sábado, 23 de outubro de 2010

O Senhor B.




Conheci o Senhor B, em uma visita de rotina do módulo em que estou passando na pós.
Queixa: muitas dores de cabeça e certa desorientação. Após alguns exames, uma constatação, meningioma frontal = intervenção cirúrgica.
Em seu relato, seu medo era evidente, falava muito sobre ser corajoso, que Deus sempre estava com ele, que a sua família acompanhava todas as etapas da sua internação, que o seu médico era ótimo, etc e tal. Enfim, a cirurgia apesar de aparentemente corriqueira, era algo para sentir uma pontinha de medo, afinal, não estamos falando de uma simples intervenção na barriga, por exemplo, mas do cérebro, crânio, pensamento, funções cognitivas, sobre um dos principais manda-chuvas do nosso corpo. Conversamos um pouco com ele, que em certo momento de aparente desorientação, comentou que precisava voltar para o trabalho no navio?!?
Na semana seguinte, após a cirurgia ter acontecido, o Sr. B, precisou ficar internado no CTI, o que é muito comum nas cirurgias delicadas. Porém, após este período, retornou para a enfermaria, mas uma pneumonia oportunista o alcançou e o Sr. B, precisou retornar para o CTI.
Preocupadas por não encontrá-lo novamente na enfermaria após a cirurgia, optamos, eu e uma médica do grupo, ir visitá-lo. Encontramos o Sr. B, bastante debilitado e quando nos reconheceu, ficou bastante agitado. Lembrei-me imediatamente das suas palavras em nosso último encontro, dias anteriores a cirurgia...
Sei que vai dar tudo certo, mas logo na minha cabeça? Estou com medo!
Retornei da minha pequena abstração e escutei a médica tentando acalmá-lo, dizendo para ele ficar tranqüilo, que estava sendo bem cuidado e que a sua cirurgia havia ocorrido dentro do esperado...
Por dentro, eu tentava acomodar a minha impressão sobre o quadro do Sr. B, as palavras não saiam da minha boca e meu olhar para ele era de tentar passar conforto e solidariedade. Silêncio.
A minha colega e médica, afastou-se para ir checar o seu prontuário e eu fiquei ali, ao seu lado, fazendo o que no momento eu achei o melhor...
Falei baixinho para o Sr. B, vamos rezar juntos? Ele então me devolveu um leve sorriso, fechou os olhos e ficamos os dois ali, em silêncio com a nossa prece interna. Quando terminamos, ele havia adormecido. E eu, observei que as palavras silenciosas em certas situações, podem ser um excelente relaxante emocional.
Eu espero, sinceramente, que na próxima quarta-feira, eu possa encontrar com o Sr. B novamente. Quem sabe, na enfermaria e bem longe do angustiante CTI ?

Um comentário:

Keila Costa disse...

Melhoras pro senhor B; e beijo procê Nina!