Quando iniciou a sua terapia, J tinha apenas seis anos e até hoje está em atendimento. Veio por indicação do seu pediatra e inicialmente apresentava uma angústia que lhe tirava da sua infância, a capacidade de brincar e eleger os seus verdadeiros afetos.
O pai, um homem extremamente cuidadoso e amoroso com o filho, o trouxe pela mão e ao entregá-lo para fazer a terapia, pediu para que o ajudasse.
Diversas vezes tentei uma reunião com a mãe. Esta, por sua vez, vive em um mundo egóico e totalmente privado, onde J só tem permissão de compartilhá-lo, quando ela o quer e é do seu interesse.
Neste universo está uma criança que através do lúdico, demonstra os seus medos, dúvidas e aprende a usar seu potencial criativo em benefício próprio.
Desde as primeiras sessões, J só conseguia desenhar imensos corações vermelhos, que interpretei como uma couraça que havia criado para se defender de um mundo que não compreendia bem. Aos poucos, J foi inserido outros objetos e personagens em volta do seu coração vermelho e permitia assim que outros se aproximassem mais do seu pequeno universo particular, repleto de perguntas sem respostas.
J conhece a mãe que tem, e ainda sofre muito com seu jeito truculento e insensível. Conquistou com muita paciência o seu espaço, e foi aprendendo como poucos a se colocar e a fazer que seu tempo seja um tempo bom e feliz, e que não serão os obstáculos que acontecem no seu dia a dia, que o impedirão de seguir com os seus desejos infantis, pois já internalizou que a sua história é igual à de muitos meninos e meninas com pais separados...
O menino J é bom de bola e adora falar sobre o assunto. É astuto nas brincadeiras que apresento durante as sessões, e entre as poucas palavras que diz (ele é de falar pouco), sorri e deixa clara a alegria de dividir comigo uma partida de obstáculos, damas ou memória. Percebo que o ato de jogar tem para ele uma função especial, e que também vai além de se divertir e relaxar. É a maneira que elegeu para se acalmar e elaborar suas questões mais difíceis.
Atualmente, trabalho a sua alta da terapia. O menino J já está com nove anos e se apresenta mais fortalecido e menos angustiado, pois criou formas de conviver com o temperamento inconstante da mãe, e de se proteger dos seus ataques de sempre.
J sabe que não pode mudar a sua mãe. Até porque, como todo filho, lhe tem amor incondicional.
Hoje, o grande amor paterno é o que mais valoriza e admira. Seu último desenho foi dedicado ao pai. J o desenhou com um coração externo no lado esquerdo do peito, e explicou que aquele coração pulsa por ele...
E eu, concordo com o menino J. Penso que lhe é o suficiente.
2 comentários:
Acho que vivi um pouco como esse menino J...ainda me sinto um pouco como ele...
Mas pelos seus escritos, eu percebo que seu coração é imenso e possui a capacidade de acolher a muitos outros corações!
Obrigada por se dividir!
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