Ela chegou ao meio da sessão, um pouco angustiada com um semblante que em nada lhe pertencia. Nada era a sua palavra de ordem naquela tarde, repetiu-a muitas vezes naqueles 30 minutos, onde a palavra lhe transbordava os sentimentos. Não suportava mais esperar, planejar, imaginar-se novamente em braços que conhecia bem serem os braços do seu próprio desejo insano, totalmente perdido em profusões de lembranças. Reinventados em capítulos a serem passados e compartilhados com o nada. Lágrimas a tomaram em segundos...
Depois de alguns minutos de pranto, rompeu em uma gargalhada nervosa e totalmente desmedida, tentando inutilmente organizar um discurso. Parecia um cantar teatral e fictício. Mas era seu e lhe pertencia.
Se levantou e caminhou até a sacada do consultório, tocou na folha da planta que emoldurava a paisagem que a enquadrava e falou de uma só vez, verborragicamente:
- Eu não sei mais o que posso esperar da minha vida, onde tudo e nada acontecem. Há dias em que consigo elaborar uma fuga do tédio e marasmo dos meus sentimentos, todos guardados em gavetinhas que eu mesma organizei e mantenho estritas ao meu mundinho particular. Em outros, eu me empenho em planejar uma fuga ao lado de alguém que não é real, que não pode compartilhar os meus pensamentos e vontades. Sinto então um grande vazio, só me restando olhar para a imensidão da paisagem que tenho da minha janela. Eu preciso tirar do meu pensamento a idéia de que eu não posso mais viver o que perdi. E completou olhando nos meus olhos:
- O que será que eu perdi quando a morte que nada sabia de nós, o levou? Por que não consigo aceitar o fato de que Pedro, nada podia fazer para evitar o abandono que eu sinto? Será que todos os dias da vida que ainda me resta, eu vou sofrer da despedida que não fiz, da falta que desesperadamente me toma todos os segundos, minutos e horas? Quando vou parar de respirar a melancolia que me toma os dias?
Pedro não pode mais sorrir por mim... Parou um minuto para pensar sobre as suas últimas palavras, repedindo-as num sussurro:
- Sorrir por mim...
Quando terminou o seu tempo, a Senhora X agradeceu e saiu porta afora. Quem sabe mais aliviada com o que conseguiu perceber ser só seu e não do Pedro, para ganhar novamente a sua vida. A vida que lhe pertencia e que ela ainda desconhecia como uma possibilidade intransferível de ser tão real, quanto o momento de aprender a sorrir para si mesma outra vez.

2 comentários:
E como é difícil sorrir pra sim mesmo, e não conjeturar possibilidades de sorrisos conjuntos, compartilhados, como nos miramos no outro como uma salvação de tudo em nós que está perdido...
Beijo
Obrigada Keila! O mais interessante é observar o quanto humano é este se ver no outro, e humanizar-se deste olhar...
Beijos.
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