terça-feira, 21 de junho de 2011
Na corte do Rei Arthur
Ester é uma jovem paciente e tem 22 anos. Desde a sua primeira entrevista apresenta discurso verborrágico e bastante adolescente com os fatos do seu dia a dia. Namora Arthur, mas tem Henrique (o ex), como o seu principal significante interno.
Ester passeia entre os seus dois eleitos, como se estivesse em um palco, interpretando sua própria peça teatral. Apesar de tudo, sofre com as dúvidas e pensamentos recorrentes que a invadem e paralisam seus dias, transformando-os em tempos cinzentos. Já passou por cenas de tentativas de suicídios, em mergulhos (rasos) depressivos internos.
Ela conta que sempre encontra com Henrique no pátio da universidade, seu corpo treme, as mãos gelam, sua voz se transforma e não consegue observar mais nada em seu redor. Henrique a toma integralmente para si e de forma indecifrável.
Porém, outro entra em cena: Arthur.
Namorado certinho (obsessivo), forte e dono das leis que ela tanto precisa para estar em equilíbrio.
O que Henrique bagunça, Arthur organiza e assim vai...
O triângulo amoroso tem em comum os mesmos amigos e locais de sempre. Por ironia do destino, freqüentam um boteco chamado Salvação. Interessante e significativo este cenário.
Ester revela que Arthur percebeu seus sentimentos por Henrique, apesar dela o esconder de tudo e de todos. Em relação aos seus sentimentos afetivos, está desesperada com o impasse que a "vida a colocou".
- Algo terrível aconteceu. Revela de forma dramática.
- Os dois festejaram seus aniversários e convocaram os amigos de cada parte para uma chopada, no mesmo dia e no mesmo local. Fui convidada pelos dois!
- E então?
- Eu não fui! A fala de Ester saiu desconcertada.
- Não tinha como, fiquei sabendo que eles se colocaram em duas grandes mesas com os amigos de cada lado e se digladiaram com olhares e chispas verbais durante a noite toda. Ainda bem que eu não fui! Ia ser difícil ver os dois se atacando. Já pensou, eu naquele meio?
- Como na corte do Rei Arthur, cara Guinevere? Ester então me devolveu um sorriso sedutor em resposta ao meu questionamento.
- Parece, né? Fez-se um pequeno intervalo...
- Quem será que vai tirar essa espada do seu coração? E me levantei...
- Te espero na próxima quinta-feira, ok?
Ester aprumou o corpo, enrolou nervosamente os cabelos entre os dedos e falou:
- A boa de hoje vai ser tomar uns chopes no Salvação com a Patty...
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3 comentários:
Triângulos são eternos. Como é a base do universo não há como não permear nas relações.
Ester, Apolo e Dioniso, belo triângulo.
Concordo e muito com você! Ester (nome fictício), foi escolhido por acaso, assim como Henrique. Porém, Arthur fazia parte do relato. Foi no início, quando ainda ensaiava os primeiros passos na psicologia clínica. Guardo muito respeito por esta paciente que também muito me ensinou. Com ela fiz as primeiras intervenções analíticas, no sentido de trazer o simbólico para o real e assim, possibilitar uma quebra no seu sentimento de culpa que muito a angustiava. Grata pelo seu comentário e volte sempre!
Primeira visita no teu blog. apreciei muito. e voltarei.
sobre este texto. a cordialidade dessa angústia está no caráter, na maneira inconsciente de buscar a honra ainda que nao se perceba?
hoje é cotidiano o trair sem molestações internas. penso que as "Ester" da vida estão cada vez mais estéreis, invisíveis, se existirem. confiar se tornou um peso absurdo e vago demais.
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