Antonieta é uma paciente idosa que já passa dos 78 anos e como poucas é extremamente ativa e ciente das limitações que a idade lhe impõe na sua dinâmica de vida diária. Viúva, vive solitária com suas atividades e recordações. De seu casamento nasceram duas filhas, a mais velha que chamarei de Ana e a outra mais nova e principal fonte de preocupações que chamarei de Anita.
Antonieta relata que Ana é médica e está sempre muito ocupada e comprometida com a sua rotina entre hospitais, consultório e a família. Já Anita não constituiu família, é separada e vive lá e cá, entre o seu trabalho como arquiteta e as crises que a doença que a invade lhe consome os dias em queixas sem fim. No último ano Anita vem se dividindo em morar com a mãe por conta das dores que apresenta por todo o corpo, sente-se melhor quando em companhia dela. É uma mulher de 53 anos bastante conturbada e infantilizada. Extremamente egóica e com atitudes impacientes. Antonieta por sua vez, fica dividida entre dar limites e não magoar a filha doente e sensível. O mal estar doméstico impera, pois tudo que Antonieta tenta ponderar, Anita toma como pessoal e transforma uma simples ida ao cinema, por exemplo, em um acontecimento estressante e desagradável.
Antonieta relata que Ana é médica e está sempre muito ocupada e comprometida com a sua rotina entre hospitais, consultório e a família. Já Anita não constituiu família, é separada e vive lá e cá, entre o seu trabalho como arquiteta e as crises que a doença que a invade lhe consome os dias em queixas sem fim. No último ano Anita vem se dividindo em morar com a mãe por conta das dores que apresenta por todo o corpo, sente-se melhor quando em companhia dela. É uma mulher de 53 anos bastante conturbada e infantilizada. Extremamente egóica e com atitudes impacientes. Antonieta por sua vez, fica dividida entre dar limites e não magoar a filha doente e sensível. O mal estar doméstico impera, pois tudo que Antonieta tenta ponderar, Anita toma como pessoal e transforma uma simples ida ao cinema, por exemplo, em um acontecimento estressante e desagradável.
Um dos motivos principais de Antonieta para estar em terapia são as constantes quedas causadas por desequilíbrios repentinos. As quedas em idosos são fonte de inúmeros trabalhos científicos e uma das maiores causas inclusive, de óbitos na terceira idade.
Antonieta foi encaminhada pelo seu geriatra, pois ele acredita que apesar de toda a sua determinação para cuidar da saúde (ela faz ginástica, arruma a casa e participa de grupos de reabilitação cognitiva), algo em desequilíbrio, talvez o psicológico, pode estar possibilitando tal sintoma.
Desde o início da sua terapia, Antonieta vem demonstrando interesse em tentar compreender os constantes tombos e a "falta de chão" que a acomete vez ou outra. É constante aos nossos encontros e bastante falante, não apresentando dificuldades para se colocar ou escutar as intervenções que lhe faço. Procuro pontuar as sessões sempre com as palavras que ela coloca, fazendo um link do seu discurso com os acontecimentos passados e também com os que vão se apresentando no momento.
Percebo que tenho uma jóia maravilhosa e que, aliás, muito tem me ensinado e contribuído com as suas pontuações e subjetivações perante a vida.
Percebo que tenho uma jóia maravilhosa e que, aliás, muito tem me ensinado e contribuído com as suas pontuações e subjetivações perante a vida.
O atendimento com idosos como Antonieta é sempre muito agradável, pois são sujeitos onde o desejo já fez moradia eterna e está longe de pedir aposentadoria. Eles se vêm como são e por isso não tem receio de se colocarem.
Antonieta inicia a sessão com uma questão:
- Tenho uma dúvida que me atormenta, acho que sempre sofri de dislexia*. Olho para ela e sinalizo para evoluir mais. Ela continua e expõe que acredita ter dificuldades para se concentrar. Se inicia uma leitura, ela dorme e quando não dorme, fica relendo as páginas como se não compreendesse o que ali está escrito. Pergunto se sempre foi assim. Ela afirma que sim. Entretanto, para os outros afazeres o mesmo não ocorre e muda de assunto, comentando sobre as atitudes da filha Anita.
- Anita está sempre me cobrando cuidados. Reclama que não lhe dou atenção e que eu não a aceito como ela é, além de não compreender as suas dores. Ela faz terapia corporal, massagens e faz uso de diversas medicações, o que me preocupa muito. Tem atitudes extremadas e até de vermelho vivo já coloriu os seus cabelos...
Coloco como é interessante que Anita está sempre demandando o seu amparo, e pergunto:
- Você é afetiva com ela, quer dizer, abraça a sua filha, lhe faz elogios ou um simples um cafuné?
Antonieta faz uma pequena pausa para responder:
- Você é afetiva com ela, quer dizer, abraça a sua filha, lhe faz elogios ou um simples um cafuné?
Antonieta faz uma pequena pausa para responder:
- Não, eu não consigo ser assim. Muda de assunto e começa a falar da neta, de como é criativa e decidida, além de ser bastante alegre e comunicativa.
Relato vai, relato vem e percebo que posso lhe colocar sobre o principal motivo daquela sessão: a concentração.
- Antonieta, que concentração é essa que você busca dentro de si? Será a mesma que Anita busca de você? O que será que você não está conseguindo permitir que aconteça e que se faça uma ligação na relação entre você e Anita? Interessante observar, de quantas cores Anita precisará pintar os cabelos para atrair a sua atenção, de quantas reclamações de dores e massagens corporais serão necessárias para receber seu abraço e o toque das suas mãos, de quantas palavras alegres e comunicações verbais estarão faltando para que uma relação mais criativa possa vir a fazer parte da vida diária entre mãe e filha?
Antonieta parou, pensou e respondeu:
- Será que estou precisando me concentrar mais em Anita? Eu sempre fui tão atarefada com meus afazeres domésticos, com meu esposo e nossos passeios, tão preocupada com a Ana e todos os obstáculos que a vida lhe apresentou, sabe como é a medicina, o marido difícil, a filha para criar e acabei por deixar a vida de Anita seguir por conta dela, afinal não teve filhos...
Fizemos silêncio então ponderei:
- Antonieta, um pouco de concentração em Anita até que será um bom remédio para as suas dores, esquisitices e até as queixas intermináveis que ela apresenta. Quem sabe se a concentração que você trouxe hoje não seja um pouco que falta para vocês e também para lhe possibilitar um caminhar mais seguro e sem tombos?
Levantei da minha poltrona e abri os braços para Antonieta. Ficamos ali, abraçadas e sentindo o inevitável conforto da palavra que havia generosamente se apresentado diretamente do seu inconsciente para o setting analítico: concentração.

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