segunda-feira, 12 de abril de 2010

O Estranho, A Ética e a Estética

1º cena:
Certo domingo, minha sobrinha de 16 anos, apareceu com as unhas pintadas de verde “cheguei”.
- O que você acha tia, gostou?
Minha cunhada, e também sua tia, olhou com espanto e antecipou qualquer possibilidade de resposta minha, fosse ela de aprovação ou não, e deu sua opinião sem dó nem piedade.
- Nossa que estranho! Horrível! - Falou sem parar de caminhar.
A garota deu uma risada gostosa. Imaginei o prazer que deveria estar sentindo, de causar a estranheza na tia, que por sinal, ela adora.

2º cena:
Dois dias depois, juntamente com outras pessoas, esperava o elevador com a minha filha na Cultura Inglesa, quando surgiu do nada, uma adolescente, e, ato contínuo, sem esperar que seus ocupantes desocupassem o recinto, entrou no elevador sem pedir licença. Aliás, não sei bem ao certo se ela percebeu que havia uma fila. Espanto geral. Porém, não escutei um ai.

3º cena:
Acordei em um dia daqueles, um dia não. Achando tudo feio, inclusive eu e meu corpo que já conta com cinquenta primaveras, a caminho (sou bem sincera), dos 50 e ½, ai, ai...
Então, vira daqui, vira dali, a realidade caiu como uma carapuça e pronta para ser subjetivada. Sem rodeios falei para a mulher do espelho que me observava com olhar crítico:
- Nunca pensei que falaria isto, mas eu preciso urgente de uma atitude drástica, mas qual (como se não soubesse)?
Reagindo a tal impulso, pois decididamente, não estava a fim de abrir mão de sair, beber uns chopinhos, vinho tinto e seco e sem esquecer os acompanhamentos que nos fazem rebolar o queixo de puro prazer gastronômico, o chamado quitute de botequim, que por sinal, é o que não falta nessa cidade abençoada por Deus, sentenciei: - Quero uma abdominoplastia agora!

Saiu assim, de supetão (meu anjinho rebelde pode até me entregar e contar que eu já vinha desejando isto), como um desejo reprimido e encalhado. O mundo então, em questão de minutos, ficou lindo, e o dia, sim!

Misturando tudo

Vou explicar:
Estes acontecimentos, as unhas verdes da Tatá, a estranheza da minha cunhada, a falta de respeito e má educação da colega de curso da Mariana e o descontentamento com meu corpo...

Ia para a terapia e nem a beleza da Praia de Botafogo me tirou do transe. Minha mente repetia sem parar: unhas verdes, falta de limites, de ética, fazer plástica, e, fazer plástica.
Êpa, pensei duas vezes, fazer plástica? Isto mesmo, fazer plástica!

Só Freud dava jeito naquela situação. Eu ia pensando, imaginando, arrumando mil desculpas.

Ao mesmo tempo, me sentia fútil e internamente repetia, nossa, com tantos problemas no mundo...

Desencana, foca nos seus projetos, pensa nas meninas, eu já tenho um bocado de responsabilidades na vida.

Pois é, mas aí é que está, agora eu quero pensar em mim. É urgente deixar de reprimir meus desejos, sejam eles pequenos e bobos, são meus.

“O Estranho”

Segundo Freud, é certo que o estranho seja algo familiar e também reprimido e que voltou. Por isso, a sensação de estranheza acaba por satisfazer essa condição. Mas lembra também, que nem tudo que nos causa estranhamento, tem a ver ou evoque desejos reprimidos, e seja por causa disso, estranho.

Só raramente um psicanalista se sente impelido a pesquisar o tema da estética, mesmo quando por estética se entende não simplesmente a teoria da beleza, mas a teoria das qualidades do sentir. O analista opera em outras camadas da vida mental e pouco tem a ver com os impulsos emocionais dominados, os quais, inibidos em seus objetivos e dependentes de uma hoste de fatores simultâneos, fornecem habitualmente o material para o estudo da estética. Mas acontece ocasionalmente que ele tem de interessar-se por algum ramo particular daquele assunto; e esse ramo geralmente revela-se um campo bastante remoto, negligenciado na leitura especializada a estética.
O tema do “estranho’ (A palavra alemã, traduzida em todo este artigo pelo inglês “uncanny”, é “unheimlich”, literalmente “uhomely”), é um ramo desse tipo. Relaciona-se indubitavelmente com o que é assustador – com o que provoca medo e horror; certamente, também, a palavra nem sempre é usada num sentido claramente definível, de modo que tende a coincidir com aquilo que desperta o medo em geral”.
(Freud, vol. XVII, cap.I, pags. 275 e 276).

O desejo realizado e subjetivado

Dias depois, após muita correria, eu entrava no centro cirúrgico do Instituto Ivo Pitanguy, na Santa Casa da Misericórdia. Nem preciso lembrar que estava ansiosa e apavorada. Quando voltei da cirurgia (intermináveis sete horas), a intervenção não doía “nadica” de nada. Porém, conforme o efeito da anestesia ia passando, foi me dando um pequeno mal estar, não tinha posição que desse jeito, os próximos três meses, vai ser uma “barra”, pensei.
Devo confessar que três acontecimentos serviram para acomodar os meus incômodos pós-operatórios; a minha vizinha de enfermaria, que havia se submetido a um liffting facial total e estava que parecia ter levado uma surra, a minha barriga, repaginada e linda de “doer” (nos dois sentidos, metafórico e real) e “o estranho”, texto do Freud.
Passava minhas intermináveis horas, lendo o volume XVII, e não pude deixar de “linkar”, não só com a reação de estranhamento da minha cunhada em relação às unhas verdes da Tatá. Afinal, que mal há serem laranja, lilás, púrpura, amarela, enfim, do jeitinho que cabe a sua recém vida de mocinha, linda como é...

Avaliei também, de como temos a mania de reprimir os desejos "diferentes" dos nossos filhos e filhas.
Observei que o estranho sentimento de repudio pela atitude totalmente sem noção da garota do elevador, que como ela, muitas crianças, jovens e adultos, são levados a ações que já se tornaram comuns, como ser mal educado, não ter limites, e talvez o pior, ter ética "zero". Esta, que passou a ser infelizmente, para o nosso temor e preocupação, corriqueira e usual.
Bem, quanto à estética, percebi depois de tudo isso, que ela tem a ver com a nossa autoestima, com a nossa qualidade de vida, de saber o que pode ou não nos pertencer. E também, que tem a ver com a nossa ética pessoal, com a nossa educação e até com o direito de acharmos algo estranho, quando assim o quisermos.

Freud como sempre, em seu estudo, colocou de maneira simples e direta, um assunto tão atual.

É claro que seu artigo, vai mais além e passa por outros caminhos muito interessantes. Citei apenas, o que achei mais pertinente.


Aliás, Tatá, adorei as suas unhas verdes, lembrou a primeira vez em que fui à manicure e pintei as minhas unhas de laranja, “cheguei”, é claro!

Um comentário:

Renato Pittas disse...

“uhomely”

Muito bom. é por ai

O que nos cura é sermos o que somos!


Parabéns