Por Tania Coelho dos Santos
Publicado em OPÇÃO LACANIANA Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, número 30, eds. Eólia, SP pags. 2001
A experiência analítica limita-se pela tarefa mesma que ela nos impõe: a de tudo dizer. O acting out irrompe como obstáculo interno a essa tarefa, isto é, mostra o que não se diz porque é impossível de dizer. Nas páginas que se seguem vamos ensaiar a hipótese de que há um laço de estrutura entre o fenômeno do acting-out e a passagem ao ato ao término de uma análise. Acreditamos seguir algumas pistas de Lacan tais como a que se segue: “No acting-out diremos portanto que o desejo para se afirmar como verdade, se engaja numa via onde, sem dúvida, só consegue chegar de uma maneira singular [...]’ele não é articulável, embora seja articulado’... ele é articulado, objetivamente se esse objeto que aqui designo é, o que chamei da última vez, o objeto a.”
Para seguir essa pista é preciso que nos recordemos de que o sujeito de que fala Lacan constitui-se no lugar do Outro, marcado pelo significante. O Outro é barrado, isto é, sempre enigmático, incompleto, logo é impossível apreendê-lo todo porque “a garantia de sua existência falta”. O sujeito, por conseguinte, será uma ocorrência também incerta no campo do Outro. Por isso Lacan nos dá uma pista para reconhecê-lo na experiência analítica: “o único traço de sua ocorrência é um objeto que se desprende, que se dejeta ou se deixa cair”. Eis aí a importância do acting-out e da passagem ao ato como índices da ocorrência do sujeito como impossível de dizer.
Passo então a distinguí-los sem deixar de mostrar sua articulação. Eles têm em comum o fato de constituírem modos de dejeção da cena. É preciso distinguir a dejeção de um objeto, da dejeção do próprio sujeito. O acting-out é uma saída à maneira de um contorno. Trata-se de uma dejeção do campo da fala pois “o objeto” se mostra. A ênfase é demonstrativa, orientada para o Outro e, portanto, não requer interpretação. O acting-out é já, em si mesmo, uma interpretação do desejo. A passagem ao ato é o gesto de deixar para lá o que é “impossível de dizer”. O sujeito devém o mais “apagado pela barra” e é dejetado da cena analítica. No momento do maior embaraço frente a uma conjunção impossível entre um “excesso de significantes no Outro” e “a falta de um único que possa representá-lo” que, com a adição comportamental da emoção como desordem do movimento, o sujeito precipita-se do lugar historiado que ocupava até então e bascula “fora da cena”. É nesse sentido que compreendemos a destituição do sujeito suposto saber ao término de uma análise. Ela designa o fim de uma análise e difere de uma interrupção quando é correlativa da passagem ao ato da realidade sexual do inconsciente.
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Um comentário:
awwn você escreve muito bem, amei. Ah ta aqui o meu tumblr : http://worldwhereeverythingisperfect.tumblr.com/
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