quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Feliz Ano Novo!


Não tinha mais onde acomodar tantas saudades. Os dias iam e vinham se arrastando e os fantasmas internos eram muitos. Alguns já perdiam as suas cores e formas originais, e se mantinham na lembrança com aspecto juvenil e quase invisíveis.

Concluía que os jovens não têm como medir a dor do guardar, do recordar, “tudo é para ontem”.

Que ironia este pensar...

Que leveza este não ter o que guardar e não pesar as medidas do dizer, do deixar o “deixa pra lá”. Enfim, para depois aprender e internalizar de forma que, o passar com o tempo, o não ter como delir, será outra maneira de reviver a dor que na juventude não se percebeu.

Os dias de fim de ano, os outros dias novos do próximo e do próximo ano, a evoluir como um dia após o outro, como uma dor sobreposta à outra dor, às vezes vestida de alegria, em outras, fantasiadas de enganos normais e estacionadas em sintomas que não compreendemos bem a razão.

Indelével e inconjugável este ato do esperar para amar, desejar e sonhar os sonhos que quisera também ser os teus, os meus, os nossos...

Sem medidas esses laços que nos damos em dias que não podemos avaliar o amanhã, e que nem sempre o serão como o agora.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Pessoas à Toa

Tem novelinha...

Esperamos por vocês....
 
 

sábado, 11 de dezembro de 2010

Amor Paixão Feminina - O amor é sem medida



Por Heloisa Caldas


O livro Amor paixão feminina, de Malvine Zalcberg, destaca-se pela importância de seu tema. Afinal, desde os tempos mais remotos, o amor interessa à humanidade. O Banquete, de Platão, e A arte de amar, de Ovídio, para citar apenas duas grandes obras da cultura ocidental, atestam isso.

No entanto, a autora se propõe a tratar do amor através da voz feminina, razão pela qual ela parte do amor como o fenômeno que surgiu nos meados do século XII e, posteriormente, inspirou o amor romântico. Só então, a voz feminina, calada por tantos séculos, pôde começar a ser ouvida. Cabe lembrar que também a psicanálise, espinha dorsal teórica do livro, foi contemporânea ao romantismo e muito contribuiu para dar a voz às mulheres.

Assim, as três palavras que compõem o título do livro de Malvine Zalcberg, enlaçam o amor ao feminino e abrem para mundos de saber e cultura acumulados ao longo de séculos. Diante desse desafio, a arte de tecelã da autora é admirável. Ela sabe entrelaçar conceitos diversos, valendo-se, em especial, da psicanálise e da arte. Seu texto é delicado, cuidadoso, preciso. Sustenta predominantemente a psicanálise e atesta como esta se enriquece ao não prescindir da arte e da cultura.

Podemos dizer que é um texto feminino. Não porque a autora é uma mulher, mas pelo fato de ela escrever deixando lacunas à reflexão, espaços abertos à fecundação, ao engendramento e à invenção. Contudo, é também um texto viril, se levarmos em conta a sustentação dos conceitos. Malvine Zalcberg não se poupa quanto a esse aspecto. Ela aborda a psicanálise de frente, corajosamente, e guerreia para esclarecer conceitos difíceis até para os afeitos à teoria. Se, com determinação, ela afirma que para uma mulher “o medo de perder o amor é uma invariável em seu inconsciente”, ela também cuida de mostrar que, para a psicanálise, as definições de homem e mulher são muito mais complexas do que a anatomia, tendo suas formulações teóricas variado, ao longo dos anos, deixando pontos em aberto.

Assim, a escrita da autora apresenta a psicanálise em seu feliz paradoxo metodológico: precisão de conceitos sem a pretensão de esgotar os enigmas. Talvez essa fidelidade ao método psicanalítico seja a responsável pelo livro atrair, cativar e, em especial, ensinar. Podemos dizer que ele é, em si, uma prova de amor: um amor de livro e um livro amoroso. Atesta o prazer em falar de amor e revela que o amor se faz através disto: da fala endereçada. A autora o explica ao mesmo tempo que o faz. Sua habilidade com a linguagem e o rumo claro da prosa tomam o leitor pela mão e o conduzem, passo a passo, por uma teorização nada simples, nem fácil. O livro ensina tanto o jovem que se aproxima do assunto, como o estudioso mais experiente. Endereçar-se num mesmo texto a um público tão vasto não é comum. É preciso dedicar-se com amor a essa tarefa de transmissão.

Ao longo de seu livro, Malvine nos mostra que o amor é uma tentativa de construir, através da fala, uma solução aos impasses do ser. Dessa forma, o amor está submetido aos problemas do ser e ter, embora fadado a não resolvê-los por completo. No entanto, é pela via do amor, por meio das fórmulas inventadas por cada um que se pode tratar a vida, conviver com a alteridade, suportar a diferença. E tudo isso porque se é só. Assim, se o amor é esse véu que esconde o desamparo radical de todo humano e ajuda a fazer parceria, não é à toa que esse amor possa ser objeto de uma paixão. E se esse desamparo é a raiz do feminino, então a paixão pelo amor está enraizada no feminino dos sujeitos, sendo as mulheres as que mais se deixam arrebatar por ela. As mulheres são apaixonadas pelo amor.

Eis, então, a demonstração do livro de Malvine Zalcberg: o feminino apela ao amor. E, nas mulheres, o feminino é esse querer... sempre mais... sem limites. Uma demanda por algo valioso, justamente devido a seu aspecto de imprevisibilidade, à alegria infantil do novo, à renovação que torna as coisas cheias de vida, ao que transborda os limites conhecidos e traz esperança de felicidade. Dessa forma, ainda que interessadas pelo gozo sexual, o feminino nas mulheres faz com que elas sejam mais amigas do amor que do sexo. Porque o sexo tem começo, meio e fim. Já o amor não tem medida.

Para concluir, trata-se de uma leitura apaixonante e instigante certamente recomendável a todos: seja o leitor iniciante ou experiente nas coisas do amor; amante ou amado; parceiro ou companheiro; ficante, rolo, caso ou namorado; romântico ou contemporâneo; crente de que o amor possa ser eterno ou descartável; duradouro ou mutável; sólido ou fluído; quer ame alguém em especial, quer ame de forma especial a alguém; quer vise a pessoa amada como complemento de seu ser, quer a tenha como companhia transitória ao longo de seu viver.

Amar é uma paixão!



 Heloisa Caldas é professora

do Programa de Pós-Graduação de Pesquisa

e Clínica em Psicanálise da UERJ

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A antenada Srta. N





A Srta. N pensa que o mundo a persegue. Definitivamente não consegue transitar pelas estradas alheias. Cobra diariamente, uma solução para as suas angústias, ter um carro novo, um vestido que lhe dê aparência deslumbrante, uma jóia de rara beleza, um sujeito completo aos seus pés. Repleto de afeto, justificativas, afirmativas, desejo e palavras doces...

Oh boy!

A Srta. N não compreende a palavra não, e o seu limite é estar totalmente fora dele. Vive a céu aberto e a sua verdade é absolutamente real dentro do seu imaginário delirante. É definitivamente, uma foracluída.

A Srta. N sofre. Um sofrimento inenarrável e mortal.

Às vezes, sai pelas ruas sem destino, entra na estação do metrô sentido zona norte, acreditando estar viajando com destino aos subúrbios de Paris!

A Srta. N. não pede socorro, ela é sua própria ambulância psíquica e sempre em via de algo que a determine, que a toque profundamente, que lhe grite uma palavra da lei e estruture seu corpo e pensamentos despedaçados. 

Outro dia, "carregava" uma faca dentro do peito. Também tinha um sujeito a segui-la, escondido atrás do seu carro. Para completar, o tal personagem possuía um fuzil...

É claro que a tal arma pesada estava direcionada para o seu corpo pequeno e frágil.

Chegou a confirmar que não estava na cidade do Rio de Janeiro, era um país chamado morro do Alemão.
- Você não leu? Está em todos os jornais e programas de rádio e televisão...

Tentei confortá-la. Sua reação foi algo cinematográfico, ela respondeu aliviada:
- Não se preocupe comigo, porque o Capitão Nascimento está chegando e vem me salvar!

Perguntei se ela havia lhe informado o "nosso" endereço. Ela olhou de soslaio, deu uma gargalhada sonora e falou de uma tacada só:
- Eu não preciso dar um "endereço" ao Capitão Nascimento, porque ele lê meus pensamentos, ele sabe tudo que eu faço e sinto. Ele é da Tropa de elite. Você não está antenada hoje! Semana que vem, vou te trazer uma antena que tenho guardada no fundo falso que tenho dentro do meu armário. É uma antena especial... Tecnologia de ponta... Fez questão de afirmar.

Nosso tempo chegara ao final. Olhei para ela, lhe ofereci a minha mão e falei com calma e firmeza:
- Srta. N vamos sair do “nosso” esconderijo, porque o Capitão Nascimento acabou de chegar para escoltá-la com segurança até a sua casa do outro lado da rua.

Ela me abraçou, segurou na minha mão e falou como quem conta um segredo:
- Vamos! Ainda bem que eu consegui completar a minha missão de hoje. Esse mundo está muito louco, não sei onde as pessoas vão parar!

sábado, 4 de dezembro de 2010

Quer ler um excelente artigo?

O delírio como método: a poética desmedida das singularidades.

Por:
Tania Mara Galli Fonseca
Luis Artur Costa
Vilene Moehlecke
José Mário Neves