Por Neuma Barros e Edilene Queiroz
O estranho não é nada novo ou alheio, porém, algo muito estabelecido na mente. O estranho é algo secretamente familiar, que foi submetido ao recalque e depois voltou.
Alienou-se, manteve-se afastado, separado, transformado em estranho-alheio através do processo de recalque, como Freud revelou em seu artigo “O Estranho”.
A vida, desde seus inícios – é uma tentativa de assimilar o estranho, o estrangeiro, tornando-o familiar. Eis o fio que marca seu percurso. Na demência, contudo, há um „sem fundo‟ que não alcança tradução, um nunca se sentir “em casa”, quando a inquietante estranheza não mais pode ser apropriada. Ai retorna o que outrora fora estranho, estranho que é familiar e que somente se alienou. A estranheza prepondera, vira presença familiar. Entre o estranho e o familiar, surge um sujeito incerto. Perdido e despojado de suas referências, é jogado à estrangeiridade de si mesmo, ao duplo de si próprio. As imagens de si e do outro não mais encontram a imagem da memória, a vida desliza, em descompasso.
Freud revelou: máquina de condensar, compor, organizar, aparelho de associar, traduzir, interpretar, eis o que somos. Sujeitos compelidos a agir e pensar, movidos pela alteridade de um circuito que pressiona à ação em uma certa direção. Freud nos mostrou, por exemplo, que quando nos vemos confrontados com afetos apartados, com representações segregadas, inconciliáveis, somos compelidos a incluí-los numa rede simbolizante, movidos por uma espécie de “compulsão a vincular, a associar”. Freud defendia que “nos sonhos predomina a compulsão a associar, que sem dúvida também domina primordialmente a vida psíquica em geral. Ao que parece, dois investimentos coexistentes precisam pôr-se em mútua conexão. ” (Freud, 1895) Freud também dá exemplos do predomínio dessa compulsão na vida de vigília.
Eis, em suma, a proposição a que nos levam nossas reflexões sobre a doença de Alzheimer: a compulsão à composição, a tendência à organização, muito ligada ao trabalho do eu, de Eros, de fazer ligações, de criar redes de simbolização, se desorganiza. Ao mesmo tempo em que as memórias se dissolvem, a composição vai se perdendo, se dissociando. As histórias se sucedem, perdidas no tempo. Há um retorno à simultaneidade dos primeiros tempos da formação do aparelho psíquico, quando não existe ainda uma relação de causa e efeito.
Um estrangeiro ressurge dos labirintos do psiquismo: a função psíquica que trabalha empreendendo elaboração secundária se enfraquece; a compulsão à composição, o trabalho de produzir condensações, de pôr ordem, estabelecer relações, organizar tramas inteligíveis, processando traduções, não mais se sustenta. A cada regressão, o estranho interno encoberto pelo recalque, aflora. Algo é encontrado sem se procurar, intensidades perdidas ressurgem o condensado de representações que compõem a história do sujeito se decompõem, os alicerces identificatórios cedem. Um sujeito desconhecido se mostra, movido por rompantes libidinais e de intensa agressividade. O horizonte do ser se esmaece, a ”tarefa de ser” perde a âncora identitária, o sujeito perde o continuum da esperança, perde-se de si mesmo e de sua morada, não mais habita em si.
O paciente de Alzheimer move-se na trilha movediça do esquecimento mais radical. Um não lugar e um não tempo, nem memória e nem história, eis a crônica de uma morte anunciada, quando os elos da memória e da história se rompem. Um caminho sem volta, que leva à descontinuidade e ao descentramento de si, da existência, do destino.
Este texto foi elaborado no contexto do projeto de pesquisa “Corpo, pulsão e linguagem”, do Laboratório de Psicopatologia Fundamental do EPSI – Espaço Psicanalítico, em colaboração com o Laboratório de Psicopathologia Fundamental e Psicanálise da UNICAP/PE. O trabalho partiu da hipótese da neurologista Silvia Laurentino, segundo a qual o eu e supereu se desorganizam em decorrência da doença de Alzheimer. Meus agradecimentos à Silvia, que a mim confiou o desafio desta reflexão, à Edilene Queiroz, que comigo se debruçou sobre a complexidade do tema, e também aos psicanalistas Maria Helena Fernandes e Ronaldo Monte, pelas imprescindíveis contribuições.
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