quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A corajosa Senhora Z.

- Muito prazer em conhecê-la!
Escutei de uma senhora pequena, morena, de olhinhos estreitos e alegres, após me apresentar e iniciar uma conversa. Quando questionada pelo motivo de estar ali, seu rosto abriu um grande sorriso, senti que ela queria “papear”. Passou então, a “tricotar” a sua vida, ponto por ponto. A Senhora Z., é órfã desde a sua infância e quando pequena, viveu de casa em casa de parentes, que não a pouparam do trabalho árduo. Sua vida sempre foi de bastante labuta.
- Desde muito nova fui trabalhar na roça, depois fui vender laranjas na feira. O meu último trabalho era catar ferro velho. Juntava tudo que podia, carreguei muito fogão e geladeira nos ombros, por isso tenho essa dor aqui - apontou para as suas costas, bati muito ferro - mostrou as mãos, e raspei muito alumínio, completou com a voz quase sumindo de cansaço, devido à fibrose pulmonar.
- Era tanta tralha, tanto ferro no meu quintal, que tinha medo de juntar algum bicho ruim, então mantinha tudo arrumadinho. Eu mais meu marido já falecido, trabalhamos muito. Mas Deus agora é quem cuida de mim. Ele é quem sabe...
Sua internação foi feita por dois vizinhos de quintal e únicos amigos que possui. Eles relataram que ela estava fazendo as vezes de pedreiro, quando desmaiou no quartinho em que vive.
- Não sei o que tenho, é uma dor que não é dor...
- Um mal estar, completei...
- É, é isso, um mal estar. Aí sinto falta de ar e até a minha visão deu pra ficar turva. “Tô” vendo a doutora com uma fumaça na frente, tudo embaçado. Só saio deste hospital, depois que fizerem um exame na minha cabeça. Devo ter algum “treco” ruim aqui dentro, termina afagando a própria cabeça.
- Fico preocupada também com o meu quartinho, sabe como é hoje em dia, casa sem gente é a mesma coisa que casa sem dono.
Pergunto se ela tem filhos e ela nega.
- Tenho não doutora, a minha família é a minha gatinha que eu chamo de Oncinha.
Eu falo assim pra ela:
- Cinha, você não pode subir na minha cama, porque você anda por aí, passa pelo valão, pelas sujeiras da rua, se subir aqui, pode passar doença pra sinhá, e aponta para ela mesma.
- E aí? Como é que eu vou poder comprar sua comida? Ela me olha, faz um miado dengoso e escorrega para o chão. Parece que é gente...
Comecei a me despedir da Senhora Z., quando chegou uma dupla de mulheres que deram início a músicas alegres para as pacientes da enfermaria. A Senhora Z levantou, dançou e cantou junto, estava animada...
Despedi-me falando para ela:
- Foi um prazer conhecê-la!
E realmente o foi. Meu dia, a enfermaria e o hospital, ganharam novas cores, pensei alto:
- Hoje eu conheci a cor da coragem!

Um comentário:

onzepalavras disse...

Lindo texto. Sensibilidade ímpar.

Obrigada pela visita ao onzepalavras e pelo seu comentário. Espero que você me acolha como sua seguidora, e que volte mais vezes ao meu espaço, como eu farei aqui no Das Verlieren.

Ana