
Marie psicanalista
Organizadora do movimento psicanalítico francês, a princesa consagrou sua vida à psicanálise com uma coragem e um entusiasmo de causar inveja a muitos de seus contemporâneos. Essa atividade incansável em favor da causa psicanalítica garantiu a ela um lugar de destaque na historia da psicanálise francesa, sobretudo nos seus inícios. No entanto, foi progressivamente desentendendo-se com as novas gerações de analistas. Já era uma opositora de Lacan e terminou por perder a liderança da Sociedade, na cisão de 1953, e ao longo dos anos seguintes.
Suas contribuições teóricas centraram-se na feminilidade e na sexualidade feminina. Era estudiosa, dedicada e escrevia muito bem. Seus textos são claros e se baseiam tanto em sua experiência clínica, como traduzem uma elaboração teórica que, embora siga as ideias de Freud sobre a sexualidade feminina - ou, como hoje denominamos, o monismo fálico -, também foi em alguma medida original e arrojada para sua época. Faz longas e significativas citações tanto de Freud, como de outros autores, inclusive da literatura. Tais citações ilustram seus pontos de vista e tornam a leitura agradável e rica.
Penso que seu interesse na sexualidade feminina era certamente motivado por questões pessoais, pois Marie sentia-se frustrada como mulher e julgava-se frígida. Em 1924, antes de iniciar sua análise com Freud, fez uma pesquisa com 200 mulheres, na qual avaliou o prazer sexual correlacionando-o com a distância entre o clitóris e a vagina, concluindo que a ausência de prazer coincidia com uma distância maior. Seu artigo “Considerações sobre as causas anatômicas da frigidez feminina”, publicado no periódico médico Bruxelles - Médical, sob o pseudônimo de A. E. Narjani, apontava a existência de duas causas para a frigidez: uma devida à inibição psíquica e outra de caráter vaginal anatômica. Acreditou nos benefícios de uma intervenção cirúrgica que, aproximando o clitóris da vagina, favoreceria, dessa forma, o orgasmo. Apesar do autoconhecimento que sua análise lhe proporcionou e da oposição de Freud, foi a primeira paciente a submeter-se a essa operação, e por três vezes, em 1927, 30 e 31. Estava convencida que sua frigidez se devia, sobretudo, a essa falha anatômica, mesmo tendo descoberto em sua análise que tais dificuldades possivelmente se ligavam a questões emocionais. Conseguiu localizar um trauma de infância capaz de explicar suas dificuldades: a partir do seis meses até por volta dos 3 anos, testemunhara sua babá mantendo relações sexuais com o capataz (e também seu meio-tio) da propriedade.
Um dos pilares de sua produção teórica foi a “descoberta da cena primária”. Como muitos dos primeiros psicanalistas, a princesa usou situações de sua história pessoal para ilustrar seus pontos de vista. Em seu artigo “Notes on the analitical discovery of the primal scene” (1945), descreve um caso clínico - o seu próprio, como iríamos saber mais tarde - em que, através de sonhos, lembranças da infância e pequenos contos que a paciente escrevia quando criança - aqueles escritos a partir dos 7 anos em inglês -, é recomposta na análise a lembrança da cena primária observada de forma frequente, durante os seus três primeiros anos de vida. Nesse texto primoroso, em que acredita ter encontrado uma confirmação para a teoria analítica da existência da cena primária, Marie, como Freud, afirma que a capacidade de investigar com sucesso as recordações infantis se relaciona ao chamado instinto epistemofílico, que por um lado é estimulado pela curiosidade sexual e por outro propicia o desenvolvimento das capacidades intelectuais.
Outro ponto fundamental foi sua teorização sobre o masoquismo como uma característica feminina. No artigo “Passivity, masochism and femininity” (1934), afirma que a feminilidade e o masoquismo estão estreitamente ligados. Enquanto para o homem as funções reprodutivas coincidem com a função erótica, para a mulher a sexualidade está completamente entranhada à dor. Dor narcísica presente já na descoberta da diferenças entre os sexos: castrada, a mulher está destinada a invejar o pênis.
A mulher, por outro lado, submete-se periodicamente aos sofrimentos da menstruação ... e o ato sexual, em si, se inicia com um processo que envolve em certo grau o derramamento de seu sangue, ou seja, o ato da defloração; finalmente a gestação é acompanhada por desconforto e, o parto, por dor, e mesmo a amamentação é frequentemente sujeita a distúrbios dolorosos (Bonaparte, 1934/1975, p. 279).2
A única função reprodutiva que estaria livre de sofrimento seria o ato sexual. A mulher, diz Bonaparte, tem duas zonas erógenas lado a lado, o clitóris e a vagina, e entre elas pode haver um antagonismo, com o predomínio do prazer clitoridiano e uma frigidez vaginal, ou essas zonas podem funcionar em uma harmoniosa colaboração. Entretanto, aí atuam possíveis consequências causadas pelo trauma da visão da cena primária. Quanto mais cedo acontecem as observações, maior o colorido sádico que emana da própria vida pulsional, e essa cena permanecerá na mente de quem a testemunhou, não como lembrança, mas como fantasia inconsciente. Com o desenvolvimento do ego, essa cena é modificada por todas as fantasias sadomasoquistas que se formam nas crianças de ambos os sexos. Os meninos, entretanto, se evadirão dos perigos centrípetos cloacais que a concepção sádica do coito traz para o seu próprio corpo, pois, como possuidores de pênis, tendem a se identificar com o centrífugo e vital. Nas meninas, a concepção sádica do coito, quando muito enfatizada, vai perturbar grandemente o desenvolvimento da função erótica. Tendo sua constituição anatômica, elas passam a temer terrivelmente que seu corpo seja penetrado, e as possíveis visões do sangue menstrual ou comentários sobre a dor no parto e cólicas contribuirão para o fortalecimento da terrível crença no ataque sexual feito pelo homem na mulher, que acreditam ser, de fato, a causa do sangramento e do sofrimento. Em decorrência de todo esse quadro, a única função erótica feminina livre de dor física é revestida desse significado. Ou seja, para a mulher não há prazer sem dor. Para completar esse quadro sombrio, afirma ainda que a mulher é passiva no ato sexual e depende do homem para obter satisfação. Todo prazer experimentado no ato sexual deriva da virilidade contida no orgasmo feminino.
É verdade que na aceitação do papel feminino pela mulher possa haver certa dose homeopática de masoquismo, e isso combinado com a passividade da mulher no coito a impelem a aceitar e mesmo valorizar certa dose de brutalidade da parte do homem (...) Mas uma verdadeira distinção entre masoquismo e passividade deve ser estabelecida na mente feminina para que sua função erótica passiva seja normalmente aceita em bases sólidas. De fato, o coito vaginal normal não machuca a mulher, ao contrário (Bonaparte, 1934/1975, p. 284).
Marie Bonaparte vai se dedicar ao estudo da vida pulsional e, em especial, às origens da dupla sadismo-masoquimo. No texto “Some biopsychical aspects of sado-masochism” (1945), revisa de forma extensa e cuidadosa a teoria freudiana das pulsões até 1925, enfocando particularmente as origens e as vicissitudes do sadismo e do masoquismo. Cita um romance do marquês de Sade, “Histoire de Juliette: les prospérités du vice”, para introduzir a crueldade na luxúria e afirma que, como Freud, em “O problema econômico do masoquismo”, Sade também considera o masoquismo como precursor do sadismo. De Sade, igualmente aponta a importância da morte como um instinto componente da vida que visa à desintegração e, com isso, se aproxima ao conceito freudiano de pulsão de morte. Nesse texto, reafirma que a sexualidade feminina tem pontos de apoio importantes no masoquismo, que são mesmo determinados biologicamente. Para Bonaparte, a cena primária realmente testemunhada marca de forma profunda e traumática a menina, que equacionará a penetração do coito a um ataque perpetrado pelo homem. Uma confusão psíquica pode surgir entre a penetração que machuca e a erótica. O menino também passaria por temores semelhantes - uma vez que Marie defende a natureza bissexual do ser humano -, mas, tendo um pênis, sua identificação se faz mais facilmente com aquele que perfura e não com o perfurado. Restaria às meninas o terror de viver essa penetração como uma perfuração, o que pode resultar num novo investimento das posições defensivas masculinas.
Assim, das lembranças da cena primária, perdidas em meio à amnésia infantil, e dos traços deixados em cada inconsciente, pode resultar o conceito de coito sádico que leva a mulher a se afastar da aceitação do falo penetrante, que se liga imaginariamente a uma arma perfurante. Mas pode acontecer, por vezes, que o homem predisposto ao sadismo crie a contraparte para esse conceito de coito sádico, no qual o conceito erógeno do machucar, de arma perfurante, é falicizado e erotizado. Nesse caso, o simbolismo fálico da faca é tomado pela mente como literal (Bonaparte, 1945/1973, p. 182).
Utiliza Marie os versos de Baudelaire do poema “Aquela que é tão jovial” (“A celle qui est trop gaie”)3 como ilustração para essa confusão entre a penetração que machuca e a erótica. A natureza da pulsão feminina, passiva, em que prazer e dor estão juntos e inseparáveis, pode estar subjacente a esse conflito.
O erotismo tende a ligar esse terror de invasão - e frequentemente tem sucesso em fazê-lo - por investir masoquisticamente a confusão entre a penetração que machuca e a erótica, ou por estabelecer tal penetração como predominantemente erótica. Entretanto, uma dose homeopática de masoquismo permanece necessária, mesmo para a aceitação feminina da penetração mais erógena (Bonaparte, 1945/1973, p. 180).
Marie escreveu por toda a sua vida e suas obras dão uma espécie de testemunho dos períodos por que passou. Durante os anos de guerra (1941 a 45), em que a desmobilização foi quase geral na Sociedade de Paris, a princesa manteve-se ativa, escrevendo artigos e cartas, analisando pacientes e dando cursos no hospital psiquiátrico, no exílio na África do Sul e no Sul da França. É desse período “Mitos de guerra”, artigo publicado em 1946, que se originou de conferências lidas perante o Instituto de Psicanálise, ainda aberto no inverno de 1939. Nesse texto, fala sobre as fantasias coletivas surgidas nos primeiros meses da guerra, em especial sobre as queixas das mulheres dirigidas aos responsáveis pelo exército em relação ao uso indiscriminado de bromato no vinho dos soldados (é sabido que o bromato favorece a impotência sexual). Sobre esse tema versará uma das duas únicas publicações de membros da Sociedade de Paris, na época: “O mito do bromato no vinho”, por John Leuba.
No retorno a Paris, terminada a guerra e a desocupação, a princesa teme agitações entre os psicanalistas franceses após os anos conturbados em que o grupo mantivera-se pouco ativo e dividido. Havia rumores de que um ou outro analista havia “colaborado com os alemães”. A princesa prevê rivalidades e ataques de uns contra os outros, o que de fato se dá na instauração de um processo judicial de depuração contra René Laforgue. Nada fica provado, mas Laforgue deixa ter qualquer influência na Sociedade. Em meio a um ambiente pouco produtivo e muito solicitador, a princesa passa cada vez mais tempo no Sul da França, de onde escreve, atende pacientes e dá seguimento à sua vida como psicanalista. Cito um pequeno trecho da carta de Paul Jury a Loewenstein, datada de 1946:
Segundo o que entendi, a Sociedade de Paris tornou-se um cesto de caranguejos. A guerra fez dessas coisas. A princesa reina sempre ou pelo menos o desejaria, mas ela não paga mais nada. Enquanto nossos analistas ainda estão no estágio oral, não tendo leite nem mamãe nutridora, não sabem o que fazer. Briga-se com entusiasmo. Parchenimey dirigindo o concerto, desprezado por todos, mas ativo. Acabou-se por colocar Laforgue em frente a uma comissão depuradora, Parcheminey levando as coisas às ocultas e Leuba em primeiro plano. Mas no processo tudo desmoronou, foi necessário em sessão renunciar à acusação (Mijolla, 1988, p. 190).
Outras obras não menos importantes são Marie-Felicite: um caso de loucura criminal, escrito em 1927; os Cinco cadernos, uma série de ensaios autobiográficos, em que comenta sua análise e suas lembranças infantis; e os Cahiers noirs, relato de lembranças íntimas de sua vida e de sua análise.
Escreve ainda uma psicobiografia em três volumes sobre Edgar Allan Poe, obra em que também apreendemos ressonâncias de sua infância. Quando criança, Marie tinha um terrível medo de fantasmas, o que novamente sentiu ao reler os poemas de Poe, entre eles, particularmente, “Legeia”. Célia Bertin nos informa que durante um dos períodos de análise com Freud, Marie pôde explorar esses temores e compreender a que esse monstro temido se relacionava. Tinha medo do retorno da mãe, que teria matado ao nascer e que estaria de volta, feito um ogro edipiano, para vingar-se. Sentia-se cúmplice, por seu nascimento, do assassinato cometido pelo pai. Trabalhando em sua análise, passa a ter consciência do que tanto a atormentara, e sente que pode escrever uma obra em que expresse suas descobertas e conhecimentos tão custosamente adquiridos. Escolhera, por isso, fazer um estudo analítico da biografia e obra de Edgar Allan Poe.
Seu percurso na psicanálise passa - e talvez isso seja inexorável - por suas questões pessoais, e sua grande questão foi em relação à sexualidade. Marie procurou Freud em meio a uma profunda depressão, referindo-se especificamente ao seu intenso sofrimento nas relações afetivas com o sexo oposto e à falta de prazer nas relações sexuais. Possivelmente, sua história de vida, sua elaboração pessoal sobre a morte da mãe e a (im)possível identificação com ela, a falta de trocas afetivas significativas com o pai e a rispidez da avó, a culpa edípica, o casamento frustrado e uma busca incessante por relacionamentos que a preenchessem afetiva e sexualmente tenham moldado seus interesses. Marie Bonaparte teve ainda uma curta análise, mesmo para os padrões da época, que depois foi retomada de tempos em tempos. Podemos nos questionar se sua teorização psicanalítica, apesar de rica, não está excessivamente permeada pela elaboração subjetiva de suas fantasias e teorias infantis.
Para Ethel Person, suas contribuições compreendem o desenvolvimento sexual, mas também traços de caráter associados à feminilidade, dentre eles a passividade, o masoquismo e o narcisismo. Reconhece ela em Bonaparte uma observadora astuta: a maior parte do que descreveu no desenvolvimento psicossexual ainda é observado nas análise de mulheres. Portanto, seus insights são muito úteis clinicamente, até os dias de hoje; o erro de Marie Bonaparte teria sido o de confundir o sentido de certos temas, que emergiam na análise, com causalidade. Como atribuir tanto à observação da cena primária? Masoquismo e feminilidade têm uma determinação muito mais complexa do que Bonaparte supunha. Penso que, em cada um de nós, as determinações inconscientes, transgeracionais e socioculturais são fundamentais para a formação do conceito do que é ser homem ou mulher.
Organizadora do movimento psicanalítico francês, a princesa consagrou sua vida à psicanálise com uma coragem e um entusiasmo de causar inveja a muitos de seus contemporâneos. Essa atividade incansável em favor da causa psicanalítica garantiu a ela um lugar de destaque na historia da psicanálise francesa, sobretudo nos seus inícios. No entanto, foi progressivamente desentendendo-se com as novas gerações de analistas. Já era uma opositora de Lacan e terminou por perder a liderança da Sociedade, na cisão de 1953, e ao longo dos anos seguintes.
Suas contribuições teóricas centraram-se na feminilidade e na sexualidade feminina. Era estudiosa, dedicada e escrevia muito bem. Seus textos são claros e se baseiam tanto em sua experiência clínica, como traduzem uma elaboração teórica que, embora siga as ideias de Freud sobre a sexualidade feminina - ou, como hoje denominamos, o monismo fálico -, também foi em alguma medida original e arrojada para sua época. Faz longas e significativas citações tanto de Freud, como de outros autores, inclusive da literatura. Tais citações ilustram seus pontos de vista e tornam a leitura agradável e rica.
Penso que seu interesse na sexualidade feminina era certamente motivado por questões pessoais, pois Marie sentia-se frustrada como mulher e julgava-se frígida. Em 1924, antes de iniciar sua análise com Freud, fez uma pesquisa com 200 mulheres, na qual avaliou o prazer sexual correlacionando-o com a distância entre o clitóris e a vagina, concluindo que a ausência de prazer coincidia com uma distância maior. Seu artigo “Considerações sobre as causas anatômicas da frigidez feminina”, publicado no periódico médico Bruxelles - Médical, sob o pseudônimo de A. E. Narjani, apontava a existência de duas causas para a frigidez: uma devida à inibição psíquica e outra de caráter vaginal anatômica. Acreditou nos benefícios de uma intervenção cirúrgica que, aproximando o clitóris da vagina, favoreceria, dessa forma, o orgasmo. Apesar do autoconhecimento que sua análise lhe proporcionou e da oposição de Freud, foi a primeira paciente a submeter-se a essa operação, e por três vezes, em 1927, 30 e 31. Estava convencida que sua frigidez se devia, sobretudo, a essa falha anatômica, mesmo tendo descoberto em sua análise que tais dificuldades possivelmente se ligavam a questões emocionais. Conseguiu localizar um trauma de infância capaz de explicar suas dificuldades: a partir do seis meses até por volta dos 3 anos, testemunhara sua babá mantendo relações sexuais com o capataz (e também seu meio-tio) da propriedade.
Um dos pilares de sua produção teórica foi a “descoberta da cena primária”. Como muitos dos primeiros psicanalistas, a princesa usou situações de sua história pessoal para ilustrar seus pontos de vista. Em seu artigo “Notes on the analitical discovery of the primal scene” (1945), descreve um caso clínico - o seu próprio, como iríamos saber mais tarde - em que, através de sonhos, lembranças da infância e pequenos contos que a paciente escrevia quando criança - aqueles escritos a partir dos 7 anos em inglês -, é recomposta na análise a lembrança da cena primária observada de forma frequente, durante os seus três primeiros anos de vida. Nesse texto primoroso, em que acredita ter encontrado uma confirmação para a teoria analítica da existência da cena primária, Marie, como Freud, afirma que a capacidade de investigar com sucesso as recordações infantis se relaciona ao chamado instinto epistemofílico, que por um lado é estimulado pela curiosidade sexual e por outro propicia o desenvolvimento das capacidades intelectuais.
Outro ponto fundamental foi sua teorização sobre o masoquismo como uma característica feminina. No artigo “Passivity, masochism and femininity” (1934), afirma que a feminilidade e o masoquismo estão estreitamente ligados. Enquanto para o homem as funções reprodutivas coincidem com a função erótica, para a mulher a sexualidade está completamente entranhada à dor. Dor narcísica presente já na descoberta da diferenças entre os sexos: castrada, a mulher está destinada a invejar o pênis.
A mulher, por outro lado, submete-se periodicamente aos sofrimentos da menstruação ... e o ato sexual, em si, se inicia com um processo que envolve em certo grau o derramamento de seu sangue, ou seja, o ato da defloração; finalmente a gestação é acompanhada por desconforto e, o parto, por dor, e mesmo a amamentação é frequentemente sujeita a distúrbios dolorosos (Bonaparte, 1934/1975, p. 279).2
A única função reprodutiva que estaria livre de sofrimento seria o ato sexual. A mulher, diz Bonaparte, tem duas zonas erógenas lado a lado, o clitóris e a vagina, e entre elas pode haver um antagonismo, com o predomínio do prazer clitoridiano e uma frigidez vaginal, ou essas zonas podem funcionar em uma harmoniosa colaboração. Entretanto, aí atuam possíveis consequências causadas pelo trauma da visão da cena primária. Quanto mais cedo acontecem as observações, maior o colorido sádico que emana da própria vida pulsional, e essa cena permanecerá na mente de quem a testemunhou, não como lembrança, mas como fantasia inconsciente. Com o desenvolvimento do ego, essa cena é modificada por todas as fantasias sadomasoquistas que se formam nas crianças de ambos os sexos. Os meninos, entretanto, se evadirão dos perigos centrípetos cloacais que a concepção sádica do coito traz para o seu próprio corpo, pois, como possuidores de pênis, tendem a se identificar com o centrífugo e vital. Nas meninas, a concepção sádica do coito, quando muito enfatizada, vai perturbar grandemente o desenvolvimento da função erótica. Tendo sua constituição anatômica, elas passam a temer terrivelmente que seu corpo seja penetrado, e as possíveis visões do sangue menstrual ou comentários sobre a dor no parto e cólicas contribuirão para o fortalecimento da terrível crença no ataque sexual feito pelo homem na mulher, que acreditam ser, de fato, a causa do sangramento e do sofrimento. Em decorrência de todo esse quadro, a única função erótica feminina livre de dor física é revestida desse significado. Ou seja, para a mulher não há prazer sem dor. Para completar esse quadro sombrio, afirma ainda que a mulher é passiva no ato sexual e depende do homem para obter satisfação. Todo prazer experimentado no ato sexual deriva da virilidade contida no orgasmo feminino.
É verdade que na aceitação do papel feminino pela mulher possa haver certa dose homeopática de masoquismo, e isso combinado com a passividade da mulher no coito a impelem a aceitar e mesmo valorizar certa dose de brutalidade da parte do homem (...) Mas uma verdadeira distinção entre masoquismo e passividade deve ser estabelecida na mente feminina para que sua função erótica passiva seja normalmente aceita em bases sólidas. De fato, o coito vaginal normal não machuca a mulher, ao contrário (Bonaparte, 1934/1975, p. 284).
Marie Bonaparte vai se dedicar ao estudo da vida pulsional e, em especial, às origens da dupla sadismo-masoquimo. No texto “Some biopsychical aspects of sado-masochism” (1945), revisa de forma extensa e cuidadosa a teoria freudiana das pulsões até 1925, enfocando particularmente as origens e as vicissitudes do sadismo e do masoquismo. Cita um romance do marquês de Sade, “Histoire de Juliette: les prospérités du vice”, para introduzir a crueldade na luxúria e afirma que, como Freud, em “O problema econômico do masoquismo”, Sade também considera o masoquismo como precursor do sadismo. De Sade, igualmente aponta a importância da morte como um instinto componente da vida que visa à desintegração e, com isso, se aproxima ao conceito freudiano de pulsão de morte. Nesse texto, reafirma que a sexualidade feminina tem pontos de apoio importantes no masoquismo, que são mesmo determinados biologicamente. Para Bonaparte, a cena primária realmente testemunhada marca de forma profunda e traumática a menina, que equacionará a penetração do coito a um ataque perpetrado pelo homem. Uma confusão psíquica pode surgir entre a penetração que machuca e a erótica. O menino também passaria por temores semelhantes - uma vez que Marie defende a natureza bissexual do ser humano -, mas, tendo um pênis, sua identificação se faz mais facilmente com aquele que perfura e não com o perfurado. Restaria às meninas o terror de viver essa penetração como uma perfuração, o que pode resultar num novo investimento das posições defensivas masculinas.
Assim, das lembranças da cena primária, perdidas em meio à amnésia infantil, e dos traços deixados em cada inconsciente, pode resultar o conceito de coito sádico que leva a mulher a se afastar da aceitação do falo penetrante, que se liga imaginariamente a uma arma perfurante. Mas pode acontecer, por vezes, que o homem predisposto ao sadismo crie a contraparte para esse conceito de coito sádico, no qual o conceito erógeno do machucar, de arma perfurante, é falicizado e erotizado. Nesse caso, o simbolismo fálico da faca é tomado pela mente como literal (Bonaparte, 1945/1973, p. 182).
Utiliza Marie os versos de Baudelaire do poema “Aquela que é tão jovial” (“A celle qui est trop gaie”)3 como ilustração para essa confusão entre a penetração que machuca e a erótica. A natureza da pulsão feminina, passiva, em que prazer e dor estão juntos e inseparáveis, pode estar subjacente a esse conflito.
O erotismo tende a ligar esse terror de invasão - e frequentemente tem sucesso em fazê-lo - por investir masoquisticamente a confusão entre a penetração que machuca e a erótica, ou por estabelecer tal penetração como predominantemente erótica. Entretanto, uma dose homeopática de masoquismo permanece necessária, mesmo para a aceitação feminina da penetração mais erógena (Bonaparte, 1945/1973, p. 180).
Marie escreveu por toda a sua vida e suas obras dão uma espécie de testemunho dos períodos por que passou. Durante os anos de guerra (1941 a 45), em que a desmobilização foi quase geral na Sociedade de Paris, a princesa manteve-se ativa, escrevendo artigos e cartas, analisando pacientes e dando cursos no hospital psiquiátrico, no exílio na África do Sul e no Sul da França. É desse período “Mitos de guerra”, artigo publicado em 1946, que se originou de conferências lidas perante o Instituto de Psicanálise, ainda aberto no inverno de 1939. Nesse texto, fala sobre as fantasias coletivas surgidas nos primeiros meses da guerra, em especial sobre as queixas das mulheres dirigidas aos responsáveis pelo exército em relação ao uso indiscriminado de bromato no vinho dos soldados (é sabido que o bromato favorece a impotência sexual). Sobre esse tema versará uma das duas únicas publicações de membros da Sociedade de Paris, na época: “O mito do bromato no vinho”, por John Leuba.
No retorno a Paris, terminada a guerra e a desocupação, a princesa teme agitações entre os psicanalistas franceses após os anos conturbados em que o grupo mantivera-se pouco ativo e dividido. Havia rumores de que um ou outro analista havia “colaborado com os alemães”. A princesa prevê rivalidades e ataques de uns contra os outros, o que de fato se dá na instauração de um processo judicial de depuração contra René Laforgue. Nada fica provado, mas Laforgue deixa ter qualquer influência na Sociedade. Em meio a um ambiente pouco produtivo e muito solicitador, a princesa passa cada vez mais tempo no Sul da França, de onde escreve, atende pacientes e dá seguimento à sua vida como psicanalista. Cito um pequeno trecho da carta de Paul Jury a Loewenstein, datada de 1946:
Segundo o que entendi, a Sociedade de Paris tornou-se um cesto de caranguejos. A guerra fez dessas coisas. A princesa reina sempre ou pelo menos o desejaria, mas ela não paga mais nada. Enquanto nossos analistas ainda estão no estágio oral, não tendo leite nem mamãe nutridora, não sabem o que fazer. Briga-se com entusiasmo. Parchenimey dirigindo o concerto, desprezado por todos, mas ativo. Acabou-se por colocar Laforgue em frente a uma comissão depuradora, Parcheminey levando as coisas às ocultas e Leuba em primeiro plano. Mas no processo tudo desmoronou, foi necessário em sessão renunciar à acusação (Mijolla, 1988, p. 190).
Outras obras não menos importantes são Marie-Felicite: um caso de loucura criminal, escrito em 1927; os Cinco cadernos, uma série de ensaios autobiográficos, em que comenta sua análise e suas lembranças infantis; e os Cahiers noirs, relato de lembranças íntimas de sua vida e de sua análise.
Escreve ainda uma psicobiografia em três volumes sobre Edgar Allan Poe, obra em que também apreendemos ressonâncias de sua infância. Quando criança, Marie tinha um terrível medo de fantasmas, o que novamente sentiu ao reler os poemas de Poe, entre eles, particularmente, “Legeia”. Célia Bertin nos informa que durante um dos períodos de análise com Freud, Marie pôde explorar esses temores e compreender a que esse monstro temido se relacionava. Tinha medo do retorno da mãe, que teria matado ao nascer e que estaria de volta, feito um ogro edipiano, para vingar-se. Sentia-se cúmplice, por seu nascimento, do assassinato cometido pelo pai. Trabalhando em sua análise, passa a ter consciência do que tanto a atormentara, e sente que pode escrever uma obra em que expresse suas descobertas e conhecimentos tão custosamente adquiridos. Escolhera, por isso, fazer um estudo analítico da biografia e obra de Edgar Allan Poe.
Seu percurso na psicanálise passa - e talvez isso seja inexorável - por suas questões pessoais, e sua grande questão foi em relação à sexualidade. Marie procurou Freud em meio a uma profunda depressão, referindo-se especificamente ao seu intenso sofrimento nas relações afetivas com o sexo oposto e à falta de prazer nas relações sexuais. Possivelmente, sua história de vida, sua elaboração pessoal sobre a morte da mãe e a (im)possível identificação com ela, a falta de trocas afetivas significativas com o pai e a rispidez da avó, a culpa edípica, o casamento frustrado e uma busca incessante por relacionamentos que a preenchessem afetiva e sexualmente tenham moldado seus interesses. Marie Bonaparte teve ainda uma curta análise, mesmo para os padrões da época, que depois foi retomada de tempos em tempos. Podemos nos questionar se sua teorização psicanalítica, apesar de rica, não está excessivamente permeada pela elaboração subjetiva de suas fantasias e teorias infantis.
Para Ethel Person, suas contribuições compreendem o desenvolvimento sexual, mas também traços de caráter associados à feminilidade, dentre eles a passividade, o masoquismo e o narcisismo. Reconhece ela em Bonaparte uma observadora astuta: a maior parte do que descreveu no desenvolvimento psicossexual ainda é observado nas análise de mulheres. Portanto, seus insights são muito úteis clinicamente, até os dias de hoje; o erro de Marie Bonaparte teria sido o de confundir o sentido de certos temas, que emergiam na análise, com causalidade. Como atribuir tanto à observação da cena primária? Masoquismo e feminilidade têm uma determinação muito mais complexa do que Bonaparte supunha. Penso que, em cada um de nós, as determinações inconscientes, transgeracionais e socioculturais são fundamentais para a formação do conceito do que é ser homem ou mulher.
Quer saber mais? http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S0103-58352009000200008&script=sci_arttext&tlng=pt
Uma carta de Freud a Marie Bonaparte
Grinzing, 13 de agosto de 1937.
Minha cara Marie:¹
Posso responder-lhe sem demora, pois tenho pouco a fazer. O “Moisés” II foi concluído anteontem, e as pequenas dores esquecemos melhor numa troca de idéias com amigos.
Para o escritor, a imortalidade significa que ele será amado por muitas pessoas desconhecidas. Mas eu sei que não chorarei sua morte. Pois você sobreviverá a mim por muitos anos e, espero, se consolará rapidamente, e me deixará seguir vivendo em sua memória amiga, a única espécie de imortalidade limitada que reconheço.
No momento em que nos perguntamos sobre o valor e o sentido da vida, estamos doentes, pois objetivamente tais coisas não existem. Ao fazê-lo, apenas admitimos possuir um quê de libido insatisfeita, a que algo mais deve ter acontecido, uma espécie de fermentação que conduz à tristeza e à depressão. Essa minha explicação não é grande coisa, certamente. Talvez porque eu mesmo seja muito pessimista. Anda em minha cabeça um advertisement que considero o mais ousado e bem-sucedido exemplo de propaganda americana:
Why live, if you can be buried for ten dollars?
(Por que viver, se você pode ser enterrado por dez dólares?)
Lün refugiou-se junto a mim, depois de um banho. Se a compreendo bem, manda que lhe agradeça a lembrança.
Topsy² já sabe que está sendo traduzida?
Escreva breve!
Afetuosamente,
Freud
___________________
1 Marie Bonaparte (1882-1962), princesa da Grécia, foi paciente, depois discípula e amiga de Freud. (N. O.)
2 Lün era uma cadela de Freud, da raça chow. Topsy, também uma cadela chow, pertencia a Marie Bonaparte; a última frase se refere ao trabalho que Marie Bonaparte escreveu sobre ela, que estava sendo traduzido por Freud e a filha Anna. (N. O.)
4 comentários:
Que delicadeza de carta...bom saber sobre a história de Marie Bonaparte, sua amizade com Freud, e sua busca por compreender esse nosso universo feminino...Sabe que penso muito sobre essa dificuldade de comunicação entre feminino e o masculino; mas vejo também como uma possibilidade grata, desde que haja disposição de compreender...os custos da cultura e da sociedade são altos na vida de cada um...esses são tão mais difíceis de serem apagados ou mesmo equacionados, imagino eu, do que essas cenas primárias...
Beijos querida Nina
Com certeza, Keila. Quando penso na minha profissão e o bem que ela pode trazer para quem está disposto a fazer um mergulho dentro de si e resgatar questões, fico triste, pois as pessoas nem sempre compreendem bem.
Freud fez um bem imenso a Marie, tanto que ela se descobriu psicanalista e pode contribuir, e muito, para a teoria psicanalítica.
Postei também para você, os dois livros de F.Dolto, O Evangellho à luz da Psicanálise, volumes 1 e 2.
E também, estou transcrevendo sobre,Helene Deutschm e Ella Freeman. Estou pesquisando sobre Kate Friedländer. Tenho que ir devagar, pois tem uma monografa da pós, sobre memória na fila...
O PERFUME DE STEFANÓTIS
(para Marie Bonaparte)
A princesa chegou com a luz do sol.
E o sol acendeu sua mente
para curar uma loucura agri-doce.
Uuma infância reclusa e triste
pela falta da mãe que morreu
ao lhe dar a luz.
Desde a mais tenra idade,
aprendeu a conviver com o inevitável.
E a praticar gestos nobres e solidários,
cada vez mais raros no emaranhado
das nossas rotinas diárias.
O que fazemos aqui e agora,
tem muito valor, porque nossos atos
afetam outros seres humanos.
Alma generosa, espírito luminoso!
Importa a medida da alma,
pois a criatura generosa doa
a quem não pode lhe retribuir,
de quem não lhe virá à paga.
A sua generosidade se exerceu
tão à sombra, tão silenciosa
neste mundo de trombetas e vaidades.
Contam suas riquezas pela conta bancária
e não pela suas dádivas.
Ela chegou com o sol
e com o sol se foi.
Regina Rousseau
Lindo poema,como a Marie Bonaparte. Obrigada pela sua contribuição!
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