Eu não sei exatamente o dia, em que a palavra invadiu minha alma como um desejo proeminente, como um sinal que dali pra frente, todas as minhas percepções do mundo e das pessoas seriam muito diferentes. Sim, estava totalmente encantada e fascinada com a descoberta recém feita. Tinha sonoridade, corpo e textura, era a escrita, formada de palavras - centenas delas, como estrelinhas à noite no céu. Era menina ainda, mas de lá para cá, nunca mais outra sensação foi mais sedutora e avassaladora. Precisava ler tudo que encontrasse pela frente, escrever com minhas pequenas mãos as palavras doces que habitavam em meu pensamento, prontas para sair da minha mente como um gesto, livre e mágico. Até hoje, as palavras são como um ato especial em minha vida, elas me acalentam os anseios internos, transformam meus dias em dias ensolarados, com o eterno céu azul. Pessoas que encontro também são como palavras interessantes e motivos de muita atenção. Assim, sigo sempre aprendendo... Em caminhada pelas ruas, observo movimentos, formas, pessoas, pássaros voando em grupos, crianças balbuciando e suas mães amorosas com seus blá-blá-blás (que Lacan chamaria de alíngua materna).
Para a Psicanálise a palavra tem o seu lugar. Para dar conta de nossa angústia, usamos a palavra. Para pedirmos socorro, usamos a palavra. Para demonstrarmos nosso amor usamos novamente a palavra, e também, a arte. Porque sem ela, a palavra fica pequena, fica insossa, sem aquele temperinho a mais e sem aquela diferença fundamental que nos faz melhores e únicos. Aprender a falar, ler e escrever é um dos maiores desafios que o ser humano encontra, desde o início de sua jornada... Vamos imaginar que, com a palavra bem proferida, vamos além de um simples falar, vamos aquém de algo, de um lugar, de alguém, de um sentido que queremos dar e também receber. Portanto, a palavra precisa de arte, precisa de carinho e atenção. Precisa de um mestre dedicado, totalmente envolvido e arrebatado de amor incondicional por ela, a palavra amada. Quando pequena, não recebi esse carinho, não tive um mestre dedicado e gentil, sofri algumas dificuldades e umas e outras pedras pelo caminho. Demorei aprender a ler e a conhecer essa emoção. Porém, ela chegou como sempre chegam os fatos importantes em nossas vidas. A palavra desde cedo me envolveu e hoje leio e escrevo com verdadeiro desejo de que a palavra seja sempre minha querida companheira.
Ultimamente ando em círculos Como a fita de Moebius Um continuum Um sem fim Eu também sei que nada sei E não é isso o que me aflige É o que não me faz mover É o que me faz corroer É estar enfim, sem nada Que me faça surpreender Que me venha a faltar Que me seja indeterminado
Estava novamente super atrasada. Corria, tropeçando pelos buracos da calçada com pedras portuguesas que formavam ondas em preto e branco, tropeçou e por pouco não foi ao chão, outro salto de sapato destruído, pensou. Lembrou que demorou muito para encontrar o que vestir, para se maquiar, checar as tralhas dentro da bolsa, se o celular tinha bateria suficiente, se ia conseguir fazer tudo o que precisava naquele dia, se sua sócia não se esqueceria de levar o contrato para o novo cliente assinar... Ufa, tantos senões que de segundo em segundo, se transformavam em minutos de atraso. Entrou no metrô e por sorte conseguiu um lugar para sentar e tentar relaxar um pouco. Olhou de soslaio para o lado e percebeu a senhora delicada e bem vestida. Seu perfume era bom e seu rosto demonstrava o tempo da sua experiência. Nas mãos, um esmalte delicado e um anel de pérola antigo. Não era casada e possivelmente, era uma dessas solteironas cheias de manias e perfeccionismos. Arre! Lá estava ela a ficar imaginando coisas. Precisava parar com essa mania. Seria ela uma neurótica, paranóica compulsiva? Riu de si mesma, estava novamente se diagnosticando. Deve ser um sintoma... De repente, o trem parou em uma estação que também não prestou atenção chegar, entrou uma mulher pequena com um bebê no colo, já ia levantar para ceder o seu lugar, quando um senhor de cabelos grisalhos o fez primeiro. Ele a olhou e lhe dirigiu um sorriso como se não fosse necessário o seu gesto. Gentil e delicado, raro nos dias de hoje. Mergulhou novamente em seus pensamentos e logo chegou ao seu destino, estação da Carioca. Com ela, um mar de passageiros se precipitou pela escada rolante, preferiu ir pela escada ao lado. Esbarrou em uma sacola qualquer que arranhou a sua perna, puxando um fio da sua meia de seda. Pensou que aquele seria um dia daqueles... Prosseguiu até alcançar a Avenida Rio Branco, que outrora era famosa pelos seus lindos prédios em Art Déco, com homens e mulheres bem trajados e tranqüilos. Agora, observava uma profusão de pessoas, camelôs e veículos de todos os tipos, barulho e certo nervosismo nos semblantes, alheios ao seu pensamento saudosista.
Seria este, o ideal futuro que o passado tanto esperou e propagou para a vida humana?
Lá estava ela novamente, era quase um pedido de socorro. Porém, precisava seguir no presente, atravessar a avenida e deixar o passado do Rio antigo eternizado em fotos e saudades. Chegou enfim ao prédio onde ficava seu escritório de advocacia, cumprimentou o porteiro, entrou no elevador e apertou o botão que a levaria ao décimo terceiro andar. Tudo estava calmo, as pessoas trabalhavam e concentradas, nem perceberam a sua presença esbaforida. O telefone tocou e foi o suficiente para acionar seu mecanismo interno de trabalho, trabalho e mais trabalho. Não percebeu que era exatamente aquele “iniciar” que fazia toda a diferença, que a lançava para a vida corrida e que, em curtos momentos de espera, a fazia meditar em sua rotina. E por falar em rotina, o que será mesmo que faria do seu cotidiano sem ela?
Fale com ela através das canções que escuta no seu headfone,
Palavras que o tempo guarda e não retornam mais. Fale com ela o que escondeu por vaidade, Que o vento espalha e o céu esconde em seu infinito, Palavras de afeto que não foram ditas. Fale com ela o que o machuca e o dilacera, Deixe para trás o que esqueceu porque corria demais. Sons, imagens e ditos do passado,
Onde não cabem em versos e estrofes, Porque eles se repetem pelo tempo. Fale com ela sobre o seu perfume Que ainda insiste na sua memória, Do seu jeito de sorrir espontâneo e único, E de como se sentia, recebendo o seu amor. Fale com ela, das noites que achou que não foram sonhadas E dos dias que pensou serem tristes sem a sua presença. Fale com ela com a inocência dos anjos, Porque o amor é um sentimento que não se dá o tom. O amor é algo valioso o suficiente para acomodar Em nossa pequena e veloz vida humana.
Assistia a um filme com piratas em busca de certo tesouro. Não foi muito para eu divagar sobre essas histórias de tesouros perdidos. Quando era menina, havia em nossa estante uma enciclopédia intitulada “Tesouros da Juventude”, eram livros e mais livros em capa dura azul e letras douradas. Acreditava que todas as informações, soluções e respostas possíveis do mundo, estariam contidas em seus dezoito volumes. Quando me dei conta, estava no topo da escada de armar, buscando no armário minhas saudades internas. Encontrei um mundo de lembranças queridas, empoeiradas e esquecidas entre caixas e pastas desbotadas pelo tempo. Uma infinidade de fotos, rolos de filmes super oito, documentos (daqueles que um dia podemos precisar), recibos, extratos inúteis, boletins escolares, recados e alguns cartões de “Felicidades por esta data querida...”. Pois é, guardei meu passado e meus símbolos às vezes não tão inesquecíveis. Arquivei emoções, pessoas e amores, entre papéis de balas e tirinhas de jornal “Amar é...”, tão importantes naquela fase. Acho que nós somos assim, um dia resolvemos lembrar momentos, pessoas e fatos, como se o nosso presente não fosse o suficiente para nos preencher. Precisamos do passado para nos certificar do agora. Mas de que estou falando? De piratas, tesouros, enciclopédia e lembranças? Falo de saudades, só isso. Do que passou e ficou internalizado, leve ou pesado, bom ou ruim, alegre ou triste, não importa, tudo faz parte do meu passado presente. Faz de mim uma pessoa melhor e mais humana. Quanto à coleção “Tesouros da Juventude”, não sei exatamente que fim levou. Porém, do meu tesouro interno e particular sei que guardo até hoje entre pastas, caixas e no meu coração. Então pessoas, é muito bom saber que eu tenho um tesouro da juventude pra chamar de meu.
Diante do mal quantas vezes!... Censuramos o próximo... Desertamos do testemunho da paciência... Criticamos sem pensar... Abandonamos companheiros infelizes à própria sorte... Esquecemos a solidariedade... Fugimos ao dever de servir... Abraçamos o azedume... Queixamo-nos uns dos outros... Perdemos tempo em lamentações... Deixamos o campo das próprias obrigações... Avinagramos o coração... Desmandamo-nos na conduta... Agravamos problemas... Aumentamos o próprios débitos... Complicamos situações... Esquecemos a prece... Desacreditamos a fraternidade... E, às vezes, olvidamos até mesmo a fé viva em Deus... Entretanto a fórmula da vitória sobre o mal ainda e sempre é aquela senha de Jesus:
AMAI-VOS UNS AOS OUTROS COMO EU VOS AMEI!!... (Do livro "Visão Nova", Bezerra de Menezes, Francisco Cândido Xavier)
De que vale essa vida sem alguma sugeirinha pra chamar de sua? De que vale tanta roupa bonita, bons perfumes, sapatos elegantes? Será preciso alguém lembrar, Que hoje é o dia que mais preciso de um irmão, Um pai, uma mãe, o companheiro certo, família reunida, Trocas de idéias e impressões rotineiras... Não é preciso ter pés limpos para ser amado, mas a alma sim. É urgente um olhar direto no fundo dos nossos olhos, Pra entender que a vida, leve ou pesada, nos faz próximos, Mesmo que às vezes tão distantes...
Estrelada, noite estrelada Pinte sua paleta azul e cinza Olhe ao redor em um dia de sol Com olhos que conhecem a escuridão na minha alma Sombras nas colinas Desenhe árvores e narcisos Pegue a briza e a friagem do inverno Em cores da terra enevoada
Agora eu entendo O que você tentou me dizer E o quanto você sofreu por causa da sua sanidade E como você tentou libertá-los Eles não ouviriam Não saberiam como Talvez escutarão agora
Estrelada, noite estrelada Flores flamejantes que resplandece brilhantemente Nuvens rodopiando e nevoeiro violento Refletem nos olhos de Vincent, olhos azuis de porcelana Cores mudam a coloração Campos matinais de grãos ambarino Suportando rostos alinhados em dor São acalmadas pelas mãos amorosas dos artistas
Agora eu entendo O que você tentou me dizer E o quanto você sofreu por causa da sua sanidade E como você tentou libertá-los Eles não ouviriam Não saberiam como Talvez escutarão agora
Por eles não poderem amar você Mas ainda assim seu amor era verdadeiro E quando nenhuma esperança foi deixada dentro Daquela estrelada, noite estrelada Você tomou sua vida como os amantes geralmente fazem Mas eu poderia ter-lhe dito, Vincent Esse mundo nunca foi feito para alguém tão bonito como você
Como os estranhos que você conheceu O homem esfarrapado em roupas esfarrapadas O espinho prateado da rosa ensangüentada Estende-se esmagada e quebrada na neve virgem
Agora, acho que sei O que você tentou me dizer E o quanto você sofreu por causa da sua sanidade E como você tentou libertá-los Eles não ouviriam Ainda não o estão escutando Talvez eles nunca ouçam...
Namorava os livros de Freud desde o início do curso e desejava uma que fosse só minha. Capa vermelha, azul, preta, qualquer uma. Nova, usada, velha, que fosse... Imaginava lendo, aprendendo mais, exposta no meu futuro consultório. Um sonho real que eu compartilhava com todos que me cercam, como próximo passo para o resto da minha vida.
Depois do canudo ela chegou, usada, com anotações e muitas histórias, tinha até uma foto dos anos 70 dentro... Umas crianças dançando em alguma festa junina, um mimo!
Aí eu chorei, chorei de surpresa, paixão, sentimento puro pelo reconhecimento do amor que demonstro por essa bela profissão. Eu consegui e caminho com destino ao meu lugar ao sol, meu lugar de psicóloga. Esse lugar é difícil, conquistado com muito estudo, disciplina, doação, persistência e porque não, desejo...
Eu desejo ser. E desejo o sujeito que escreveu e com palavras se colocou.
Veio assim na dedicatória:
"As palavras se perdem no tempo. É preciso juntá-las, dá-lhes forma para que não se percam. Passá-las adiante no seu modo mais puro. São muitas as palavras registradas nestes livros. Elas questionam, invocam, provocam e ensinam. Não são novas, um pouco amareladas talvez, mas como são atuais! Espero que te sirvam, que te estimulem, que te causem certezas e espanto mais do que dúvidas. Que te inspirem a seguir o teu caminho que sempre foi o de ajudar as pessoas. Talvez Freud me roube algum tempo de você, mas me devolverá uma mulher ainda mais culta, mais sensível, mais linda e antenada com o tempo que nos cerca. Não perca tempo. Aproveite!"
Minha menina está crescendo, está ficando vaidosa e reservada com seus sentimentos. Seu mundo interno já não me acomoda mais. São outras as suas questões e opiniões. É preciso sair do meu colo.
Minha menina se olha no espelho buscando um outro rosto, um outro jeito de ver e de ser observada pelo mundo. Enquanto a terra gira, os dias vêem e vão como um flash, minha menina procura urgentes ideias sensacionais. Algo como mudar o planeta e toda essa gente que o habita, que o desfaz sem consciência alguma.
Minha menina percebe que eu envelheço e se espanta. Lembro que é assim mesmo e ela pede para rever as fotos antigas, como se o tempo pudesse parar no instante mágico das imagens captadas. Fica perplexa ao descobrir que se parece comigo e que "possivelmente" estará do mesmo jeito aos 50 anos. Fica estática olhando meu rosto...
Minha linda menina, a vida te promete muitas aventuras e acontecimentos inusitados. Te promete muitos dias pra compartilhar com pessoas comuns e espetaculares.
Minha vida em sua vida, agora segue com outro argumento, de dividirmos o que juntas generosamente nos ensinamos.
Meu tempo anda frágil, parece que nada acontece, só faço esperar,
e essa espera me dói, corrói, me aflige. São dias inteiros de mesmices, de saberes de nada saber, de tentar concluir idéias possivelmente úteis, possivelmente inúteis. Marcando ao acaso, o puro descaso do outro. Meu tempo com distração, vai caminhando a passo lento. Percebo que preciso ter minha alma, amparada em paciência.
Se eu conto você não acredita, não se importa com o dia seguinte talvez porque ainda não passou dos 20. Pede um tempo até que passe o efeito, enquanto a dor lhe ultrapassa o peito. Pode ser até amanhã... mesmo como irmã, mesmo tarde, mesmo assim... você não acredita em mim.
Enfim, Percebo que, Coloquei no outro, O que é meu.... Minha ambivalência, Meus planos, Meus enganos, Meus acertos, Não e sim. Enfim amado, Percebo Meus significados, E fim.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
Estou com saudades dos amigos queridos...
Eles estão por aí...
De férias, viajando, na praia, trabalhando...
Estão distantes como eu.
Vai passando o tempo, porque tudo na vida passa, até uva-passa, e ficamos assim... Ficamos pensando no dia de amanhã, esquecidos do dia de ontem e quando nos damos conta, já passou o tempo, um longo e precioso tempo. Porém, como sempre não queremos perder nem um segundo, acabamos por nos afastar das pessoas que adoramos dividir a vida. Pra rir, contar casos, chorar, apreciar o dia e porque não, fazer nada, eu recomendo um bom amigo. Acho que estou precisando de uma festa de aniversário, só pra sentir aquele gostinho delicioso, de bolo, sorvete, brigadeiro e é claro, de um amigo querido...
Só pra deixar a vida que tá passando agora, melhor.
Uau, Rio de Janeiro... Hoje, caminhando pelo Aterro do Flamengo, distraída, nem me dei conta que é sexta-feira. Manhã linda, céu azul, aviões chegando, partindo, gente andando, correndo, fazendo tai Chi chuan, mamães com seus bebês e até um grupo barulhento de formandos posando para a foto final. A cidade vive férias eternas, e todos os dias, parecem ser sábados e domingos. O Pão-de-açúcar parece tão próximo que sinto vontade de abraçá-lo. Lindo, perfeito... Sou carioca, e apesar das maledicências contra a minha, a sua, a nossa cidade, este aqui é o único lugar, o qual desejo estar. Ser carioca é estar sempre atento, e ao mesmo tempo largado. É não se preocupar muito com o que se veste, mesmo porque tudo faz parte da paisagem. É gostar de não ter hora, de estar perto dos amigos, uma latinha de Skol na mão e sandálias havaianas nos pés. É não gostar muito de ter de perguntar onde é o lugar, porque talvez o lugar seja aquele que estamos, com quem gostamos de estar. É torcer pelo seu time do coração e quando ele ganha... A ordem é gritar muito, colocar bandeiras nas janelas e zoar com o pobre coitado do garçom, que terá que aturar até a revanche. "E ninguém cala....esse nosso amor....é por isso que eu canto, é por ti fogo". Pronto! A culpa é sempre do juiz. Em noite de lua cheia, vamos para a varanda. Ela nos acaricia o corpo bronzeado e ficamos assim, encantados, sonhando admirados. Não esquentamos muito os neurônios, sempre tem a saideira, o depois a gente se vê no botequim da esquina, passa lá em casa, na praia. Aliás, a nossa praia é território neutro, uma mistura bacana de muita gente..."todos querendo mostrar o seu valor". O carioca é bonito sim, é muito vaidoso e cuida do corpo como cuida da alma. É carismático por natureza, descolado e natural. Fala cantando, se movimenta e quando nos damos conta, temos a nítida impressão que apesar de não ter dito muita coisa, já entendemos tudo, é assim que somos... Ser carioca é ser tanta coisa, mesmo que eu tenha esquecido de mencionar algo. Aliás, vale lembrar que hoje é sexta-feira....maravilha!!!!
Ela se dirigiu até o hall de entrada, olhou no espelho antigo da parede próxima a porta cheia de detalhes, parou um instante e passou os olhos pela silhueta magra. Arrumou os cabelos lisos e negros, dando a impressão de estarem em desalinho casualmente. Depois, verificou o corredor pelo olho mágico, estava escuro e vazio... Suspirou aliviada, não queria encontrar com a vizinha do apartamento ao lado. Por um momento, esqueceu o que fazia ali parada e riu de sua amnésia instantânea. O que seria aquele start? Na verdade, já havia um tempo em que não pensava em si, nas suas ações e no seu possível futuro. Parecia tudo tão confuso e ao mesmo tempo, pleno de nada, nada mais. Parou um pouco, respirou fundo e ajeitou a postura, a única coisa que lhe passou pela mente foi a possibilidade de uma tempestade, precisava de um guarda-chuva para lhe proteger os cabelos. Onde será que o colocara? Lembrou então, do encontro marcado e do filme escolhido, precisava correr, estava atrasada. Sorriu para si e sentiu um grande prazer quando cruzou a soleira da porta e um vento suave lhe atingiu o rosto. Deixou seu apartamento para trás e ganhou a rua como quem ganha uma notícia boa.
Relembrar também... Pensar até que a dor dilua, transforme em água pura o que não der pra engolir ou nomear. Algo assim, que pareça simples de tão difícil... Que escorra com o sangue da ferida aberta. Até que passe o verão, até o fim dos dias, vou chorar as lágrimas pra dor virar sertão... Então quem sabe, um respiro de jasmim me salve e me abone a carne, cruelmente dilacerada... de desejos malfazejos que a vida encruou... Só assim, pra passar bem, pensar faz bem, relembrar também.