segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Visitando o Túmulo da Mãe que não Morreu

Davy Bogomoletz muito me ajudou em um caso delicado na minha clínica, quando tive a felicidade de encontrar este maravilhoso artigo escrito por ele. Foi fundamental para que um novo olhar de minha parte, passasse a fazer toda a diferença nas sessões terapêuticas, com um rumo positivo e bastante acolhedor. Assim, como forma de agradecimento, posto aqui no Das Verlieren. 
Apreciem e releiam, é um aprendizado imperdível!






Winnicott - Paixão, Compaixão e Humor
Por: Davy Bogomoletz




Há muito tempo venho percebendo o quanto é importante a ‘Síndrome da Mãe Morta’, nome pelo qual André Green batizou o fenômeno. Como sabemos, Green tentou fazer uma ponte entre as teorias de Lacan e Winnicott. Se o conseguiu ou não, não sei, mas a mim não importa muito. O que me importa é que, ao descrever essa ‘síndrome’, ele de alguma forma atualizou um pensamento de Winnicott e o tornou, digamos, mais visível para o terapeuta. 
A ‘mãe morta’ é aquela que não morreu. Ela ficou doente ou deprimida pela morte de alguém muito próximo, perdeu um bebê antes ou depois da criança atual, teve outra criança quando a anterior ainda era pequena e fez esta última sentir-se ‘jogada para escanteio’, brigou com o marido e ‘deu um tempo’, voltando depois para casa, separou-se ou perdeu o marido, ou simplesmente viajou de férias e deixou a criança ‘em total segurança’ com alguém.

Quantas vezes acontece alguma dessas coisas na vida das pessoas? Quantas vezes os pais contratam uma babá, maravilhosa, extremamente competente e confiável, em quem a criança aprende a confiar, e a demitem depois de algum tempo, ou ela se casa e vai embora? Aparentemente, estou falando do que, por sua enorme freqüência, deveria fazer parte da normalidade, e não da doença. Mas infelizmente as coisas não são tão fáceis.

Winnicott, mais de uma vez, se refere à ‘equação matemática da perda’, equação que se expressa pela fórmula ‘x + y + z (/i)’. Esta última parte (/i) é minha – e já vou explicá-la. X é um tempo em que a mãe se afasta do bebê, mas ele é tão curto que não deixa marcas. Y é um tempo um pouco maior, em que o bebê fica aflito com a ausência e começa a se desesperar. Mas a mãe volta, e tudo acaba bem. Fica apenas uma pequena marca – a indicar ao bebê que o tempo da fusão está acabando. E Z é o tempo em que a ausência da mãe é mais prolongada que aquele em que o bebê consegue retê-la com clareza na memória. Se a mãe demorar um ‘tempo z’, o bebê fica marcado por uma vivência de perda, que não se apagará apesar de a mãe acabar reaparecendo. 

Aqui o sentido da expressão ‘tarde demais’ surge em toda a sua intensidade. E (/i), na fórmula, é a minha maneira de dizer que tudo isso depende da idade do bebê: quanto mais novo o bebê, mais curtos serão x, y e z. Estamos falando, então, de várias coisas ao mesmo tempo. Primeiro, do sentimento violento de desamparo que surge no bebê quando a mãe desaparece de seu campo de ação. Quando Winnicott fala da ‘ansiedade impensável’, ele a explica como sendo causada pelo sentimento de desamparo. Em vários lugares de seus escritos, por exemplo, ao falar da tendência anti-social, mas não só, ele deixa claro que o desaparecimento da figura amada (que Bowlby chamava de ‘figura de apego’, nome extremamente útil) provoca na criança uma verdadeira catástrofe. Green apropria-se dessa idéia e a estende a situações em que o desaparecimento é temporário. Mas Winnicott já havia previsto essa possibilidade, pois a fórmula x + y + z surgiu para falar exatamente disto. Segundo, estamos falando do dano causado à confiança do bebê na mãe. Esse é um aspecto da teoria psicanalítica muito pouco levado em conta, por tudo o que sei. Como adultos, estamos acostumados a duas coisas: primeiro, a confiarmos em quem confiamos, e a não confiarmos inteiramente nos outros; segundo, a nos sentirmos merecedores da confiança que outras pessoas depositam em nós, e a tolerarmos o fato de que pessoas estranhas não o façam. Tudo isso se torna tão corriqueiro ao longo da vida, que não lhe damos mais muita atenção.Mas o bebê é um estranho, por mais íntima que seja a relação da mãe com ele. 

Ele é um estranho, e se sente estranho, e não confia. Vai aprendendo a confiar aos poucos, e esse processo só se completa muitos anos mais tarde, quando a criança já é bem mais velha. Se a mãe se ausenta por um tempo z, ou se frequentemente desaparece por um tempo y, a confiança da criança sofrerá as conseqüências. A palavra ‘confiança’ é raras vezes mencionada em textos psicanalíticos, e esse é um erro grave. Porque, se nos lembrarmos do termo ‘paranóide’, do binômio ‘esquizo-paranóide’, que descreve aquela fase terrível do desenvolvimento emocional primitivo descrito por Melanie Klein, perceberemos que a ausência de confiança, ou sua presença hesitante, insuficiente, dá lugar imediatamente aos fenômenos que denominamos ‘paranóides’. A ‘paranóia’ é, como todo o mundo sabe, um ‘pseudo-conhecimento’. E a que se refere esse ‘pseudo-conhecimento’? Ora, a que mais se referiria, senão a um perigo? Para exemplificar a idéia de perigo, e de como é fácil agirmos a partir de um ‘pseudo-conhecimento’, montei certa vez a seguinte cena: Você está andando de carro por uma rua desconhecida e pouco iluminada num bairro mal afamado de uma cidade conhecida por sua violência, lá pelas três da manhã, e aí estoura um pneu. Você, pessoa previdente, abre o porta luvas, tira o revolver que está lá para ocasiões desse tipo, coloca-o na cintura, fecha o carro e sai andando em busca de uma solução. (Esse ‘filme’ se passa, evidentemente, na época em que ainda não havia celular.) Vai andando pela calçada, e pouco depois começa a ouvir passos atrás de você. Passos pesados. Lentos, mas insistentes. Sua auto-confiança/segurança/coragem acaba no máximo em três minutos, e aí você pega o revólver, vira-se e atira – para descobrir que acabou de matar uma freira gorda e velha.Imagine agora um bebê que acabou de chegar ao mundo, e não tem ainda a menor idéia de como ele funciona. Se você convive com animais, sabe que mesmo um animal adulto fica desconfiado num lugar desconhecido. Um filhote, então, ficará apavorado.A ‘paranóia’ é uma tentativa exagerada de auto-proteção. 

Bowlby, em sua tentativa de montar uma psicanálise baseada em fatos, não em elucubrações, pesquisou e descobriu que 40% das crianças têm medo do escuro. Portanto, nada anormal nisso. E isto, por sua vez, significa que ‘medo’ é algo não só inato, mas universal. A proteção dos pais é, portanto, essencial. Sua conseqüência, para a criança, é um sentimento de segurança e aquilo que chamamos ‘auto-estima’. Se a proteção ‘quebra’, ou mesmo apenas ‘enguiça’, tanto a segurança quanto a auto-estima tornam-se algo de que a criança tem memória, mas não a posse. A criança, diz Winnicott, passa por um período de congelamento (um ‘estupor’, o estado chamado de ‘choque’), na qual ela perde as referências (ela perde, mesmo que temporariamente, tanto a pessoa de quem depende quanto a si própria, e este último aspecto é importantíssimo) e, nas palavras de Winnicott, ‘enlouquece’. Mas isso dura pouco. Em seguida ela se reorganiza e passa a funcionar com uma criança muito normal, muito boazinha, que absorveu muito bem o trauma e não dá muito trabalho aos demais.Só que esse segundo período é meramente ilusório. Surge em algum momento uma busca – por algo que a criança não sabe o que é, mas que com certeza ela perdeu. Resposta óbvia: a pessoa cuja perda ela sofreu. Resposta menos óbvia: a ilusão de onipotência que se quebrou devido ao trauma.Essa criança não pode mais acreditar na santa mentira que lhe contaram: Nada vai lhe acontecer, nós estamos aqui protegendo você.

Em algum lugar, Winnicott fala de algo que parece engraçado: da ‘ilusão de imortalidade’. Ele diz que esse é o resultado mais importante do trabalho dos pais: fazer a criança sentir que ela está a salvo, que ela não é vulnerável, que a probabilidade de acontecer-lhe algo é tão pequena que não vale a pena se preocupar. Essa ilusão de imortalidade é, certamente, da ordem da onipotência. Talvez seja mesmo a ‘última trincheira’ da onipotência primária, natural. Todos nós, que vivemos a vida, trabalhamos todos os dias, saímos de férias, só o fazemos porque algo nos diz que é seguro levantar-se da cama (ou sair debaixo dela...) para ir ‘fazer as coisas’. Os que sofreram uma quebra em sua onipotência, infelizmente, não têm tanta confiança. Para eles já ocorreu uma catástrofe, e nada os convence mais de que ela não ocorrerá de novo. Temos, então, a situação curiosa de alguém que se sente órfão... de pais vivos. E que ao mesmo tempo se sente um tanto louco, porque como é possível ser órfão se os pais estão vivos? Essa síndrome, da ‘mãe morta’, faz muito mais estragos do que imagina a psicanálise que não a conhece. E pode ser que responda, mas isso eu ainda não pesquisei, por muitas das chamadas ‘novas patologias’, que têm dado tanto trabalho aos psicanalistas nos últimos anos.Se você é psicoterapeuta e tem pacientes que considera ‘difíceis’, tente sondá-los para saber se houve, na sua infância, algum episódio desses que listei acima. Se eles confirmarem, com certeza o problema é esse.

De sobremesa, abaixo está um comentário que enviei a Gilberto Dimenstein, sobre sua coluna na Folha de São Paulo publicada em 13/1/2008, “O Traficante que Virou Educador”. 

Caro Gilberto: Acabo de ler (só hoje) sua crônica sobre o homem que não se chamava Johnny.Como psicanalista, gostaria de dar um palpite. Os indícios que você fornece sobre ele me levam a acreditar que se trata, aparentemente, de um caso típico de 'tendência anti-social' que evoluiu para a delinqüência. "Johnny" é um exemplo de criança que, na primeira parte da infância (antes dos 6 anos) perdeu parcialmente a segurança proporcionada pelos seus vínculos primários. É precisamente nesse tipo de 'boa família' que o problema ocorre: há uma família acolhedora e protetora, a criança cresce saudável e segura, mas em algum momento ocorre um desastre: Uma viagem dos pais, a morte de um parente próximo de um deles, provocando depressão severa, longa doença de um deles, ou mesmo o afastamento de uma babá a quem a criança estava ligada. Ou seja: Ocorreu um trauma de elevada intensidade, sem que houvesse uma causa visível a olho nu (o olho do não especialista). A causa fica, nesses casos, oculta para quem está procurando desastres mais sensacionais. Pareceu-me importante fazer esse comentário, porque a história de 'Johnny' é idêntica à de um sem número de jovens delinqüentes, conforme já me foi dado apurar junto a pessoas que trabalham nessa área (na antiga Febem, por exemplo).Esse fenômeno, que André Green chamou de 'síndrome da mãe morta', é importantíssimo porque sua frequência é enorme, e suas conseqüências, caso nada seja feito, devastadoras. Ou a vítima se torna delinqüente, ou se torna um 'zumbi', um corpo vivo que parece destituído de alma.Infelizmente, a psicanálise como um todo ainda não deu à questão a devida atenção. Já tive inúmeros pacientes cujo verdadeiro problema era esse - e que haviam passado por outras análises que simplesmente o ignoravam.Se você quiser mais detalhes, estou à disposição. O que posso dizer neste momento é que você, conhecido por sua preocupação permanente com o segmento menos favorecido da sociedade, deveria conhecer mais a respeito dessa questão, porque poderá fazer um bem enorme a um número gigantesco de crianças, jovens e adultos.

Grande abraço,seu admirador,

Davy Bogomoletz.
Publicado em:  17 Jan 2008


Gravura: Edvard Munch " A mãe morta e a criança"

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Sobre o amor



O amor revela
A saudade do encontro,
Transforma o  impossível
E viabiliza o novo.
O amor não tem passado triste
Ou futuro inexistente.
O amor 
Tem promessas incoerentes,
Nos imprime a loucura,
Nos fortalece,
Humaniza e contagia
O desejo
De ser também amado.
Ah, o amor...
Tão tolo e tão delicado.


sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Vá viver a vida!

Helenita é uma mulher ainda em boa forma que está se aposentando. Porém, as dúvidas e receios que estão se formando em sua subjetividade, está alterando sua dinâmica diária, iniciando assim, alguns sintomas psicológicos. Ela ainda não se sente preparada para a aposentadoria que já bate a sua porta. Sentimentos de tristeza, alívio, dever cumprido, se misturam com a sensação da futura liberdade com os seus dias e com o pensamento equivocado que a vida vai estacionar e com ela os seus desejos, planos e também a juventude, que ainda lhe corre nas veias.
A juventude é algo que vai além da “carne dura, beleza pura”, está na forma como encaramos a vida e os acontecimentos que nos chegam diariamente.
É claro que existem os inconvenientes que a idade madura demanda, aliás, são como as dificuldades em qualquer das diversas fases que passamos em nosso desenvolvimento humano.
Suas dúvidas vão desde o que vai fazer com o tempo livre, até o que não vai conseguir fazer com tanta liberdade e horários sem limites. Agora a vida lhe pertence integralmente! Filhos educados e independentes, sem os pais idosos e doentes, e também, um homem pra chamar de seu para cuidar. Helenita está sempre repetindo:
- Nossa, minhas amigas da repartição estão morrendo de inveja! Eu não entendo! Trabalhar é tão bom!
Passou tão rápido, começei a trabalhar naquele ano da novela "Sem lenço e sem documento", adorava a música da entrada, Alegria, alegria... Era como eu me sentia.
Será Helenita? É uma pergunta que ela própria se faz. O sentimento da falta em Helenita  tem sido motivo de insônias, atos falhos, coceiras noturnas e tiques nervosos, como piscar os olhos além do normal e esfregar as mãos repetidas vezes. Sente falta do marido que lhe consumia com cenas de ciúmes, dos pais lhe solicitando cuidados especiais, dos filhos que não lhe poupavam horas e horas de preocupações tão comuns nos dias atuais... Agora cada um vive a sua vida.
Helenita precisa se devolver o que durante anos, a agenda cheia de tarefas e responsabilidades lhe tirou, e que tanto se acostumou a deixar acontecer. Seu corpo e alma lhe pedem socorro, cuidados e atenção, além de tempo para aproveitar a vida.
Os sintomas são tão claros!  Helenita necessita de diversão, de alguém para lhe segurar a mão, lhe direcionar um olhar atento, tocar o seu corpo que ainda pulsa, não lhe confundir com uma cuidadora doméstica. Que juntos, possam sair por aí, sem lenço ou documento, simplesmente ao sabor do desejo que insiste em se colocar. E com desejo não se brinca Helenita! Com o desejo nos constituímos sujeitos bons o suficientemente, e fim!

Allez vivre votre vie!


quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Escravos de Jó

"Escravo é aquele que não pode dizer o que pensa."


Passo e repasso,
Entro no compasso.
Que dança é essa ou esta?
Escravos de Jó brincam fingindo silêncio,
Entoam palavras guardadas que não ousam proferir...
Fica então o dito mudo,
Ser o homem da caverna alheia e alheio ao discurso
Da teia que envolve e paralisa...
Minhas reticências nada mais são
Que a impossibilidade de dar continuidade
Do que não dou conta de terminar.
Ah, aí está o meu dito a querer ser popular.
Desfila entre os meus dedos sobre o teclado branco e delicado,
Como a goma de mascar que preenche a minha boca já exausta de mastigar...


Texto para colecionar quinquilharias e expulsar esqueletos do armário

- A quem pertence o conhecimento?....Suponho a humanidade, ou se preferir d'uma-unidade é tudo humano, tudo igual, cumplicidades que identificam idéias, calam a pulsão cruel do coração, tatuam-se num estudio suburbano...posam de artistas ocasionais, dizem palavras mitificando o mito da pele....de outros lados o poema pinta-se de rosa ao azul que traduz o céu!...{Viceraliza-se}.....testemunha-se, céus incriveis! ....qual a palavra no texto que traduz os anjos que nos calam profundamente, saindo à francesa sem falar nada, sem marcar território?....qual a verdade no meio desta mentirada?.....sometimes i think blue, e, não mais me importo com as abelhas mortas sobre o bolo...sugar blues..grudadas no glacê.... gordurosas & corrosivas para o deleite de palatares, bi-celulares......pallas cumprindo seu papel mitológico para que antropológos se ensandeçam com a possilidade do colapso nervoso & um anti bang...fatal...revelando ao mundo, o que virá!....surto obscuro no meio da manhã...pandemoniuns...palavras que nunca mais lerei no seu blog.....a canção é boa e o verbo flui delicado...sussuro de amantes teclando, fantasias...palavras universais à orelhas alheias....quimeras sussurando fonemas de qualquer maneira...mentes binárias desafiando o genoma etéreo...outras palavras de novo, no meio dos outros plágios de quando o óbvio pareceria-nos ter sido só......perda de sentido.....desorientação libidinal...seek'ng for tomorrow's parties!

Escrito por Sara_Evil

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