexta-feira, 11 de março de 2011

Facilitando o grupo!



Pessoas, este curso da Maria Carmen Tatagiba é ótimo, eu fiz e recomendo.
Estou utilizando nos encontros vivenciais e tem sido uma ferramenta indispensável.
Utilizo também, com os grupos da gerontologia, orientação profissional, reabilitação cognitiva e etc...

quinta-feira, 10 de março de 2011

Sou Codependente ou apenas “Amo Demais”?

2º ENCONTRO VIVENCIAL



 


Tema: Sou Codependente ou apenas “Amo Demais”?

Ainda há muita desinformação sobre o que é codependência e as dificuldades
que essa síndrome emocional causa na vida das pessoas.

O codependente acredita que é responsável pela felicidade do outro
e o que “ama demais”, também!... Assim, ambos elegem o outro como o

“artista principal no palco de sua própria existência”.

Se este assunto desperta em você algum interesse,
venha participar deste encontro onde esses temas serão comentados e compartilhados pelo grupo.

OBJETIVO GERAL: Perceber que amar o outro não significa ser cúmplice dos seus enganos.

OBJETIVO ESPECÍFICO: Identificar a diferença entre

“cuidar” do outro e “viver” em função do outro.

PÚBLICO ALVO: Pessoas que estão em busca de saúde afetiva
e dispostas a rever alguns comportamentos adotados.


PROGRAMA:

• O que é CODEPENDÊNCIA e suas características

• Sintomas Iniciais e Estágio de Controle

• Comportamentos no Jogo Afetivo

• Passos para Mudanças rumo a um novo Estilo de Vida



METODOLOGIA: O encontro será realizado em 3hs e meia,
divididas entre teoria e prática através de dinâmica vivencial e dialogada.



DATA: 01 DE ABRIL DE 2011 - 6ª FEIRA - HORÁRIO: 13:30 ÀS 17 HS

LOCAL: ESPAÇO ART DE VIVRE – RUA SOROCABA,264 (10 min. do Metrô Botafogo)



Informações e inscrições: construiridentidade@gmail.com

quarta-feira, 9 de março de 2011

Tentei Fugir - Nando Reis


Queria consegui dizer

O quanto eu sofri

E a falta de você me faz

Diferente até de mim

Tentei fugir pra longe

Mas não saí daqui

Estradas não faltavam

Faltava o combustível

Sozinho eu me confundo e dói

Olhar e achar ruim

Pois tudo fica muito pior

Sua voz eu preciso ouvir

Tentei fugir, pra onde?

De casa não saí

Drogadas madrugadas sobravam

Sobrava um vazio

Mas não vou mais deixar

Passar o tempo

Sem sentir o que ele faz

Pra onde?

Eu não sei

Se foi ontem

Virá

Perto ou longe

Onde esconde

Vou pra onde ela estiver

terça-feira, 1 de março de 2011

Eu me retrato, tu te retratas, eles...

Imagens, sons, canções e palavras...
Jogadas no jogo e ao vento.
Vida desenhada em novos e velhos intentos.